24 agosto, 2016

Já tinha saudades de um FCPorto assim

Pirueta de alegria de Felipe

Como pudemos constatar, não há victórias antecipadas, nem campeões garantidos, antes do tempo. 

Quando comento sobre o plantel do FCPorto deste ano, limito-me a reconhecer o que todos os portistas reconhecem: a necessidade de reforçar o ataque e a defesa com mais 2 ou 3 jogadores. Sobre Nuno Espírito Santo já aqui escrevi, e digo-o a quem me conhece, que para já está a surpreender-me pela positiva. Não gosto de deitar foguetes antes do tempo, sou prudente, mas não posso deixar de dizer as impressões que registo em determinado tempo. As minhas dúvidas sobre o FCPorto mantêem-se, são as que os leitores já conhecem, estão no tôpo da pirâmide hierárquica.

Como todos vós, delirei com mais esta façanha do nosso clube. Treinador e  jogadores, merecem os melhores elogios, embora me tenha custado muito ver a equipa jogar contra 9 adversários. Cheguei a temer o pior, que ainda íamos acabar por claudicar em superioridade numérica. Enfim, tudo está bem, quando acaba bem.

Há dois aspectos que não posso deixar de evidenciar, por me parecerem extremamente importantes. Primeiro, enaltecer a seriedade e a coragem do árbitro polaco por não ter hesitado em expulsar dois jogadores do Roma na sua casa. Em Portugal, com os nossos árbitros, o FCPorto não tinha essa "sorte", o mais que podiam fazer, era mostrar um amarelo, ou marcar uma simples falta aos infractores.  Além disso, o árbitro teve o mérito de acompanhar de perto todos os lances faltosos, quer de uma equipa, quer de outra. Outro aspecto que me agradou foi a coesão, o espírito de equipa dos jogadores do FCPorto. Contudo, houve algumas peças que destoaram um pouco da maioria. Pela positiva destaco o defesa Felipe, não só pela importância do 1º. golo, mas também pela grande exibição que fez. Octávio, Marcano, Alex Telles, Maxi Pereira, Danilo e depois Layun estiveram todos fantásticos. Empenhados, mas não brilhantes, estiveram também Herrera, André André, André Silva, Casillas (apesar de duas excelentes defesas), Corona (apesar do excelente golo). Não gostei da prestação de Sérgio Oliveira, entra sempre nos jogos de forma demasiado relaxada e (tal como os dois Andrés) com fraca potência no remate. Urge melhorar também estes aspectos.

De resto, só podemos estar felizes. Falta saber se esta victória e o capital que ela trás vão servir como pretexto para Pinto da Costa considerar o plantel fechado, ou se vai mesmo investir nas peças que ainda faltam no plantel. Quando o ouvi, fiquei com a impressão que (agora) está satisfeito com o que tem, e isso pode ser a morte do artista...

23 agosto, 2016

Os direitos de quem se acha patrão


Há um novo nicho para os empresários portugueses. Para aqueles que perseguem o lucro e ignoram os custos, as regras mais elementares do trabalho. Estou a falar dos estágios financiados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional. Existem patrões, revela o JN na sua edição de ontem, a exigir aos estagiários que lhes devolvam a comparticipação da empresa. Não satisfeitos, vão mais longe na sua perversidade laboral: a contribuição à Segurança Social acaba por ser paga também pelos estagiários.


Várias denúncias chegaram, nos últimos tempos, ao Conselho Nacional da Juventude. Não há, portanto, desculpas para se alegar desconhecimento da situação. Basta solicitar os nomes de quem apresentou queixa, embora tenham sido, por necessidade, coniventes com o esquema fraudulento. Aceitavam as "regras" de empresários sem escrúpulos, ou ficariam sem a declaração de terem feito o estágio profissional para se poderem inscrever na Ordem - e a partir daí, quem sabe, emigrar.


Nestes estágios, a remuneração é de 691 euros e a empresa tem um apoio, na maior parte dos casos, de 65 por cento deste valor. Aí vem a chantagem. O empregador, e não são empresas de construção civil, têxteis ou calçado - são gabinetes de arquitetura, psicologia e advocacia, o que revela a transversalidade da falta de ética -, exige ao estagiário que, no final de cada mês, vá ao multibanco e levante os 35 por cento em falta e os entregue em dinheiro.


Hugo Carvalho, presidente do Conselho Nacional de Juventude, chama a isto "lavagem de dinheiro". Em parte, pode ser. Mas na essência é outra coisa, sintoma do tempo que vivemos, bem mais grave do que a fraude fiscal. Chama-se a escravatura dos tempos modernos. Patrick Drahi, presidente da Altice, detentora da PT Portugal, já o tinha dito, preto no branco: não gosta de pagar salários, por isso paga o menos possível. É o sonho de qualquer capitalista malformado. Receber a força de trabalho, e a mais-valia, sem que para isso tenha de dar algo em troca.


Os patrões, referidos pelo JN, devem pois considerar que prestam um favor aos recém-licenciados. Olham-nos não como alguém que contribui para o desenvolvimento da empresa, mas como uma oportunidade de a empresa pagar menos impostos. Perante tais práticas, os estágios remunerados não cumprem o objetivo principal, o de abrir portas a jovens licenciados. Servem, isso sim, a patrões sem escrúpulos para engordarem os resultados, o que fará deles, com certeza, empresários de sucesso.

(Paula Ferreira/JN)


Nota de RoP:

Este caso, não é mais do que um retrato típico do "empresário"  português. Para esses chicos-espertos,, ser patrão, é ter direitos absolutos sobre quem precisa de trabalhar. Entre esses "seus" direitos, incluem o direito de desrespeitar os direitos dos outros. 

Mas, atenção! Por mais compreensão que possamos ter com o silêncio permissivo das vítimas, esse silêncio não deixa de ser um acto de cumplicidade com quem os explora. A pior coisa que alguém pode fazer nestas situações é pactuar com a chantagem.  

É também por causa de chantagens semelhantes que o Norte tem sido discriminado, tal como o Porto e o FCPorto... Esta gente não vale nada.


22 agosto, 2016

Benfica, o clube que nos envergonha, e dá repulsa

Ainda a procissão vai no adro, e os vermelhos já começam a pressionar os árbitros. A fazer côro com os queixinhas, como não podia deixar ser, junta-se a comunicação social mais desonesta e desavergonhada do planeta. Bastou um empate em casa para colocarem em causa a seriedade dos árbitros, provando a quem ainda acredita no Pai Natal, a profunda falsidade da sua mentalidade.

Nestes anos recentes são conhecidos pelo clube do colinho com perfeita propriedade, tão desaforada e decisiva foi a ajuda dos árbitros na conquista dos últimos (3) campeonatos. Isto, independentemente do desmazelo administrativo dos responsáveis do FCPorto e das asneiras daí decorrentes. O que chega a ser revoltante, é sabermos que a grande maioria (senão todos, mesmo), dos membros do Conselho de Arbitragem e sucedâneos, foram escolhidos a dedo pelo clube do fado (das tascas, dos chulos, ou do regime, se quiserem simplificar). 

Claro que a postura de silêncio, do no coments, adoptada em má hora pelo FCPorto há uns anos para cá, ajuda-os a pensar que a estratégia das queixas às arbitragens nos faz esquecer as declarações públicas bajuladoras sobre as mesmas que durante estas últimas épocas lhes permitiram ganhar 3 campeonatos seguidos. Mas não faz, apenas robustece a matemática das nossas convicções no que respeita a sua idoneidade. Qualquer criança percebe que toda esta ansiedade de começar, logo à 2ª. jornada, a criticar o árbitro, não é mais que um aviso à navegação aos árbitros dos jogos que se avisinham. É um modo indirecto de lhes dizer: vejam lá, nós não admitimos que nos deixem empatar em casa própria, por isso, ponham-se finos. E eles, podem disso estar certos, vão afinar, obedecendo. 

