27 setembro, 2014

Rescaldo do jogo entre o FCPorto e os de lá de baixo



Sem querer envolver-me demasiado nas questões técnico-tácticas, individual ou colectivamente, quero reafirmar aquilo que sempre disse relativamente à rotação* permanente de jogadores na formação das equipas de Lopetegui, e que se resume a isto: dado o equilibrio qualitativo do plantel esta época, concordo com algumas alterações nos próprios jogos (e não só nos treinos), que é a melhor forma de testar a qualidade de cada jogador com as suas próprias características, e a partir daí construir uma equipa que ofereça o máximo de garantias para chegar aos objectivos que, numa palavra, são as victórias. Só para exemplificar, acho que deu para perceber que Casimiro e Ruben Neves, jogando próximos, não dão profundidade à equipa, bloquendo-a logo à frente da defesa. Foi de certa maneira isso que gerou aquela confusão que esteve na origem do golo do adversário e desnorteou Fabiano naquela saída fora de tempo. Sofrendo um golo estúpido antes dos 2 minutos de jogo, é natural que isso tenha gerado alguma insegurança no resto da equipa.

Não querendo imitar o choradinho típico dos calimeros verdes (e vermelhos), com arbitragens, nem tão pouco seguir pela rota do silêncio submisso da direcção do FCPorto, é obrigatório falar no que ontem previa: o árbitro, como esperava, "fez as coisas pelo outro lado", deixando impunes faltas como as que originaram a expulsão de Maicon no jogo com o Boavista e permitindo que Brahimi levasse porrada de meia-noite, sem mostrar um cartão! E não vou entrar pela politicamente correcta treta de que «não foi por causa do árbitro que não ganhámos», porque isso em Portugal é admitir a justiça do resultado, é quase o mesmo que cometer Hara-Kiri à moda ocidental: sem honra (nem glória). Portanto, considerando a necessidade de alguns ajustamentos para a estabilidade da equipa de Lopetegui, a direcção do FCPorto não pode alhear-se destas assimetrias com as arbitragens, encolhendo-se como o mexilhão,  nem transferir para o futebol o laxismo de gestão do Porto Canal. 

É fácil, muito fácil mesmo atirarmo-nos aos treinadores, mas no FCPorto destas últimas épocas (3, +ou-), verifica-se que os erros têm partido do tôpo, da administração, seja por excesso de confiança, seja por outras razões desconhecidas. Tenho para mim que nem Victor Pereira nem Paulo Fonseca possuiam qualidade q.b. para treinar um clube como o FCPorto. Se o primeiro resultou de uma saída extemporânea do clube, quando Vilas Boas prometera continuar e ainda assim conseguiu in extremis ganhar o campeonato de 2012/2013, já Paulo Fonseca foi uma contratação de alto risco sustentado apenas num 3º. lugar louvável com o Paços de Ferreira, considerando as dificuldades manifestadas pelo anterior treinador.   

Já falei nisto a alguns amigos e até já aqui escrevi, que na actual conjuntura se nota um défice de informação no que respeita aos jogadores e treinadores que chegam pela 1ª.vez, sobre a realidade do clube, a sua mística bairrista (que saudade!), as suas prioridades, a sua relação com a imprensa e para além de tudo, da discriminação a que historicamente é votado. O (agora) Museu do Clube ajuda a ter uma ideia, mas não chega. A comunicação dos que viveram essa mística com os recém-chegados de novo é bem mais preponderante. E percebe-se que tal não está ser feito, ou se está, não é da forma mais eficaz.

