22 agosto, 2019

Que debates tem feito o Porto Canal sobre a Regionalização? Quantos?


"Quando me fazem convites para almoçar, ou jantar, ou mesmo convites profissionais, nunca digo Não. Não gosto de desiludir as pessoas. Às vezes tenho 3 reuniões quase à mesma hora, ou 3 jantares marcados para o mesmo dia. Ainda por cima detesto burocracias. Não anoto nada.  A minha secretária é que sofre."

Estas, foram parte das respostas que Júlio Magalhães, Director Geral do Porto Canal deu à revista "Notícias Magazine"  sob o tema da dificuldade que algumas pessoas têm de dizer Não.  Numa primeira avaliação, e se não levarmos em conta o contexto da referida entrevista, esquecendo a actividade profissional do entrevistado, provavelmente, a tendência dos leitores inclina-se para pensar que Júlio Magalhães é "um gajo porreiro" . Eu próprio, acho que sim, que deve ser um tipo de contacto fácil, independentemente do que pensamos do "porreirismo". Mas se juntarmos às respostas que ele deu à revista, o modo e a escassez de rigor como gere o Porto Canal, perceberemos facilmente por que é que isso acontece. E nesse caso, já não achamos piada nenhuma à sua forma demasiado blasée de dirigir uma empresa de televisão, que nem sequer é sua. O "porreirismo" pode transforma-se em anarquia.

A culpa, não é dele, é de quem o contratou, e  também parece estar a borrifar-se para o sucesso do Porto Canal. Para não deixar aqui uma ideia  demasiado crítica de Júlio Magalhães, cito de memória os poucos canais de cultura que aprecio e gostaria que fossem poupados a repetições exaustivas que em nada beneficiam os autores: "Caminhos da História", "Nota Alta", "Mentes que Brilham" , "A Falar é que a Gente se Entende" . A área desportiva também podia melhorar, sobretudo a programação criada para debater e (defender) o FCPorto. Está bem a transmissão dos jogos das modalidades.  E é tudo.

Os programas referidos, já não são novos, mas não sou contra a sua continuidade, pelo contrário. Agora, o que está a falhar é a continuidade de outros, a aposta na qualidade informativa sobre a Regionalização. Ainda há poucos mêses éramos informados pelo Porto Canal que tencionavam intensificar esta temática, mas de repente deixaram-na morrer, e é isso que tem falhado. A continuidade regular de certos programas não é levada a sério, e assim é mais complicado gerar audiências. 

Foi já a 7 de Maio que vimos o único programa de jeito, ou melhor, uma interessante entrevista feita por Tiago Girão ao Presidente da CCDR-N, Fernando Freire de Sousa, onde se debateu o ardil das sedes fictícias de instituições que vieram para o Porto, mas que tinham os administradores e a maioria do pessoal em Lisboa. Foi mais uma entrevista que um debate, mas mesmo assim, um bom, um utilíssimo programa. Mas, foi o único verdadeiramente interessante. A partir daí, voltou tudo ao mesmo. Assim, não vale a pena. Seria fundamental convidar gente seriamente empenhada na causa, e evitar a presença de políticos que andam há anos a fingir o seu regionalismo, que não acrescentam nada ao tema, e só servem para baralhar e desestabilizar. Seria fundamental que o critério qualificativo dos protagonistas, a sua autenticidade de regionalistas não  fosse negligenciado, sob pena de voltarmos a perder tempo.    

É surpreendente como os representantes do principal accionista (FCPorto) andam tão distantes  do Porto Canal e do seu bom funcionamento. Um deles até lá tem uma filha a ganhar a vida... Nunca é demais lembrar a quem de direito que o FCPorto é uma associação desportiva cotada em bolsa. É que, às vezes, o silêncio misturado com a ausência parece provocar amnésia.

21 agosto, 2019

Blah, Blah, Blah, Blah, Blah ! Chega de vigarices, garotos!

Professor de Coimbra que estudou tentativas de regionalização cético em relação à sua concretização


O docente da Universidade de Coimbra Daniel Gameiro Francisco não acredita que seja desta vez que a regionalização vá para a frente, afirmando que o tema surge ciclicamente há décadas, associado à preparação dos debates que antecedem eleições.


Daniel Gameiro Francisco, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra que desenvolveu trabalhos sobre o tema, considera que “o sistema político se viciou em falar em descentralização e em regionalização” periodicamente “como quem vai regularmente a uma missa ou a uma cerimónia qualquer”, mas isso “não tem grande significado real”.

“Há aqui uma espécie de sismógrafo. Quando o sismógrafo da regionalização começa a tremer, é porque se aproxima qualquer tipo de momento importante para o sistema político, normalmente eleições. A partir daí tudo desaparece. 