Ora, como eles conseguiram (vamos lá saber porquê) amordaçar o nosso Presidente e o resto da SAD, mesmo que o FCPorto jogue o suficiente para ganhar, ninguém pode impedir um mafioso de o ser, quando sabe de antemão que o crime compensa, que tem as costas quentes, ou seja, que pode prejudicar o FCPorto (e outros clubes) à vontade, porque as televisões do regime se encarregam de "provar tecnologicamente" e com muita banha da cobra à mistura, que o branco não é branco, é a côr que eles quiserem que seja...

É este o país em que vivemos. Só poderá mudar no dia em que lhes provarmos que a paciência e a tolerância têm limites, e esses limites já foram ultrapassados vezes demais.
      

21 agosto, 2016

Muita parra (garra) e pouca(o) uva (golo)

André Silva

Não me canso de dizer, e já não é de agora, o que mais me preocupa no FCPorto actual, é o topo da hierarquia. É quase sempre por aí que começam os problemas quando a máquina administrativa deixa de funcionar como lhe é exigido. Isto é válido para o futebol, como para qualquer outra organização, seja ela empresarial ou do Estado.  Ainda há poucos anos atrás dizia que se os governos do país trabalhassem com a eficiência do FCPorto, Portugal teria evoluído bem mais e melhor. O resto, são detalhes, ocorrências ocasionais próprias de uma estrutura de composição humana. Numa organização competente, os erros evitam-se, e quando eles acontecem resolvem-se facilmente.

Às vezes pergunto-me se o próprio Lopetegui será capaz de explicar o futebol mastigado e retrógado que parecia implantado no ADN dos jogadores, alguns dos quais de insuspeita qualidade. Acho que nem ele próprio saberá responder. O que suspeito, é que toda essa penosa situação derivou de um conjunto de circunstâncias que levaram o FCPorto a praticar um futebol irreconhecível. Pedia-se garra aos jogadores, mas esquecia-se um factor importante que lhe é inerente, que é o contacto físico com os adversários e que quase sempre resultavam na exibição célere de cartões como forma de intimidar os nossos atletas. As arbitragens intimidatórias misturadas com a permissividade dos responsáveis do FCPorto, incluindo Pinto da Costa, foram para mim, não a única, mas uma das causas do atrofiamento técnico e anímico de todo o plantel. Mais. Se olharmos para as modalidades, quase todas se foram abaixo nos momentos mais decisivos, incluindo o andebol que para mim era a que reunia mais condições para vencer o campeonato. Curiosamente, foi o basquete do incansável Moncho Lopez que menos acusou o toque.

Tudo isto é passado, mas convirá continuar a reflectir nas causas para não haver a tentação de relacionar o mau futebol de certos jogadores exclusivamente com as suas qualidades técnicas. No plantel do FCPorto ainda há muitos jogadores de épocas anteriores e no entanto, sem deslumbrar, já notamos algumas mudanças, a mais importante das quais, na tendência para lateralizar o jogo.  Até ver, verifica-se um futebol mais progressivo, com menos passes para trás, e isso já é positivo.

Ontem, com o Estoril, houve garra e o árbitro sem ser brilhante não foi escandaloso, não foi tão arrogante como outros, talvez isso tenha libertado mais os jogadores para correr e ir ao choque dentro da legalidade sem temer o homem do apito. Receio é que, quando isto começar a aquecer e (se) o FCPorto se isolar na tabela classificativa, o comportamento dos árbitros volte à "normalidade" e trate de coartar a fibra aos nossos jogadores. Se isso acontecer (oxalá me engane) como suspeito, quero ver se Pinto da Costa vai deixar (outra vez) o treinador a falar sozinho (como Lopetegui) colocando nas suas costas responsabilidades que só a ele e à SAD dizem respeito.

Resumindo: dadas as circunstâncias, estou a gostar do trabalho de Nuno Espírito Santo. Há ainda muito para evoluir. Qualidade de passe, melhor controle de bola, com menos toques e sobretudo, muito mais instinto matador, mais rapidez e fome de golo.

18 agosto, 2016

Do futuro do FCPorto não comento, porque não está ninguém em casa

Foram muitos, os anos de luta contra a repressão centralista que o FCPorto da era Pinto da Costa teve de travar até levar o clube ao pódio dos maiores palcos do futebol internacional. Internamente, e muito antes de chegar a presidente (em Junho de 1922), já o FCPorto se tornara no 1º Campeão Português de Futebol, da primeira edição oficial neste modelo de competição com uma victória sobre o Sporting por 3-1. E desde então não se ficou por aí, outros troféus e campeonatos foram conquistados ainda que intercalados com alguns anos de jejum. O FCPorto não tinha atingido a projecção mundial da era competente de Pinto da Costa, mas começou nestas andanças desportivas a vencer, convirá não esquecer.

É por se terem passados muitos anos (34) e por ter liderado o clube, contra tudo e contra todos, isto é, contra o centralismo e sua guarda pretoriana, constituída essencialmente por políticos e órgãos de comunicação social, que me custa ver alguém como ele passar de si próprio uma imagem absolutamente antagónica à que o tornou famoso. É lastimável que tenha deixado chegar o FCPorto (porque é do FCPorto que se trata) a este ponto de desorientação, e também que não haja lá dentro ninguém com coragem (e devoção quanto baste pela instituição), para o aconselhar a reflectir seriamente na actual situação e delinear uma estratégia realista, passível de corrigir erros cometidos e de reconduzir o clube ao estatuto prestigiado e ganhador dos anos recentes (excepto os 3 últimos).

Custa-me ver Pinto da Costa transformado numa caricatura ridícula do que já foi, num sósia de si mesmo... derrotado . Custa-me recear que não vá a tempo de sair , sem evitar enterrar-se no lodaçal opaco de oportunismo e desnorte em que o clube parece ter-se transformado. Custa-me que deixe o tempo correr demais, até ao dia em que sócios e adeptos lhe apontem a porta da rua como solução extrema para salvar o clube da derrocada total. O Pinto da Costa que conheci e admirei, não corria estes riscos, porque antes dele,  pensava no clube.

O FCPorto de agora é uma casa de falsos silêncios, porque lá dentro deve haver ruídos inconfessáveis que um dia vão seguramente chegar aos nossos ouvidos e pelas piores razões. Desses silêncios, o mais violento e intolerável, é o que está a ser usado com os portistas de todo o mundo. Esse é inadmissível, o que pessoalmente mais me ofende. E só por isso, deixei de considerar o líder. Para mim, morreu. Por isso, desejo toda a sorte do mundo a Nuno Espírito Santo e à sua equipa, porque vão mesmo precisar muito dela. O campeonato ainda agora começou, mas não nos iludamos, porque as coisas vão continuar a ser feitas pelo outro lado, como disse alto e bom som o rei dos pneus. A Federação/Comissão de Arbitragem já lá tem os seus serviçais. Quando houver problemas, o silêncio da estrutura directiva e presidente vai manter-se, e NES só terá duas alternativas: ou fala pelo presidente, ou bate com a porta e vai embora.  