Se juntarmos a este cenário o que se está a passar com o Porto Canal, o amadorismo e a falta de imaginação dos directores, torna-se difícil admitir que se trata de uma situação ocasional. Notícias requentadas, falta de programação compensada com outra, repetida mil e uma vez, coberturas sempre atrasadas de eventos relevantes, são um facto, negá-lo é pura desonestidade. Por outro lado, dámos conta de excesso de pessoal, face ao que se tem produzido, em contra-ciclo com um vededismo exibicionista dos colaboradores (festas e festinhas c/ passagens de modelos com jornalistas de ambos os sexos), completamente deslocado com o currículo laborial num Canal ainda por se afirmar. Aquilo parece mais um grupo de amiguinhos, que um projecto de televisão apostado em vencer em fazer a diferença. Ali, tenta-se copiar. e mal. Há potencial? Há! Há gente? Há! Precisa é de ser bem encaminhada. Mas não é daquilo que o Porto precisa, nem foi com este amadorismo que o FCPorto de Pinto da Costa se impôs ao mundo.  

Acho pois, que o que falta ao clube é precisamente aquilo que sempre teve (e bem): liderança! Há uma arrogância instalada na estrutura que em vez de unir, afasta os simpatizantes e potenciais associados do clube e que pode igualmente afastar os jogadores. É também com coesão e com o contacto com os adeptos que se restaura a mística. O que temos hoje, é um clube que está a fazer da chama do Dragão uma faísca inofensiva de pirilampo. 

*Talvez seja desta que os maníacos do Quaresma (não falo dos vendedores da ideia) tenham percebido que Lopetegui não tem contencioso com o jogador. Pelo contrário, deu-lhe mais uma oportunidade para se afirmar, só que ele não correspondeu. Por mim, não jogava tão cedo. Se ele pede banco, é só sentá-lo, sem piar...

26 setembro, 2014

O jogo do FCPorto, com os outros lá debaixo...

Para o jogo propriamente dito de logo à noite estou optimista. Com rotatividade a mais, ou a menos, acredito na competência do treinador do FCPorto e dos jogadores, na mesma medida em que desprezo a opinião dos treinadores de bancada, com particular desgosto por aqueles que se intitulam de portistas. Creio tanto no seu portismo como de todos aqueles que a troco de uns cobres sujeitam o clube a todas as humilhações possíveis e imagináveis assumindo perante o país profundo uma cobardia a todos os níveis inqualificável.

Já não estou tão optimista é com o estado de saúde da justiça e das autoridades do país, tanto das civis como nas desportivas. As razões saltam a olhos vistos, só não vê quem não quer, ou é burro. E não estou optimista porque, se é verdade que o FCPorto para se impor como o melhor clube português teve de lutar sempre contra 3 adversários (a equipa contrária, o árbitro, e os media), agora tem de lutar contra cinco: os comentadores "portistas" da tv e da imprensa e a passividade da estrutura directiva do FCPorto. Como quem cala (demais) consente, nada impede que os adversários se sintam legitimados e mesmo moralizados para continuar a saga de intoxicação contra o nosso clube e contra a imagem do próprio Presidente (mas isso, é lá com ele). E é isso que eles estão a fazer nas barbas de Cavacos e de Passos...

É claro que, se logo as coisas correrem dentro da normalidade, se os jogadores se respeitarem mutuamente, e o árbitro passar despercebido, é perfeitamente natural que seja o FCPorto a conquistar os três pontos da victória, e se não for, que não seja por factores externos ao jogo. Se tudo correr com elevação, em paz e se ganharmos, os adeptos  passarão logo do estado de inquietação à euforia, e esquecerão por momentos as tão badaladas rotatividades de Lopetegui como as quaresmices importadas de Lisboa (lorpas!).

Mas, se tudo se passar como receio, não faltará quem se atire como cão a gato à direcção do FCPorto e até ao próprio treinador. Se os jogadores do Sporting vierem instruídos para inventar faltas (como prevejo) ao mais leve contacto e o árbitro for vulnerável à pressão e à teatralização dentro do campo e nas bancadas, então não sairemos de lá vencedores. Se tal acontecer, se fôr num cenário destes que tivermos de nos confrontar, não pouparei a direcção do FCPorto e reformularei a minha opinião que mantive  sobre esta durante tantos anos.

Não será o fim do mundo se as coisas correrem mal, mas não será seguramente um bálsamo para a confiança de ninguém.

