15 janeiro, 2018

O progresso é uma treta, e o optimismo também


Sempre desconfiei dos optimistas. Em sociedades onde o consumo é a mola que domina os outros valores, é impossível acreditar na bondade do futuro. Os optimistas são por tradição incoerentes, porque quando acreditam nalguma coisa avançam, sem perderem tempo a reflectir nas consequências, mas que elas existem, existem.

Sempre me fez muita confusão o entusiasmo excessivo gerado à volta das grandes descobertas, tanto na ciência como na tecnologia, sem antes se consolidar o sucesso expectável das pequenas. Na classe das grandes descobertas, dou como exemplo a exploração do espaço, com a chegada do homem à Lua em 1969, e mais recentemente a instalação de uma sonda em Marte,e os custos colossais que elas implicam. Em contraste, no grupo das descobertas menores e de mais fácil acesso, temos o problema do combate aos incêndios que nos sugere logo a seguinte questão: serão as façanhas do espaço economicamente mais viáveis que um plano global tecnicamente evoluído de combate aos fogos no nosso próprio planeta? Serão mesmo, quando ainda existe tanta água nos oceanos e a dessalinização é hoje uma realidade? Será a tecnologia de combate aos fogos mais cara e sofisticada que as sondas e as aeronaves interplanetárias? Admitindo que sim (o que não acredito), os custos teriam naturalmente de ser  divididos por todos os países do mundo, o que não é o caso dos países exploradores do espaço planetário.

Com os medicamentos o optimismo inconsciente da ciência é semelhante. Nem sempre são lançados no mercado farmaceutico produtos com o tempo de testes suficiente para descobrir o grau de gravidade dos efeitos secundários, e o argumento não deixa de ser algo leviano, ainda que aceitável, por assentar no facto inevitável das consequências negativas.

Sem polemizar, cito o caso do Omeprazol (para o estômago). Por experiência própria, reconheço os seus pontos positivos em comparação com os medicamentos anteriores, no entanto é a própria comunidade ciêntifica que hoje já admite graves efeitos colaterais do seu uso prolongado (como a Alzheimer).

Na área da comunicação e da informática as contradições são as mesmas, o que por si só, recomendaria outra moderação aos optimistas militantes, porque nem sempre a pressa é sinónimo de progresso, como os exemplos atrás expostos comprovam. Os jovens, sobretudo, são muito vulneráveis com o que é novo e entusiasmam-se facilmente com os "brinquedos" das novas tecnologias, mas quem tira o proveito real são os seus criadores.

O progresso tecnológico está longe de corresponder ao progresso económico das populações, particularmente em países pseudo-desenvolvidos, como Portugal. Se por um lado encontramos anúncios nos jornais a pedir empregados para a indústria textil e do calçado por carência de mão de obra qualificada, por outro, sabemos quão forretas são as condições salariais oferecidas pelos empresários.

Se reconhecemos as vantagens da internet, também devemos questionar os efeitos negativos dessa ferramenta. Alguns deles são de fácil avaliação, sendo a pior delas mais prejudicial aos consumidores. As grandes empresas estão a transferir custos seus para os clientes, e nem por isso baixam os preços pelos serviços prestados. A tendência é essa, objectivamente. Será justo para os consumidores, aceitarem tal permuta sem uma redução dos custos? Ao pagarmos as facturas pela Net, estamos implicitamente a reduzir os custos de empresas como a EDP, a NOS, a MEO, a ÁGUA e o GÁS, etc., em sêlos do Correio, envelopes, papel, tinta, impressoras. Se quisermos arquivar em papel estes documentos, esses custos agora são todos nossos. Depois, ainda há quem se espante com o colapso dos CTT...

Os optimistas sempre encontram pretextos para contrariar o lado negativo das coisas, mas isso nem sempre é sério, e infelizmente não torna a vida dos mais pobres mais rica, portanto há que ter mais prudência antes de vermos a vida côr-de-rosa.     
    
Assim vai o mundo. Queimamos o planeta terra, mas procuramos outros planetas. Será também para os queimar?

5 comentários:

Soren disse...

The rise and fall of American Growth. É um livro acho que o Rui ia gostar de ler.

Tem muito a ver com o seu texto. Estas "novas invenções", este "novo progresso" é uma treta e o impacto na melhoria qualidade de vida é mínimo quando comparado com verdadeiras invenções industriais, médicas etc. do Séc XX.
Mas o efeito anestesiante é brutal.

A educação das crianças, cheias de estímulos inapropriados (electrónicos) está a transformar a sociedade num espaço zombie.

Anónimo disse...

Rui Valente
Espero que esteja bem e no activo, para denunciar este mundo imundo da política e do desporto, sempre sem papas na língua, frontal e objectivo.
Um abraço
Abílio Costa.

Rui Valente disse...

Abílio,

estou bem, obrigado. Enquanto a saúde mo permitir, nunca deixarei de dizer o que penso. Doa a quem doer.

Um abraço

Rui Valente disse...

Soren,

esse livro já foi publicado em Portugal?

Um abraço

Soren disse...

Acho que não.

Eu só tenho a versão americana (original).