17 agosto, 2016

FCPorto, têm a palavra Nuno Espírito Santo e os seus pupilos

Nuno Espírito Santo
Disputa-se esta noite a primeira mão do play-off de acesso à fase de grupos da Champions e mais uma vez, Pinto da Costa & Companhia provaram que a famosa estrutura justamente reputada pela sua capacidade de organização já não é o que era. Nem vale a pena replicar tudo o que já foi escrito a este respeito, os portistas sabem-no, sobretudo aqueles que privilegiam mais a competência que a fé. Mesmo assim, nada impede que não possamos obter um bom resultado. A vontade e a competência dos jogadores e do técnico por vezes fazem coisas fantásticas (por vezes), mas quando os principais responsáveis falham naquilo que lhes compete é muito mais difícil superar as dificuldades. Acreditemos então, mais que não seja para não atrair más energias.

Ontem, ao ver Pinto da Costa cumprimentar, um a um, os jogadores do FCPorto na entrada de acesso ao terreno para treinarem, pus-me a adivinhar o que aquele aperto de mão e aquele sorriso simpático pretendiam significar. Em bom português, penso que foi alguma coisa como isto: "vejam lá se ganham o jogo porque nós precisamos de dinheiro como do pão para a bôca. Tenho uns jogadores para comprar, mas a massa que (ainda) há, não chega nem para mandar cantar um  cego. Vá lá, façam um esforço para me livrarem deste sufôco... 

Se, se... Nuno Espírito Santo conseguir ganhar o jogo e a eliminatória em Roma, o mérito será exclusivamente para ele e para a sua equipa. Enquanto Pinto da Costa & Companhia continuarem neste registo de cometerem asneiras atrás de asneiras, não serei  eu que os aplaudirá pela proeza.

Obs:- Espero que o Cassillas jogue como nos seus melhores tempos no Real Madrid (difícil...). Sempre que me lembro do que fez na Taça de Portugal, que a poucos metros da baliza resolveu passar a bola ao Marcano quando atrás dele estava um jogador do Braga que lhe roubou a bola e marcou, tenho receio que a brincadeira se repita. Pessoalmente, acho que na actualidade José Sá é bem melhor. Mas, é a minha opinião. Só.

PS-Mea culpa! Um amigo teve a bondade de me corrigir. O guarda-redes da Taça foi Helton. Sinceramente, pelas imagens que vi, ainda ontem (em repetição) fquei com a ideia que era o Casillas. Mas isto não obsta o que penso de Casillas. As minhas desculpas e um abraço ao amigo VP...

16 agosto, 2016

Pirómanos e anónimos


Os pirómanos que paguem

O Governo bem pode anunciar que vai enviar para os pirómanos a fatura dos incêndios, e divulgar outros planos, a somar aos entretanto esquecidos nas gavetas de diferentes ministérios: pouca gente levará a sério a iniciativa. Não passa de uma reação, sem sustentabilidade, ao mediatismo da fatalidade estival do fogo.

Todos anos a história repete-se, enquanto houver ramo para arder. São medidas, muitas das vezes, sem qualquer consequência. Promessas circunscritas, e apagadas, no outono, graças a temperaturas amenas e às primeiras chuvas. No final da época dos fogos, a ministra da Administração Interna pedirá à Autoridade Nacional da Proteção Civil um levantamento dos custos dos incêndios em Portugal. "Vou pedir à Autoridade Nacional de Proteção Civil que faça uma avaliação de custos e contra estas pessoas [alegados incendiários], pelo menos, pode-se agir civilmente", disse em entrevista ao JN. A ministra, formada em Direito, saberá portanto - como qualquer cidadão - que, antes de imputar qualquer responsabilidade cível ou criminal, é preciso fazer prova. E se haverá autores de fogos florestais com capacidade económica para ressarcir o Estado - uma boa parte deles, a crer nas estatísticas, rondará a indigência.

A Polícia Judiciária, até ao momento, não identificou motivações económicas em nenhum dos 81 suspeitos por atear fogo, detidos entre o início de 2015 e meados da passada semana. O perfil do incendiário está traçado. O psicólogo forense Rui Abrunhosa Gonçalves descreve-o: "Trata-se, quase sempre, de indivíduos com baixo nível educacional e de qualificação profissional, habitantes em zonas rurais, consumidores de substâncias - nomeadamente álcool - e em muitos casos com um atraso cognitivo e com patologias do foro mental". É com estes indivíduos a viver, muitos deles, em condições de miséria, à beira da indigência, que Constança Urbano de Sousa conta para pagar a fatura e dar o exemplo.

A ministra sabe, certamente, quem deve responsabilizar pela tragédia que estamos a viver. Enquanto os campos e as matas continuarem ao abandono, pasto de silvas - os proprietários, na maioria pequenos camponeses, deixaram de ter para onde escoar os produtos que a terra lhes retribuía -, Portugal irá arder, repito, até ao último ramo. Por muitas leis gizadas, a partir dos corredores de S. Bento, a situação parece ser essa. O primeiro-ministro António Costa deverá ter consciência de que não é apenas de uma reforma florestal que carecemos. É o país que precisa de profunda reforma - povoado por velhos, sem forças, voltará sempre a ser acessível e sôfrego pasto de chamas.

[Paula Ferreira/JN]


Nota de RoP:

Como é evidente, continuamos a preferir agir por reacção aos acontecimentos, em vez de procurar influenciar a acção. Escrever, é uma espécie de purga à nossa boa consciência. Só que, um blogue não tem a visibilidade, nem a responsabilidade dos media tradicionais, e não ganham um cêntimo pelo trabalho que fazem, é puro voluntariado. 

Os jornalistas podem, e devem, fazer muito mais, porque são pagos para isso. E, se é verdade que decorridos poucos dias após estas catástrofes os governantes cedo se esquecem das promessas de acabar com a pouca vergonha, não é menos verdade que os jornalistas fazem o mesmo, deixam em paz o Estado até ao verão (incêndios) seguinte(s).

De certo modo, o seu comportamento assemelha-se um pouco ao dos pirómanos: é o lado trágico das notícias que os fascina, não a solução. Até porque, nestes casos,  está psicologicamente provado que a reprodução de cenas incendiárias estimula a paranóia dos pirómanos à repetição destes crimes, enquanto as imagens do rescaldo lhes gera sentimentos de culpa. As televisões parecem deliciar-se enchendo-nos os olhos com labaredas.

A propósito, noto grandes afinidades psicológicas entre os pirómanos e os anónimos que gostam de vir aqui ao Renovar o Porto atear fogo. Só que têm azar: deixo-os a falar sózinhos, a matutar na sua paranóia.  


15 agosto, 2016

Há sentido crítico para umas coisas, não há para outras


Todos políticos, todos diferentes

Aida Hadzialic tinha bebido dois copos de vinho numa saída nocturna em Copenhaga. Quatro horas depois julgou estar livre do efeito de álcool e sentou-se ao volante. Foi fiscalizada numa operação policial e o alcoolímetro marcou 0,2 g/l sangue. À luz da legislação sueca cometeu uma infracção. E pagou por ela um preço alto.

O que diferencia esta jovem de 29 anos de tantos outros condutores fiscalizados nessa noite é o cargo que desempenhava até se demitir do Ministério da Educação. A mais jovem ministra de sempre na Suécia, e primeira muçulmana, considerou que "o maior erro" da sua vida não se coaduna com as funções políticas que exercia. "Escolho fazer isto porque acredito que o que fiz é suficientemente grave para tal."

Em Portugal, a taxa de alcoolemia apresentada por Aida Hadzialic não mereceria sequer multa. Na Suécia, não só é considerada infração como pode ser punida com pena de prisão até dois anos. O Ministério Público já se pronunciou dizendo que tomará uma decisão relativamente à governante durante a próxima semana.