Portanto, logo, só podemos ganhar! Agora, temos de jogar contra cinco!

25 setembro, 2014

Passos que a vida tece

Don Pinóquio II

O secretário-geral do Parlamento, Albino Azevedo Soares, insistiu, na segunda e na terça-feira, nas suas duas únicas declarações públicas sobre o subsídio de reintegração atribuído a Pedro Passos Coelho em 2000, que “não existe uma declaração de exclusividade relativa ao período que medeia entre Novembro de 1995 e 1999” em nome do actual primeiro-ministro.
O documento que o PÚBLICO revelou esta quarta-feira, no qual Passos Coelho declara, em Fevereiro de 2000, com a sua assinatura por baixo, que se encontrava em exclusividade na VI e na VII legislaturas, evidencia que tal documento existia de facto, ainda que tendo sido subscrito no fim do mandato e não no seu início, como era habitual.
O facto de o ex-deputado ter estado em exclusividade é particularmente incómodo, face às suspeitas existentes de que recebeu 150 mil euros entre 1997 e 1999, pagos pela Tecnoforma para presidir ao Centro Português para a Cooperação, uma ONG criada para servir aquela empresa.
A pergunta que o PÚBLICO enviou a Albino Soares, e que este demorou 24 horas a responder, era muito concreta: “O deputado Pedro Passos Coelho exerceu o mandato na VII legislatura [1995-1999] em regime de exclusividade?” Não se perguntava pela forma como tinha sido declarada ou comunicada a exclusividade, nem pela data em que isso sucedeu, mas pelos efeitos práticos de tal declaração. Nomeadamente, o de saber se era possível ao então deputado acumular outros vencimentos com o seu salário de parlamentar.
Para sublinhar a questão formal de a declaração ser posterior ao fim do mandato, Albino Soares acrescentou que “não foi pago o complemento de 10% que corresponde a essa declaração”. Aqui, o secretário-geral refere-se ao facto de qualquer deputado em exclusividade ter direito, à luz da lei em vigor desde 1995, a um complemento salarial correspondente a 10% do vencimento base. Acontece, porém, que Pedro Passos Coelho não era um deputado qualquer.
Era um dos vice-presidentes da bancada do PSD, liderada na altura por Luís Marques Mendes, e tinha, por essa via, direito a um acréscimo ainda maior de salário: 15%, não acumuláveis com qualquer outro benefício que resultasse da exclusividade.
Vice-presidentes recebiam mais
Os vice-presidentes não eram, sequer, obrigados a declarar que exerciam o mandato em dedicação exclusiva para terem direito a este abono. Ou seja, Passos Coelho não abdicou de uma verba a que teria direito ao não declarar inicialmente a sua exclusividade. O que fez foi simplesmente prescindir de uma verba menor, que não poderia acumular com o bónus que lhe era devido por ser vice-presidente do seu grupo parlamentar.

Nenhum destes factos consta de nenhuma das explicações de Albino Azevedo Soares, nem dos documentos cuja consulta foi facultada ao PÚBLICO esta quarta-feira.
A VII legislatura, que decorreu entre 27 de Outubro de 1995 e 24 de Outubro de 1999, já tinha sido iniciada quando Passos Coelho foi eleito para uma das vice-presidências da bancada do PSD. A eleição decorreu na Primavera de 1996. Ou seja, houve um hiato de quatro ou cinco meses em que Passos não recebeu qualquer acréscimo ao seu vencimento-base de deputado. Nem os 10% da exclusividade, nem os 15% da vice-presidência.
A prática corrente, à época, consistia na entrega de uma informação aos serviços do Parlamento, na abertura da sessão legislativa, redigida numa folha A4, assinada sob “compromisso de honra” (hoje existe um formulário online para esse efeito), de que o parlamentar cumpria as suas funções em regime de exclusividade. Quem o fizesse passaria a contar, automaticamente, com o suplemento de 10%.
É possível que Passos não o tenha feito, na altura, por já saber que iria beneficiar de um regime diferente e mais vantajoso. E que só tenha sentido a necessidade de informar o Parlamento que estivera em exclusividade quando os serviços o questionaram, já terminada a legislatura.
Mas isso não explica a forma como o actual secretário-geral da Assembleia da República respondeu às questões dos jornalistas. A primeira resposta foi dada à Lusa, que escreveu “Passos não tinha regime de exclusividade, garante a AR”. E essa era, factualmente, uma informação falsa.
Se Passos não tivesse declarado estar em exclusividade, nunca lhe teria sido pago o valor de cerca de 60 mil euros de subsídio de reintegração, em 2000. Teria apenas direito a cerca de metade, referente à VI legislatura, quando a lei nem sequer impunha a dedicação exclusiva como condição do pagamento do subsídio. E, como o PÚBLICO confirmou agora, essa informação existia no acervo documental do Parlamento, era do conhecimento do secretário-geral Albino Soares e tinha a assinatura de Passos Coelho.