Portugal é um país de regionalistas com amnésia”, considerou, em declarações à Lusa.
O docente, que fez a sua tese de mestrado sobre o tema, salientou que nas últimas décadas se fala na regionalização quase sempre em associação à preparação do debate eleitoral, ou autárquico ou legislativo, embora também já tenha acontecido antes de eleições presidenciais.
“É cosmética. O sistema político português, os seus principais protagonistas nunca realmente estiveram interessados em regionalizar. 
E em descentralizar também não, mas como a descentralização em Portugal se limita um pouco à escala municipal, com esse grau de descentralização consegue-se viver. 
Agora, com mais do que isso, com preparar o Estado para se adaptar às grandes necessidades do território, inclusive as que são regionais, nunca houve uma vontade muito prolongada”, disse.
O professor universitário considera que o Estado está organizado de uma forma que não responde ao que o país precisa, “organiza-se para si próprio, vive para si próprio e não vive para o país, que, aliás, conhece muito mal”. De vez em quando volta ao tema como uma “espécie de apaziguamento de consciência”.
“Grande parte dos nossos governantes já foi regionalista na sua vida, mas, quando assume funções no Estado, o Estado envolve estas pessoas numa outra lógica, que é a própria posição centralista do Estado, e que os leva a esquecer tudo o resto. Portanto, é a partir dali que se governa o país e ponto final”, disse, salientando, contudo, a “coerência mais longa de posição regionalista de alguns políticos”.
Numa altura em que o tema voltou à ordem do dia, Daniel Gameiro Francisco considera que falar de regionalização é como a história de Pedro e do lobo.
“Ao fim de tanto falarmos no lobo, ele pode vir, tanto se fala dele que ele pode vir, mas não acredito”, reforçou, considerando que o país está “em mais um desses momentos quase litúrgicos, quando, ainda por cima, se fala muito do interior, da desertificação, da situação de abandono”.
O docente considerou que a necessidade das regiões permanece, mas já não é a mesma que existia após o 25 de Abril.
“As comissões de coordenação [e desenvolvimento regional] vão fazendo um simulacro. Não é mau trabalho, é um bom trabalho, mas não chega, não chega”, acrescentou.
A necessidade do planeamento regional das funções do Estado permanece, mas hoje a regionalização “teria a ver com o estar preparado para desafios que são mais recentes”.
“Não é só o equilíbrio do desenvolvimento das regiões, mas o tipo de desenvolvimento que é necessário adaptar a cada uma delas, porque, apesar de tudo, elas têm muitas semelhanças, mas também têm especificidades”, disse.
Entre os desafios atuais, o professor destacou a economia digital, a transição energética, o federalismo municipal para levar para a frente novos projetos – questões que “não existiam há 30 ou 40 anos”.
Dr. Daniel Gameiro Francisco

Nota de RoP:

Sobre este artigo de opinião, incontestavelmente coerente, falta apenas acrescentar, que todos os governos que se seguiram ao 25 de Abril, além de incompetentes, pecaram, e continuam a pecar, por traírem a Constituição. E convém termos a noção clara de quão grave e criminoso é o significado desta palavra.

Por outras palavras, podemos acrescentar que as promessas temporárias da Regionalização, mais não são que o melhor certificado da génese vigarista dos políticos portugueses. Da direita, ao centro, e do centro à esquerda. Ninguém escapa. Assim, é muito fácil acusarem os cépticos de pessimismo, e manterem-se no poleiro como se fossem gente.

Este é o Portugal dos pequeninos que se orgulha de separar o país.

19 agosto, 2019

Ao Porto


Entendo bem porque Dom Pedro, o primeiro do Brasil, à inauguração daquele maravilhoso país, quis de qualquer modo deixar o coração no Porto, cidade intrincada que se ama apenas por maturidade. Não é para paixões inconsequentes, o Porto é uma disciplina, uma localização espiritual que se reconhece sobretudo no mapa da resiliência.