O que separa os dois países não é apenas o rigor com que encaram o álcool ao volante. Vista à distância, parece quase bizarra a demissão de uma ministra considerada competente, com medidas de formação de adultos elogiadas pela imprensa, que tem além disso um capital de simpatia associado à sua história de vida: chegou à Suécia aos 5 anos com estatuto de refugiada, em fuga do conflito étnico na antiga Jugoslávia.

Por cá, não faltam exemplos de políticos apanhados em excesso de velocidade ou a cometer outras infrações não diretamente ligadas às suas funções. Como não faltam exemplos de membros de Governo que se mantêm sossegados no lugar, mesmo depois de se tornarem públicos atos que levantam dúvidas éticas e são, mais do que isso, suscetíveis de implicar responsabilidade criminal.
Volta e meia ouve-se dizer que é populista exigir total rigor e transparência a titulares de cargos públicos. Por gerirem bens comuns e tomarem decisões que afetam a comunidade, os eleitos devem estar acima de toda a suspeita e sujeitos ao máximo escrutínio. Populismo é considerar que os políticos são todos iguais, quando como eleitores nos demitimos de uma cultura de exigência e assim contribuímos para a degradação da imagem de quem nos governa. É por serem todos diferentes que devemos admirar os políticos que honram o lugar que ocupam.

(Inês Cardoso/JN)


Nota de RoP:

Vivesse eu num país civilizado, esta crónica não merecia mais que umas parcas linhas de concordância serena, própria de quem se habituou a bons hábitos de cidadania. Como não é isso que acontece neste eternamente adiado projecto de país, fica assim justificado o destaque que dou regularmente a outros artigos de natureza semelhante. 

Intriga-me, é que os mesmos jornalistas mantenham os olhos fechados para outros temas de igual gravidade que em nada abonam a sua genuidade. Por exemplo, com o centralismo, e a brutal segregação que o mesmo tráz ao país. 

Nunca os leio, a explanar com a mesma lucidez, com a mesma profundidade, o excesso de órgãos de comunicação social de todo o tipo, concentrados na mesma região e com a mesma política centralista. Não os leio revelando incómodo, ou no mínimo, estranheza, de saberem que a 2ª. cidade do país teve mais autonomia mediática e financeira em tempos de ditadura que após o 25 de Abril. Como explicarão o fenómeno? Com a demagogia do costume? Com o desprezo pelo rigor que esta jornalista do artigo (com razão) acusa agora os portugueses? 

Seria muito útil para o país real que começassem a democratizar um pouco mais o espírito crítico que mostram  noutros assuntos, como é o caso deste. De contrário, cheira-me a falso, cheira-me, talvez...a Terreiro do Paço. 



12 agosto, 2016

Vamos lá cambada! Os próximos jogos são todos para ganhar



Nuno Espírito Santo começou bem. Ainda estamos no início da temporada e tal como noutras, é muito cedo para retirarmos grandes conclusões.

Há no entanto aspectos que gostaria de ver resolvidos, como a definição do passe, as desmarcações ofensivas, e sobretudo uma maior concentração na recepção e controle da bola. Danilo (e também Herrera), talvez por ainda estar desgastado com os jogos da selecção, pareceu-me nesse aspecto, demasiado lento e algo distraído . Perdeu algumas bolas, que eram suas, por antecipação dos adversários, o que podia ter criado grandes sarilhos ao sector defensivo. O Casillas pode ser um guarda-redes mediático, mas creio que perdeu a segurança de outros tempos. Há também que melhorar a formação das barreiras nos livres dos adversários. Há igualmente alguma lentidão e previsibilidade na construção do jogo ofensivo, o que facilita os desarmes e promove contra-ataques rápidos aos adversários.

Quanto a mim, a par da necessidade imperiosa de reforçar o centro da defesa, são estes os aspectos que urge aperfeiçoar rapidamente.De resto, 3-1, na primeira jornada em campo alheio, não é nada mau. 

11 agosto, 2016

Chega de enganar!

Por esta altura, no pedaço de terra em que estou, encravado entre o Neiva e o mar, o fumo e a cinza que há 48 horas planam e caem fazem-me chorar os olhos.

O cheiro de despedida da natureza, forçada a morrer, dá-me a ideia exata do oxigénio que muitos dos que hão de vir já não terão. É por isso asfixiante perceber que as cenas fecundas que Aquilino descreve na "Casa Grande de Romarigães" que escolhi para me acompanhar neste verão são já idílicas e absolutamente inverificáveis: "(...) Voltou-se para o grande baldio, vestido com a serguilha russa do matiço, pespontado de sobros, carvalhos, cerquinhos e pinheiros, uma frondosa mata a sudoeste, tudo a crescer à rédea solta da natureza, irreprimivelmente, apesar do dente dos releixos e da podoa dos lenhadores. A água reluzia aqui e além nos algares das chãs e nos estirões retos das regueiras, perdida e tão mal empregada que era abusar da bondade de Deus não a encaminhar para onde criasse flores e frutos. (...)".

Tirando isto que, não sendo pouco, soa a choro sobre leite derramado, é forçoso que cada português meta a mão na consciência e veja e aceite a sua quota parte de responsabilidade.

É que, ao contrário, do discurso comezinho, e acriticamente amplificado pela Comunicação Social, o principal problema da nossa floresta não é público, é privado! Não é o sistema contra os incêndios que tem de melhorar (é impossível não ser grato ao esforço abnegado dos nossos operacionais), é o sistema de prevenção que tem de ser implementado e que, doa a quem doer, tem de ser regulamentado e imposto a todos os proprietários florestais.

Um honroso apego à terra que se torna atávico quando impede a sua própria proteção, tem sistematicamente impedido a implementação de variadas e úteis experiências como as que têm tentado organizar sistemas de limpeza e recolha sistemática de coberto vegetal, ou mesmo as que o ordenamento nacional estipula, como as zonas de intervenção florestal com os respetivos planos de gestão e de intervenção específica.

São sempre minguados os resultados por duas razões claríssimas e bem conhecidas: ou não se conhecem os donos das parcelas ou se conhecem na perfeição, mas não deixam que se intervenha, se altere ou se mexa seja no que seja.

A culpa não é do Estado ou do Governo ou do sistema. A culpa é nossa que não cuidamos nem deixamos cuidar do que sendo nosso é de todos! Sou, portanto, a favor que se declare por força de lei a obrigação de todas as parcelas florestais passarem a ter dono - em não aparecendo na hora própria revertem a favor do inventário público - e de todas, sem restrição públicas e privadas, serem obrigadas ao respeito de normas de organização, limpeza e gestão. Fica, claro, o desafio de uma legislação sensata e de um sistema de fiscalização rigoroso e duradouro.

Fica igualmente clara a impopularidade da coisa.

As dolorosas imagens do Funchal que me entram pela TV e as que retenho na memória de uma viagem dorida entre Lanheses e Viana são penhor coletivo da promessa eleitoral que todos os partidos têm por dever fazer e cumprir.

(Cristina Azevedo/JN)



Nota de RoP:

Estou de acordo com parte deste artigo de Cristina Azevedo. E digo em parte, porque sou absolutamente avesso a esta moda de generalizar culpas, e de misturar o público com o privado, quando cabe ao público (Estado) disciplinar o privado. Ainda hoje ninguém me explicou, tintim por tintim, onde, como e quando, contribuí para a dívida nacional e por que a tenho de pagar. Que querem, tenho este hábito teimoso de controlar as minhas próprias decisões (boas, ou más). e como ainda estou por saber se vivi, ou não, acima das minhas possibilidades, recuso-me a ser empacotado em acções que não cometi, nem participei. 