24 setembro, 2014

23 setembro, 2014

Ainda sobre arbitragem...


... e o silêncio estrondoso da direcção do FC Porto, quero acrescentar o seguinte: não acredito que o peso desse silêncio indicie uma estratégia. Não acredito sequer nessa hipótese, porque não encontro maneira de a imaginar, de lhe encontrar um  ponto de partida racional para a conceber. Assim como não acredito que a estrutura directiva do clube, nomeadamente Pinto da Costa, se mantenha passiva e calada por muito mais tempo. Mais dia, menos dia, ou mêses, não faço ideia (será sempre tarde), vão acabar por falar. E é isso que me custa prever, esse pegar de empurrão tão impróprio do FC Porto de Pinto da Costa. A quebra do silêncio surgirá pois por pressão, não por imperativo de consciência, não por precaução. Surgirá no pior momento, numa altura propícia às piores especulações, que é aquilo de que se alimentam os inimigos do FC Porto. Nessa altura, será tarde para lamentar, e muito mais tarde para intervir.  

É certo que já passamos por vicissitudes similares, já fomos perseguidos, agredidos, injuriados, e sempre (quase) demos a volta por cima, ganhando no campo, mas não soubemos matar à nascença o monstro nem evitar a exposição pública ao mais vil dos processos "desportivos": o Apito Dourado. Permitimos, com alguma sobranceria, que ele ganhasse forma, que evoluísse e que deixasse na opinião pública menos atenta a impressão de culpa. Nós ( FC Porto) contribuímos para deixar essa imagem e ainda não aprendemos. Por quê, pergunto eu? E os nossos inimigos (dizer adversários, é puro snobismo), como imaginam que conjecturarão? Acaso já pensaram na intriguice que um silêncio tão despropositado pode suscitar, principalmente quando temos razões evidentes, até para gritar? A que ocorre logo, é esta: «se, nem mesmo a serem publicamente tratados  abaixo de cão, manipulados pelos árbitros, os portistas não reagem, é porque têm rabos de palha, estão com medo...». A superioridade moral no futebol é pior que marcar um golo na própria baliza, é determinar o fim de um percurso vencedor, de um clube campeão. Abdicar, nem que seja apenas do direito de resposta, é abdicar da própria dignidade. 

O aviso à navegação está feito. Outra vez.  Hoje, foi só mais um. Logo veremos se na próxima sexta-feira o árbitro terá, ou não, capacidade  para resistir aos primeiros contactos entre jogadores que (como é costume), da parte dos lagartos, serão aproveitados para transformar em dramáticas cenas de vitimização. Veremos durante quanto tempo o árbitro* resistirá ao convite para expulsar um, ou mais jogadores do FC Porto. E depois veremos também como reagirá o FC Porto se o árbitro fôr um desavergonhado igual aos que o antecederam. É que, por melhor que uma equipa seja, por mais moralizada que jogue, nada resiste num ambiente (país) de absoluta impunidade.

*E respectiva equipa...