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Valter Hugo Mãe *

Julgo que aprendi a amar o Porto pela robustez do casario. Vinha de olhos cheios com as minhas terras de Guimarães, onde passávamos sobretudo pela aldeia, as pessoas esparsas, uma rarefação maior, e encontrava nos Aliados a monumentalidade da pedra, a declinação em direção ao rio onde a pedra é uma ideia contínua. Eu via um povo contínuo. Gente junta como a fazer força, a erguer uma cidadania preparada para qualquer ataque.
Diziam-me que era a cidade Invicta, a que nunca sucumbiu. E o meu pai explicava sempre que o fascismo começou a cair ali, e que a consciência elementar do bem e do mal se apurava muito mais naquele lugar, na cidade monumental do trabalho. Mostrava os braços. O meu pai foi longamente um administrativo, mas mostrava os braços porque a palavra trabalho esplendorava quando implicava o dispêndio físico. O Porto, eu via pelas pedras habitadas, era uma ideia conquistada a certo milagre físico. Não se entende sem assombro e sem sombra.
Lembro bem da idade em que comecei a ir de comboio sozinho às livrarias e às lojas de discos na Cedofeita e nas imediações do Rivoli. Erguia a cabeça como um portuense orgulhoso, mesma carne daquela antiquíssima equação. Eu lembro do entardecer, quando o povo eminentemente proletário recolhia e o intrincado das ruas deitava fantasmagorias sobre a minha solidão. Pouca coisa enriqueceu o meu imaginário mais do que isso. Essa insinuação de gente no bulício quase nenhum que me pareceu invariavelmente coisa de inverno. Uma estranheza de sentir prazer ao demorar ali, demorar no entardecer, chegar à noite com o frio, um pouco de vento, o silêncio profundo.
Em algumas alturas, como agora, vou deitar os olhos pelo promontório da Sé e espio só como é obrigatoriamente brava a vida naquele lugar. Seguimos meditando naquelas pedras, fugazes na sua eterna memória, na sua paciente resistência. O Porto permanece feito para amores maduros. Entrega-se devagar, talvez se entregue nunca. Num frasco de vidro ou num poema, sei bem que também eu lhe deixarei, inevitavelmente, o coração. Sinto pelos braços um leve sobressalto. Pudesse o poema levantar as pedras, ser físico, valer à cidade como quem nela trabalhou.

Escritor

Nota de RoP: 

Valter Hugo Mãe foi protagonista de um programa cultural do Porto Canal, no qual fazia também o papel de entrevistador. Foi do melhor que vi na televisão do FCPorto. É um comunicador do melhor que há neste país. Como sempre, o que é bom, se não é bem estimado,procura novos ares... 

PS-Esta crónica sobre o Porto é uma delícia para a alma portuense 

18 agosto, 2019

O céu azul estará a chegar? Palpita-me de repente que sim?

Temos goleador? Eu acho que temos.


Tapar o sol com a peneira, como se dizia antigamente, significa encobrir as causas de um problema durante algum tempo, com iniciativas ténues, habitualmente inadequadas, que só servem para o agravar numa espécie de fuga às responsabilidades. Este, é o risco que os dirigentes do FCPorto optaram por correr, deixando em paz os prováveis autores de uma série incontável de crimes, que apenas podem contribuir para a prescrição dos processos de que são acusados. No caso, as ditas iniciativas nem sequer foram assumidas pessoalmente pelos administradores da SAD, o que à partida retirou ao processo peso institucional, deixando, como se constata, o clube  vulnerável às perfídias dos criminosos.  

Isto não é nenhuma novidade, é corrente, e uma das causas principais dos maiores problemas do FCPorto que estão na origem das muitas preocupações de numerosos portistas, desde uns tempos a esta parte.  É um facto.

Se querem saber, neste momento, nem sequer interessa explorar demasiado quem está do lado dos dirigentes, ou quem está contra, embora não se possa afirmar que é algo de insignificante, porque não é (quem comanda, tem de assumir responsabilidades). Neste momento, o que devemos fazer é pensar no nosso clube como elo principal de união, mais nada. Somos todos portistas, temos de ser uma família, uma comunidade de gostos e classes diversas, mas com o símbolo do Dragão a colar-nos. Isto, é irreversível. Tem de ser irreversível! E temos de nos proibir reciprocamente de interpretar as diferentes opiniões de cada um, sempre como uma barreira. Pode até ser uma alternativa. O que vale é nunca esquecermos que o FCPorto é a nossa casa comum. Eu tenho as minhas convicções, mas nunca deixarei de olhar para um verdadeiro portista como alguém próximo. Ponto.

Resumindo. Sobre o que penso, mantenho, sem ter motivos para mudar por agora. Mas isso, não me impede de ter ficado extremamente contente com a exibição do nosso clube. Entraram no jogo determinados, e concentrados. Venceram com garbor. Bravo! Acho que ontem a ideia defendida por alguns adeptos sobre a fraca qualidade de reforços se dissipou. Hoje, tenho a certeza  que vamos ler muitos elogios a todos jogadores. Eu não fujo à regra. Todos merecem elogios, mas fiquei particularmente feliz por finalmente saber que temos gente que gosta e sabe rematar, o que é um grande passo para a rentabilidade do grupo. Depois, descobrimos um guarda-redes que me enche as medidas, não só pela sua personalidade, como pela elasticidade que revela. É caso para esquecermos os primeiros jogos da época. Foram péssimos, é um facto, mas isso confirma outro facto: falhámos no timing da contratação dos reforços, e ninguém pode argumentar que não tenha sido a causa principal das más exibições da abertura da época. A Champions é só para o ano, e devia ser este. Que chatice.