Tenho lido muitas crónicas sobre incêndios, quase todas muito bem elaboradas, mas no fim, os autores tendem sempre a desresponsabilizar quem devem: o Estado. Sim, o Estado! Seria absurdo culpabilizar o Estado por manicaísmos esquerdistas, poupando os privados das suas obrigações. Não é isso que defendo. Neste grave (e já antigo) contexto, que são os incêndios, não acredito que os privados passem a ser mais zelosos com a limpeza dos seus terrenos por sua livre iniciativa, ou porque alguém de boa fé (como a Cristina Azevedo) o recomenda. Se assim fosse, este problema já tinha sido resolvido há muitos anos! Não falo dos incêndios naturais, porque na natureza ninguém pode mandar, mas desde que haja vontade política, é possível  prevenir, controlar e minimizar danos. 

Quanto aos incendiários, eles existem é verdade, mas não queiram tapar o sol com a peneira pondo nas suas costas a responsabilidade por todo um país estar a ferro e fogo. Nessa, já nem os bébés acreditam.

10 agosto, 2016

O que não fazer quando tudo arde

No Carnaval, temos os corsos e os gigantones; no Natal, as rabanadas e o Menino Jesus; na Páscoa, o folar e as amêndoas; e, no verão, os fogos florestais. Somos, para o bem e para o mal, um povo rendido à tirania das tradições. Somos o país que arde e reage ao fogo. Que canaliza dinheiro para aviões, helicópteros, fatos especiais - porque é mais fácil, porque requer apenas um conhecimento rudimentar de engenharia financeira (tirar daqui para meter ali) -, somos o país que tarda em definir uma conveniente política estratégica para a floresta, um país que não age por antecipação, que não sossega enquanto não replanta a mata ardida, desconhecendo que, nalguns casos, isso é o mesmo que lançar gasolina para a fogueira.

Habituámo-nos a olhar para os incêndios como uma fatalidade nacional, encolhemos os ombros, rezamos, crentes e não crentes, para que os bombeiros atuem depressa. Depositamos nos seus ombros a total responsabilidade de nos livrarem deste mal que nos assola com uma brutalidade que só não é mais nociva porque já a inscrevemos no calendário. É rotina.

A época dos fogos (podem tentar convencer-me do contrário, mas decretar uma época dos fogos e dividi-la por fases é o mesmo que oficializar um convite a quem nutre especial atração pelas chamas ou vê nelas um sorrateiro proveito) começa sempre da mesma maneira e conhece sempre o mesmo desfecho.

Discutimos os meios, politizando os argumentos, andamos às cabeçadas sobre quem manda em quem, esgrimimos convicções sobre o valor do dinheiro que queimamos em aluguer de aviões. Sobre o que realmente importa discutir, zero. Nada.

Os fogos, para nós, são entidades abstratas que emergem da bruma a partir de julho e recolhem ao tugúrio sombrio em setembro. Os fogos, para nós, não são ameaças em janeiro ou fevereiro. Muito menos em outubro. Debater a limpeza das matas no inverno soa-nos quase insultuoso (para quê, se está a chover?), desenvolver programas de treino para os bombeiros meses antes de as sirenes soarem nos quartéis seria extemporâneo, porque nos habituamos a que eles, por via da sua bravura, ajam, por vezes, muito com o coração e pouco com a cabeça.

Mas não seria útil a um país que fazia (faz?) gala de ter na floresta uma das suas mais resplandecentes joias parar um pouco para refletir? Não deveria o Governo - este e os que o antecederam - promover uma ampla discussão nacional para, de uma vez por todas, deixarmos de assistir ao mesmo filme, ano após ano? A não ser que queiramos culpar a natureza pelo nosso infortúnio coletivo. Isso: a culpa é das alterações climáticas. Cheguem-lhes fogo.

* Este texto tem seis anos. Foi publicado originalmente neste jornal a 13 de agosto de 2010. Lamentavelmente, continua atual. O que prova que a nossa apetência natural para discutir os problemas continua a ser desproporcional à nossa capacidade para os resolver. Em 2022 falamos.

(Pedro Ivo Carvalho-JN)



Nota de RoP:

Como o autor da crónica do JN, mais do que os incêndios, o que mais inquieta, é a negligência dos sucessivos governos em matéria preventiva. Já repugna a a ladaínha do costume: são precisos aviões, carros de bombeiros (enfim dinheiro), tudo, menos o mais importante:  prevenção. Obrigar os proprietários dos terrenos, sejam eles do Estado ou particulares, a cuidar das matas, e inflingir pesadas coimas aos incumpridores. Ainda há dias, numa viagem pelo Douro, comentei com a minha mulher a anarquia urbanística implantada em plenos montes em zonas belíssimas no Douro, o que significa que os planos directores são uma treta. 


Por este andar nem o Douro profundo vai escapar.  É como eu digo, em Portugal despreza-se o rigor da lei. Só nestas alturas é que todos se lembram de chorar. 

Como o jornalista, também escrevi vários artigos sobre este assunto, que muita me perturba, e já se passaram uns anitos. Se viver, daqui a 20 anos, aposto que está tudo na mesma. Uma vergonha! Um deles foi publicado no extinto Comércio do Porto, em 2005, portanto há 11 anos! Como é possível levar a sério a classe política? Só mesmo os mentecaptos.

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09 agosto, 2016

Pinto da Costa continua sem se assumir

Que me desculpem os portistas que consideram a gratidão uma viagem sem retorno, porque eu não tenho essa ideia do seu significado. A gratidão não é intemporal, nem incondicional, pelo menos, para mim. Há méritos que têm tempos e fundamentos próprios, e os fracassos também. Portanto, não confundamos as coisas. Se respeitei e admirei Pinto da Costa durante muitos anos, foi porque confiava nas suas decisões e na sua capacidade de liderança, coisa que não acontece agora, pelas razões que já aqui apresentei várias vezes. O senhor envelheceu, sendo fisicamente o mesmo, apenas deixou de pensar da mesma maneira, e isso faz toda a diferença. Teria sido sensato, se quisesse admitir a realidade e soubesse retirar-se a tempo do clube mantendo imaculado um currículo de competência. Mas, não. Optou por cobrar (com juros) a confiança que os portistas nele depositavam (ainda há alguns com dificuldades em aceitar a realidade), oferecendo-lhes 3 anos de desgostos, de mau futebol, e sobretudo de humilhação.

Não imagino o Pinto da Costa de há 10 anos atrás , a envolver o FCPorto num negócio de televisão sem retorno, nem privilegiar assumidamente a região e a cidade do Porto. Privilegiar, é apenas dar preferência a, não é radicalizar, é preciso que se entenda. Há uma margem confortável de diferença entre esses dois pólos. A promessa de Pinto da Costa foi essa, mas a realidade é uma profunda contradição.  

Os conteúdos desportivos, que permitem aos portistas acompanhar as modalidades do clube foram um benefício, sem dúvida, mas continuam carentes de uma área de intervenção e debate onde a defesa do clube seja contemplada sem tibiezas, onde a utilização das imagens possa servir de contraditório, ou mesmo de prova contra as opiniões manipuladas dos media lisboetas sobre as prestações das arbitragens. Mas, o Pinto da Costa de agora parece nem querer saber o que está a acontecer com o Porto Canal. Por mais que se esforcem por disfarçar, é visível e notória a subserviência de Júlio Magalhães aos poderes da capital, onde sempre trabalhou, aliás. Com a artimanha de querer agradar a gregos e troianos, de pretender compatibilizar a comunicação generalista com a do FCPorto, deparamos com um Porto Canal muito empenhado a informar os espectadores dos resultados desportivos do Benfica, quando nem sequer ainda conseguimos cobrir totalmente os nossos... 