22 setembro, 2014

Um breve comentário sobre o FCPorto-BoavistaFC

Isto de comentar, ou deixar de comentar as arbitragens, presta-se a muitas especulações. Se os comentários não forem sustentados pela seriedade de quem os faz e com o rigor possível, considerando que a clubite aguda tolda sempre um pouco a imparcialidade do adepto, corremos o risco de passar por "calimeros" e de perder a razão. 

Ontem, por exemplo, aquela entrada aparatosa de Maicon sobre o adversário sugere imediatamente ao espectador que cometeu falta. Se era para cartão amarelo ou vermelho, é discutível, agora quem acompanha o futebol há muito tempo sabe que nas condições em que o terreno se encontrava é dever dos árbitros agirem em conformidade com essas condições, ou seja, terem mais moderação na mostragem dos cartões, uma vez que o piso ensopado leva os jogadores a entrarem mais duro por não poderem controlar devidamente os tempos de entrada. Aliás, se bem se recordam, pouco antes houve uma entrada semelhante à do Maicon sobre um jogador do FCPorto (não me lembro agora qual) com 3 adversários em cima e o árbitro limitou-se a marcar falta. Em circunstâncias normais, podia justificar-se a mostragem do cartão vermelho, portanto não condeno a decisão. Agora, o que é censurável, além da dualidade óbvia de critérios, é a recorrência factual dessa dualidade de critérios em quase todos os jogos do FCPorto. 

Em Guimarães, o FCPorto  ganhou de facto (não foi moralmente), repito, ganhou, o árbitro marcou erradamente fora de jogo e "anulou" um golo matemático, transformando uma victória legal num empate arbitral, sacando-nos os respectivos 3 pontos. Coincidências? E com o principal adversário da 2ª. circular, será também coincidência que os árbitros na dúvida o beneficiem e por conseguinte prejudiquem os seus adevrsários? É claro que esta é uma discussão antiga que, tal como está o país, cujo poder continua a ser ocupado por gente inferior, com queda para a corrupção, muito dificilmente será moderada. Portanto, é impossível contar com o bom senso dos Governantes porque eles simplesmente não existem. Portanto é ingénuo pensar que a estratégia do tipo "o calado é o melhor" seguida pelo FCPorto nos poderá levar a algum lado.

Este FCPorto de agora anda a estranhar-me, não o reconheço, não mostra qualquer afinidade com o FCPorto guerreiro, irreverente, inconformado que tanta fama gerou no país e no mundo. Por isso, receio que se não disser presente, se não mostrar aos adversários que a tolerância tem limites, se não se defender nem que seja nas instâncias europeias - dado não podermos contar com as nossas -, repito, vamos ter problemas e não há treinador nem Brahimis que nos possam valer.

Não admito, não admito mesmo, que aqui alguém ouse sequer insinuar que o que acabo de dizer é qualquer coisa semelhante à calimerice. Se quiserem tirar as dúvidas leiam os posts que quiserem neste blogue e vejam se o tema da arbitragem prepondera. O que prevalece, isso sim, é o meu repúdio pelas consequências de um centralismo pior que o de Salazar, e este nacional benfiquismo que me faz vergonha de ser português. E não sou de facto. Agora, sou primeiro portuense, embora também muito decepcionado com muitos dos meus conterrâneos. Estivesse eu no lugar de comentador dum qualquer Guedes ou Serrão, dizia-lhes como se mostra ao mundo o portismo. Abandonava a inebriante "bandeira"  da avença, deixava os interlocutores a comentar sozinhos e levantava a bandeira do FCPorto. Mas isso para alguns, é algo transcendental nos tempos que correm...    

21 setembro, 2014

Compromisso Serralves


Ir a Serralves é sempre um prazer. Pelos jardins, pelo museu, pela qualidade da coleção de arte contemporânea, pelas pessoas, enfim, não faltam boas razões. Mas participar num jantar de Fundadores por ocasião dos 25 anos de Fundação e dos 15 anos de Museu é especial. Assim foi na última sexta-feira, em que, num magnífico serão, se celebrou o reconhecimento dos Fundadores, se homenageou o seu primeiro presidente, João Marques Pinto, e por fim se realizou o jantar de angariação de fundos, em benefício da Fundação e do seu programa cultural.

