19 agosto, 2019

Ao Porto


Entendo bem porque Dom Pedro, o primeiro do Brasil, à inauguração daquele maravilhoso país, quis de qualquer modo deixar o coração no Porto, cidade intrincada que se ama apenas por maturidade. Não é para paixões inconsequentes, o Porto é uma disciplina, uma localização espiritual que se reconhece sobretudo no mapa da resiliência.


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Valter Hugo Mãe *

Julgo que aprendi a amar o Porto pela robustez do casario. Vinha de olhos cheios com as minhas terras de Guimarães, onde passávamos sobretudo pela aldeia, as pessoas esparsas, uma rarefação maior, e encontrava nos Aliados a monumentalidade da pedra, a declinação em direção ao rio onde a pedra é uma ideia contínua. Eu via um povo contínuo. Gente junta como a fazer força, a erguer uma cidadania preparada para qualquer ataque.
Diziam-me que era a cidade Invicta, a que nunca sucumbiu. E o meu pai explicava sempre que o fascismo começou a cair ali, e que a consciência elementar do bem e do mal se apurava muito mais naquele lugar, na cidade monumental do trabalho. Mostrava os braços. O meu pai foi longamente um administrativo, mas mostrava os braços porque a palavra trabalho esplendorava quando implicava o dispêndio físico. O Porto, eu via pelas pedras habitadas, era uma ideia conquistada a certo milagre físico. Não se entende sem assombro e sem sombra.
Lembro bem da idade em que comecei a ir de comboio sozinho às livrarias e às lojas de discos na Cedofeita e nas imediações do Rivoli. Erguia a cabeça como um portuense orgulhoso, mesma carne daquela antiquíssima equação. Eu lembro do entardecer, quando o povo eminentemente proletário recolhia e o intrincado das ruas deitava fantasmagorias sobre a minha solidão. Pouca coisa enriqueceu o meu imaginário mais do que isso. Essa insinuação de gente no bulício quase nenhum que me pareceu invariavelmente coisa de inverno. Uma estranheza de sentir prazer ao demorar ali, demorar no entardecer, chegar à noite com o frio, um pouco de vento, o silêncio profundo.
Em algumas alturas, como agora, vou deitar os olhos pelo promontório da Sé e espio só como é obrigatoriamente brava a vida naquele lugar. Seguimos meditando naquelas pedras, fugazes na sua eterna memória, na sua paciente resistência. O Porto permanece feito para amores maduros. Entrega-se devagar, talvez se entregue nunca. Num frasco de vidro ou num poema, sei bem que também eu lhe deixarei, inevitavelmente, o coração. Sinto pelos braços um leve sobressalto. Pudesse o poema levantar as pedras, ser físico, valer à cidade como quem nela trabalhou.

Escritor

Nota de RoP: 

Valter Hugo Mãe foi protagonista de um programa cultural do Porto Canal, no qual fazia também o papel de entrevistador. Foi do melhor que vi na televisão do FCPorto. É um comunicador do melhor que há neste país. Como sempre, o que é bom, se não é bem estimado,procura novos ares... 

PS-Esta crónica sobre o Porto é uma delícia para a alma portuense 

4 comentários:

Soren disse...

Para a alma portuense e não só.

Como me identifiquei com este texto. Vindo de fora e vivendo anos no Porto (tendo família somente aí e na Beira Alta)... Foi como voltar ao passado. Tão real quanto belo. Só quem vive algum tempo no Porto (2 ou 3 anos não chegam) pode começar a entender o Porto. Se é que alguma vez o entendemos.

Sempre que posso regresso a essa estrutura; amigos, familia, pedras, casario, neblina, sons e silêncios; que me dá chão.

Rui Valente disse...


Perfeita designação, a sua, Soren!

Tanto o meu pai, como a minha mãe nasceram em diferentes regiões. Meu pai nasceu transmontano, em Chaves, e minha mãe no Minho, em Vila Verde. Ambos vieram com os meu avós par o Porto ainda crianças, e tornaram-se tão portuenses como eu, e minhas irmãs, que aqui nascemos.

Para quem já andou por outras paragens, algumas delas cativantes, nenhuma foi suficientemente sedutora para me raptar o amor que tenho por esta muito peculiar cidade. Nem sei como descrevê-la sem me esquecer de algum detalhe.

Suponho que o Valter Hugo Mâe, nasceu em Angola, mas não resistiu à misteriosa sedução desta cidade, estupidamente tão maltratada por quem sabemos.

Francisco Paulos disse...

Portuense de Cedofeita, e tendo por motivos profissionais vivido já em muitos lados,nunca deixei de levar o Porto comigo. As suas gentes são prestáveis, simpáticas,bairristas, justas e ordeiras, e por isso os mais diversos poderes abusam dela. Por mais palavras que se digam ou escrevam, o Porto não se explica, sente-se.

Rui Valente disse...


Francisco Paulos,

Também é isso, o Porto sente-se.

A minha é de Santo Ildefonso,onde nasci, mas já não vivo lá actualmente