Passa-se o mesmo em relação aos protagonistas com direito a assentar o rabo num cadeirão do Porto Canal. Os mais importantes - como os autarcas do Porto - raramente lá vão, os da capital, actores, jornalistas, políticos, não podem faltar. É impressionante o modo como um Canal do Porto torna a cidade do Porto tão redutora e invisível aos seus próprios olhos. Contrariamente ao que Júlio Magalhães imaginará, o Porto não precisa de Lisboa para se cosmopolitizar, porque já é cosmopolita e são os estrangeiros que nela vivem e visitam que lhe conferem tal estatuto. Foi também assim que o FCPorto se impôs internacionalmente, se fez respeitar no Mundo. De Lisboa, os portuenses só podem esperar ciumeira e indiferença. Basta ver como está a comunicação social, os jornais, as rádios, as televisões. Como negar essa realidade? São os lisboetas que sofrem de um enorme complexo de inferioridade em relação ao Porto, não o contrário. Nós somos reconhecidos lá fora, eles precisam de falar de si próprios, a auto-promoção é uma constante doentia. Não têm a postura de uma capital idónea. De lá, só colheremos simpatia se não lhes fizermos sombra, se nos anularmos aos seus desideratos. Lisboa pensa que é Portugal, e convive mal com quem lhes lembra que o resto do país é geograficamente a parte maioritária.

Pelo que tenho observado, o Pinto da Costa de agora não deve concordar comigo. Se ele acompanha o Porto Canal, é porque nada tem a alterar. Cheira-me que a decisão repentina de investir no ciclismo não passa de uma estratégia para ocultar novos trambulhões no futebol. Já foi preparando o discurso para se proteger de uma eventual nova derrocada... Dizer como disse, que foi Nuno Espírito Santo quem escolheu o novo ponta de lança belga, quando tinha muitos outros como opção, é lavar as mãos previamente de outro eventual fracasso. Só se esqueceu foi de dizer quem eram os outros candidatos ao lugar "rejeitados" pelo treinador.

Pessoalmente ainda não tenho ideia do que poderá valer N.E.Santo como treinador. Posso no entanto adiantar que, para o tempo que teve com o plantel - praticamente igual ao do ano passado -, considero que vi algumas mudanças para melhor. Goste-se ou não, ninguém pode negar que a bola para trás e para o lado já não é tão evidente. Falta mais, é verdade, mas demos tempo ao treinador. Não é com ele que me preocupo. Quem sabe se não será NES a salvar o presidente de um final infeliz?
    

08 agosto, 2016

Uma cidade que não é um lugar


Image de Uma cidade que não é um lugarDe cada vez que partimos do Porto levamos a cidade inteira no coração.
De cada vez que voltamos, sentimos que mudou, sendo a mesma em todo o seu esplendor.
Como diz Agustina Bessa Luís: “Vivo aqui, mas o Porto não é para mim um lugar; é um sentimento”, partilho em absoluto as suas sábias palavras. O Porto tem essa magia dos sentimentos, cresce connosco e liga-nos sem nos prender.
Um destes dias, perguntaram-me quais os cinco lugares que mais gosto no Porto, a ideia era responder sem pensar demais. A minha resposta foi: Avenida dos Aliados, todo o Centro Histórico, a Cantareira, o Parque da Cidade e a Pérgola da Foz, se fosse preciso referir mais lugares, teria muitos para referir, estes desenham um possível itinerário que tenho o privilégio de habitar quase diariamente, nem que seja de passagem.
Se eu tivesse de fazer um jogo da Glória, a casa nº 1, a da partida, seria a Av.dos Aliados, onde actualmente nos sentimos como se estivéssemos na sala de estar da cidade. Ali, ouvimos grandes concertos, brindamos a passagem do ano, tantas e tantas coisas, até vemos futebol, sentados no chão com as estrelas no céu a brilhar.
Este texto tinha como primeiro título: Juntos e Aliados, e iria começar com o relato do dia 10 de Julho, em que pela primeira vez estive sentada na placa da avenida, a ver um jogo no meio da multidão, entre palavrões típicos de desconhecidos e genuinamente tripeiros. Juntos e Aliados, era esse o sentimento maior, que unia os portugueses naquela noite quente de Verão. A vontade colectiva de vencer parecia incendiar o céu.
Precisei de todos estes anos para me sentar ali, a fazer algo pouco usual, ver futebol no meio da multidão e sentir uma cidade vibrante na sua afortunada diversidade, uma cidade sem complexos e extremamente viva.
É curioso como um lugar de passagem se transforma num lugar de estar e como regressando ao seu estado habitual, retoma as dinâmicas sem nada perder.
O Porto é não é um lugar, o Porto é uma forma de estar.
(Isabel Barros/Porto24)

03 agosto, 2016

O que os jornalistas não vêem


(Clicar para ampliar)
O calor do verão provoca em parte considerável da população uma certa tendência para relaxar, para impormos a nós próprios algum distanciamento da realidade. É natural, e nesta época, até se recomenda, porque se estivermos à espera que o país político nos surpreenda, no que respeita a justiça e prosperidade social, bem podemos morrer de desespero (da monarquia, à república salazarista, mais os 42 anos de democracia teatral, não passámos da mediocridade). 

Como não tenciono morrer deseperado, sigo essa tendência relaxante procurando divertir-me tanto quanto a vida mo permite sem que isso me torne desleixado com o que vou observando.

Não fôra as intermináveis aberrações da acção centralista e das discriminações daí decorrentes que me absorvem completamente o tempo (e os tópicos), podia variar um pouco mais os textos do Renovar o Porto. Não me caem os parentes na lama se assumir que o centralismo e a corrupção intelectual por si gerada tornaram-se quase numa "obsessão" para mim. Talvez seja uma forma de compensar o modo ocioso e pouco resiliente com que outros nortenhos encaram este grande problema... Adiante.

Foi esta pequena notícia do JN e outras lembranças que motivaram o post de hoje. A primeira observação não recai na notícia em si mesma, mas mais no papel passivo de quem a escreve, até porque já não é a 1ª.vez que isto acontece no mesmo local. O que quero dizer é o seguinte:  estará devidamente sinalizado o local de acesso à ponte D. Luís para quem vem de carro e não conhece a cidade? Contemplará essa sinaléctica as dificuldades inerentes a condutores idosos, com visão e a audição limitadas? Eu não sei, porque ainda não tive oportunidade de confirmar, mas ao que tenho visto por essas estradas fora, não me custa nada acreditar que haja ali qualquer falha.

Tendo viajado recentemente um pouco por toda a parte, entre as regiões do Douro e  Minho, fiquei ( uma vez mais) estupefacto com o desmazelo da sinalização rodoviária. Até mesmo em Viana do Castelo, vindo da antiga estrada nacional, é um problema, uma salgalhada tanto para quem quer ir para Norte como para Sul. Chegando à cidade pela antiga ponte Eiffel o condutor depara-se com uma profusão de pequenos sinais, colocados uns sobre os outros a distâncias irrisórias de segurança ao mesmo tempo que é confrontado com bifurcações à direita e à esquerda sujeito a provocar um acidente só porque não tem condições de segurança para escolher a rota pretendida. São tantas as situações deste tipo que dá para ficar com a ideia real do desleixo a que foram votadas a antigas estradas nacionais e para termos a certeza que isso só pode acontecer para nos obrigar a optar pelas vias com portagens. O condutor que optar pelas auto-estradas sistematicamente pode não se incomodar com esta situação, mas se quiser usufruir da beleza das paisagens, em vez de prazer, terá pesadelos, e na pior das hipóteses, acidentes.