Sentado ao meu lado, um dos fundadores e beneméritos, homem das empresas, explicava-me que não é já possível conceber o Porto sem Serralves ou sem a Casa da Música. Estas duas instituições, com o seu programa cultural, mudaram a paisagem social da cidade e catapultaram a Invicta para um estatuto de que a região e o país se podem orgulhar. Por muita população, economia e futebol que a cidade possa federar, sem esta dimensão simbólica e imaterial, da arte e da cultura, não passaria de uma mera urbe sem caráter. E no caso de Serralves é extraordinária a forma como a Fundação e o Museu se integraram no ADN do Porto, moldando a sua própria personalidade.

O comprometimento da sociedade portuense e regional com Serralves esteve bem patente na sexta-feira com a presença de seiscentas pessoas, representando um extenso e variado mosaico institucional e empresarial disponível para contribuir para um projeto ímpar. Ao contrário de tantos que, em Portugal, vivem da subsidiodependência e adotam o registo do queixume sem muito fazerem pela sua própria sobrevivência, Serralves apresentou ao país uma proposta de valor irrecusável. E para que esta visão se tornasse realidade, convocou a sociedade para contribuir e, dessa forma, mostrou ao Estado que este é um projeto onde podem e devem ser aplicados também recursos públicos oriundos dos impostos de todos nós. A aliança virtuosa público-privada de Serralves tornou-se assim um caso de estudo. Em que projeto cultural se consegue, neste país, congregar governo, universidades, empresas públicas, empresas privadas, câmaras municipais, bancos, artistas e por aí fora?

No fim do dia, não deixa de ser relevante olhar para os números e esses são, de facto, impressionantes. O impacto económico de Serralves no PIB está avaliado em cerca de 40 milhões de euros. Criou neste primeiro ciclo de 25 anos perto de 1300 postos de trabalho, pagou mais de 20 milhões em remunerações e gerou quase 11 milhões de receitas fiscais. Grandes números.

Mas o que me fascina é o que Serralves fez com este dinheiro. Só em 2013, o número de visitantes ascendeu a 423 mil pessoas, das quais 85 mil estrangeiros. Este nível de exposição ao público estrangeiro, cada um dos quais embaixador do Museu e do Parque, junta-se a mais de 4500 notícias nos diferentes órgãos de Comunicação Social contribuindo para uma marca de excelência do país. Os números dos visitantes mostram, por outro lado, que Serralves não é só do Porto. É de toda a área metropolitana, é de Braga, Guimarães, Viana, Vila Real, Bragança... Uma infraestrutura destas é de todos nós.
Serralves entrou também na era digital, e em força. No ano passado, um milhão e meio de pessoas foram visitantes virtuais. É seguido por 150 mil fãs no Facebook, 7500 no Twitter e teve 148 mil visualizações no YouTube.

A joia da coroa é a magnífica coleção, que procura representar a história da arte contemporânea nacional e internacional desde a década de 1960. A importância deste espólio reside no facto de corresponder a um período em que emergiram novos paradigmas na criação artística, algo que ficou admiravelmente patente na exposição inaugural de 1999 "Circa 1968", onde se expuseram mais de 600 obras.

De todo o plano de atividades, o que mais me entusiasma são os programas dirigidos à população e às escolas. O "Serralves em Festa" atrai 90 mil pessoas, e quem lá vai quer voltar. Trata-se do maior festival de expressão artística contemporânea em Portugal e, seguramente um dos maiores ao nível internacional. Este ano foram 40 horas sem interrupção, ainda por cima com entrada gratuita. As visitas escolares, por seu lado, puseram no ano passado 81 mil jovens em contacto com a arte e a cultura.
Quando se fala de Serralves, fala-se de serviço público. Pago pela sociedade e também pelo Estado. Que ambos continuem comprometidos, porque é também assim que se faz o país que todos desejamos.