É por estas e por outras que tenho muita dificuldade em olhar para o país com optimismo. Nós não nos adaptamos à ordem, às regras, temos sempre de estragar tudo. Fazem-se auto-estradas, degradam-se as estradas e  respectiva sinalização. Constroem-se novos e amplos postos dos CTT, e logo se espreme o espaço que fôra concebido para melhorar a qualidade de serviço e o conforto de utentes e funcionários para lá encaixar uma papelaria. O mesmo aconteceu com a Loja do Cidadão e com a Metro do Porto. Tudo começa bem, mas raramente continua nessa onda. São a porcaria dos políticos e os seus eternos saltos de videirinhos sem escrúpulos, que  não nos fazem avançar. E com um povo acrítico que se masturba de patriotice futeboleira, não sairemos tão cedo desta pocilga.


Grande atleta, igual carácter

Hugo Laurentino, acima de tudo um grande Homem
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01 agosto, 2016

Do FCPorto...

...que ontem vi jogar, gostei. Sobretudo na 1ª. parte. É a primeira vez, num prazo próximo dos 3 anos, que vejo o FCPorto soltar-se daquela caranguejola da bola para trás e para o lado, e fazer lindas  e envolventes jogadas de ataque.

Se isto quer significar que Nuno Espírito Santo está a saber "tocar" no coração e na cabeça dos jogadores, não sei, ainda é cedo, mas se gostei, é porque gostei mesmo. E isto é bom, mas é apenas isto: um bom jogo. Que querem que vos diga? Daqui a uns dias até posso (espero que não) estar a dizer o contrário, porque este Porto dos últimos anos tem-nos decepcionado tanto que até temos medo de ser espontâneos.

Independentemente do que N.E.Santo venha (ou não) a fazer , com estes jogadores e com outros que eventualmente possam ainda chegar, o meu maior receio está na permissividade da SAD portista (presidente incluído), caso venhamos a ser discricionados pelas arbitragens e precisemos de dar um murro na mesa, ou partir a loiça toda se preciso fôr.

Se esta equipa optar por este estilo de jogo, mais dinâmico e pressionante, as situações de contacto com os adversários (e vice-versa) vão aumentar, o que irá proporcionar às arbitragens malandras muitas oportunidades para amarelar e vermelhar os nossos jogadores. É isso que mais me preocupa, como sabem. Aliás, cheguei também a admitir a hipótese que, em parte, tenha sido o medo de serem injustamente penalizados pelos árbitros uma das razões que levaram os jogadores a evitarem contactos mais impetuosos com os adversários.  A não ser que finalmente os senhores do apito se dignem fazer aquilo que nunca deviam ter deixado de fazer, que é, serem imparciais e honestos. Só lhes ficava bem.

Ontem, até o Adrian Lopez brilhou. Vamos lá, já é tempo de andarmos a fingir que somos uns nabos, um clube e uma cidade (como algumas) que precisam do centralismo para mostrarem que existem*...

*para se promoverem não hesitam a aproveitarem-se do gesto nobre de uma criança...

27 julho, 2016

Do FCPorto ao Porto Canal

Carla Ascenção
(mais pragmatismo, pede~se)
Contrariamente ao que por aí costuma dizer-se dos treinadores de bancada (quase sempre mal),  eu gosto de ler os seus comentários. Então, quando começam a dar bitaites sobre as qualidades técnicas e posicionais dos jogadores, e explicam como mexeriam na equipa para a compensar de algumas lacunas, como por exemplo, recuando um médio defensivo para central, e vice-versa, acho até muito interessante. Nestes casos, a unanimidade é rara, mas é isso que explica em parte a atracção pública pelo futebol. Isto está a acontecer nos blogues portistas, o que até se compreende, dada a instabilidade latente da direcção do FCPorto traduzida em sucessivos fracassos na aquisição de jogadores qualificados para posições-chave, e na inédita dispensa/retoma de alguns jogadores...

Para mim, já disse, isto não me surpreende, embora nunca me passasse pela cabeça que o FCPorto chegasse a este ponto de desorientação e debilidade financeira. Mas é o que costuma acontecer quando a liderança se perde.

Dito isto, também não me aqueceu nem resfriou saber que o Porto Canal regressou à casa de onde nunca devia ter saído sem dar explicações, e de quem pagou para o ter. Aliás a NOS e o FCPorto ainda devem um pedido de desculpas explícito aos seus clientes e adeptos, convinha não esquecer... Deu para ver que tudo está como dantes, igualzinho ao Porto dos últimos anos, à execepção do histórico do clube que é incomparável com a vulgaridade da televisão.

O Porto Canal só poderá ter serventia se fôr para continuar a ver o FCPorto na senda do sucesso e da valentia de outrora, e para trabalhar em benefício claro dos portuenses e do clube, não para nos deixar furiosos com quem o dirige e se verga ao centralismo, como tem acontecido. Ainda ontem pudemos ver a Carla Ascenção a entrevistar Ricardo Rio, presidente da Câmara de Braga como se fosse o do Porto, sem qualquer pudor de continuar a omitir aos portuenses a causa da sua ausência... Como é que um canal do Porto, com tanta verborreia pseudo regionalista pode manter-se tanto tempo sem abrir as portas ao seu autarca principal e sem dar cavaco à população? Alguém compreende isto? Por que é que os portuenses não questionam estas coisas nem pedem explicações a uma, e a outra parte? Se fosse o Rui Rio todos entendiam, agora o Rui Moreira, que até é portista e gosta de futebol, ninguém entende.

Enfim, já dei para este peditório, mas mesmo assim, isto cansa, seca-nos as raízes.

Nota de RoP:
Acabo de assistir à melhor 1ª. parte de jogo dos últimos tempos do FCPorto. Finalmente, vi uma equipa solta, bem posicionada (principalmente o meio-campo) e agressiva. Destaque para Octávio/André Silva/Bueno/Corona/Herrera. A segunda parte não foi a mesma coisa. Houve jogadores (como Brahimi, e Aboubakar, por ex.) que voltaram a provar que não são adaptáveis às características do nosso futebol, porque não têm mobilidade e profundidade q.b. A defesa continua a ser o nosso calcanhar de Aquiles. Remediou-se na 1ª.parte por força de um meio campo pressionante, dinâmico e muito criativo. E o Adrian Lopez, alguém o viu?

26 julho, 2016

MUNICÍPIOS VÃO GERIR STCP MAS ESTADO É “DIRETOR FINANCEIRO”

A Câmara do Porto vai presidir à Unidade Técnica de Gestão (UTG) da STCP, com os municípios a gerir a operação da empresa, mas o Estado terá de aprovar decisões que agravem o saldo.
A versão final do memorando de entendimento foi conhecida na terça-feira. O Estado vai assumir a dívida da Sociedade de Transportes Coletivos do Porto (STCP) e está obrigado a investir 88 milhões de euros na renovação da frota, colocando a circular nas ruas de Porto, Gaia, Matosinhos, Maia, Valongo e Gondomar mais de 300 autocarros ecológicos (movidos a gás natural) até 2023.
A UTG começará a regular a STCP a partir de 2017, mas “a efetivação do novo modelo de gestão do serviço explorado pela STCP dependerá ainda da apreciação favorável/não oposição por parte de terceiras entidades, designadamente, da Comissão Europeia, da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes e do Tribunal de Contas”, refere o memorando.
O Porto escolhe o presidente do Conselho de Administração da STCP, que incluirá um membro nomeado pelo Estado e outro por cada um dos cinco restantes municípios que assumem a gestão da empresa.
O administrador que o Estado nomear será, segundo explicou Rui Moreira na reunião do executivo da Câmara do Porto a que preside na terça-feira, “o CFO [diretor financeiro], porque fica responsável pela dívida”.
O memorando de entendimento é claro: o voto desde membro do conselho é determinante, uma vez que qualquer decisão “que possa agravar a condição financeira da empresa”, nomeadamente no que toca a medidas no âmbito do serviço público, tem de ser aprovada pelo administrador indicado pelo Estado.
Os municípios “vão ter de ser mais eficientes e menos egoístas”, afirmou Rui Moreira, que explicou aos vereadores que “o pior cenário” para as seis autarquias que vão gerir a empresa será pagar, em conjunto, 4,5 milhões de euros em 2017 e outros seis em 2023, mas garantiu ainda que “os valores estão a ser trabalhados”, uma vez que os munícipios “propuseram começar o processo de gestão com um investimento mais brando”.
Apesar da gestão da STCP ser dos municípios, a empresa continua a ser propriedade do Estado. As autarquias definem “os critérios de repartição dos encargos decorrentes das funções de organização, direção e financiamento de obrigações de serviço público” e de “acompanhamento do serviço prestado pela STCP que venham a ser exercidas pela Área Metropolitana do Porto através da UTG da STCP”.
Os municípios estão obrigados pelo memorando a chegar a acordo no que toca ao regulamento e funcionamento da UTG para “acompanhar o serviço público” explorado pela empresa. O memorando exige ainda um acordo das seis câmaras com a Área Metropolitana do Porto (AMP) que garanta que “a gestão da STCP não afetará financeiramente” os restantes 11 concelhos da AMP.

24 julho, 2016

O cherne está pôdre

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos
José Augusto Rodrigues dos Santos
(Porto24)

Sei por experiência própria que a política não é para meninos de coro, para donzelas púdicas que ruborizam ao mínimo palavrão, para cidadãos com princípios e dignidade. Alguns destes, cidadãos com princípios e dignidade, tentam remar contra as marés sujas da política, mas rapidamente são trucidados pelas impiedosas máquinas partidárias ou seitas de interesses que dominam o aparelho de estado e as suas adjacências. Entre as seitas mais malévolas para o interesse público evidenciam-se as sociedades de advogados cuja habitual nefasta ação condiciona a política, economia e finanças.
Entrar numa destas seitas que controlam em seu proveito a coisa pública e privada seria o destino natural de Durão Barroso. Quer-me parecer que era a algo como isto que ele referia como solução profissional mais vantajosa, em contraponto à “coragem” que teve, por desejo de desafio, de entrar nos quadros da quadrilha de malfeitores que é a Goldman Sachs.
Conheci Durão Barroso num meeting político na faculdade de Direito de Lisboa, em 1975. Nessa altura eu fazia parte da Comissão Instaladora (CI) que elaborou o decreto-lei 675/75 que criou a via única de formação em Educação Física e que veio a desaguar na criação do ISEF do Porto e do ISEF de Lisboa. A minha ida para o INEF, onde se centralizaram as ações da CI, permitiu-me conhecer José Manuel Constantino, também ele integrante da CI e que era o “dono iluminado” de todo o fervor revolucionário maoista que invadiu o INEF, em contraponto ao fervor revolucionário revisionista defendido pelo neófito comunista Rabaçal. Deixei-me ser cooptado pelo Constantino para o MRPP, mais pela destreza argumentativa que demonstrava nos meetings que pela beleza e congruência da mensagem política implícita à vulgata expandida pelos prosélitos do Arnaldo de Matos.
Nessa altura, a faculdade de Direito de Lisboa era o sanctu santorum de todas as ideologias revolucionárias e feudo privativo de doutrinação da ideologia maoista que tinha como mártir “santo” Ribeiro dos Santos. Arnaldo de Matos e Saldanha Sanches, com uns arremedos do Fernando Rosas, empenhavam-se em reforçar a linha vermelha revolucionária que, em contraponto ao revisionismo soviético, elegia a união dos operários e camponeses como o ponto de partida para os novos amanhãs cantarem mais afinados. Nos intervalos das intervenções dos “grandes educadores” havia lugar para algumas tomadas de posição de “xicos” e “xicas” espertos, como Durão Barroso e Maria José Morgado, que debitavam anátemas a torto e a direito e marcavam com o ferrete de linha negra quem não bebesse até à alma e replicasse até ao enjoo, o mantra – “Nem fascismo, nem social-fascismo, revolução popular”. Mantra que eu debitava, com a força vocal que ainda hoje me caracteriza, na venda do Luta Popular em Algés e redondezas. Na exterioridade, calças-jardineira, boina, camisa à pescador, barba mal-amanhada, eu era um “verdadeiro” revolucionário. Na alma, as contradições eram insanáveis e, por momentos, adormeci aquilo que era e que os meus correligionários apodavam de fascista, assassínio colonial, salazarista, reacionário, conservador, gajo de direita, antirrevolucionário. Serei isso tudo, mas agora pouco me importa as críticas dos outros. Começo a estar em paz, comigo e com o meu passado. A minha militância no MRPP foi sol de pouca dura. A teologia dessa religião não me converteu, embora me tenha propiciado um curso rápido de iniciação à política mais irracional que deus ao mundo botou. Muitas noites passadas em claro a colar os cartazes puros da “revolução popular” e a arrancar os cartazes impuros dos comunistas enquanto os controleiros do INEF – Bispo e Constantino, não sei se alguma vez pegaram num balde de cola e pincel para afixar cartazes, iam reunir no sentido de decidir se íamos entrar na clandestinidade, na altura em que o “grande educador da classe operária” foi preso pelo COPCON. Outras vezes iam reunir para decidir sobre as grandes decisões políticas para o futuro. Ou seja, iam dormir enquanto os camelos dos “escravos” ideológicos iam penar por tudo o que era parede de Lisboa e arredores.
Desde essa altura fiquei de pé atrás com Durão Barroso. No meu classificatório registei-o logo como: puto palavroso, mal-educado e com a ânsia incontrolada de protagonismo. Hoje mantém os tiques que o evidenciam, pela negativa, na política nacional e internacional.
Que Durão Barroso está indelevelmente marcado com o estigma da cobardia, aproveitamento pessoal da política e oportunismo político é questão que não levanta dúvidas a qualquer mente lúcida e sensata. As críticas unânimes que recebeu são prova que há limites para a falta de vergonha e carreirismo patológico. O aproveitamento duma carreira política em proveito pessoal é “crime” ecuménico. Situações como a de Durão Barroso devem induzir legislação adequada que erradique o perigo de um político se desviar, em proveito próprio ou alheio, da missão elevada que é servir a res publica.
A defesa de Durão Barroso por alguns dos seus “compagnons de route” como Passos Coelho, Duarte Marques e outros serviçais do PSD evidencia a lógica de seita mafiosa que assiste a muita política partidária. Péssimo esteve também o Presidente da República ao evidenciar a promoção profissional do sujeito com algo de desígnio nacional, ao nível das medalhas dos nossos campeões desportivos. Asneira grossa caro Presidente. Era melhor que estivesse calado.

Nota de RoP:
O cherne sempre esteve pôdre, só a mulher e alguns tótós o comeram...