30 junho, 2020

Neill Lochery e a cidade do Porto. Lisboa, não tenhas ciúmes, fica-te muito mal



Neill Lochery, autor e historiador escocês, doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Durham e responsável pela cadeira de Política Israelita na University College of London, acaba de publicar o seu mais recente livro que se intitula "Porto, a Entrada para o Mundo".

Este volume oferece uma narrativa dos mais destacados acontecimentos que ocorreram na Invicta. Foi para falar sobre este livro que acaba de ser lançado que se reuniu num hotel da Baixa do Porto com uma equipa da Notícias Magazine (NM). O Porto. Apresenta-lhe excertos desta entrevista, publicada hoje no NM.

Ficamos a saber que o título do livro "Porto, a Entrada para o Mundo" é o empréstimo de uma expressão utilizada pelo então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, aquando da sua visita ao Porto em agosto de 1998 e foi escolhida por Neill Lochery porque "resume na perfeição o que é o Porto. A ideia de que é muito mais uma porta de entrada do que uma porta de saída é uma das razões que explica a atração dos que escolhem a cidade como base temporária ou permanente".

Nesta entrevista à Notícias Magazine, o autor fala ainda do papel subestimado do Porto na História de Portugal, do sentimento de identidade do Porto e de pertença a Portugal; aborda ainda o facto de "se trabalhar mais no Porto do que em Lisboa", o centralismo e a questão do turismo, e ainda a possibilidade de um presidente independente ser eleito para a Câmara Municipal de Lisboa.

Neill Lochery indica, nesta entrevista, que o seu objetivo foi "escrever um livro envolvente usando diferentes tipos de fontes que ajudassem a explicar de forma interessante a história da cidade sob diferentes pontos de vista das suas influências. A minha esperança é que as pessoas se revejam num livro de história que as atraia ao Porto."

O ponto de partida para uma leitura atenta deste livro pode muito bem ser a sinopse, que lê "Porto, a Entrada para o Mundo" como "um vibrante centro comercial e cultural, que se orgulha das suas ligações históricas com o mundo exterior".

Foi no ainda encerrado Hotel Infante Sagres, na Baixa do Porto, (que abriu em exclusivo para a realização desta entrevista) que o famoso autor se reuniu com a Notícias Magazine para apresentar o seu mais recente volume dedicado ao Porto.

Lochery confessa que apesar de ter escrito muito sobre Lisboa, se apercebeu da importância da cidade do Porto enquanto fazia investigações para livros anteriores, especialmente no que diz respeito ao Liberalismo. A pesquisa para este livro, agora lançado, teve início há dois anos em Inglaterra e depois já em Portugal para "aprofundar conhecimento" sobre as guerras liberais e absolutistas entre D. Pedro e D. Miguel.

De facto, Neill Lochery afirma à NM que um dos aspetos mais marcantes do livro que agora foi publicado e que "marca a personalidade do Porto", foi a guerra entre aqueles dois monarcas que tinham entendimentos diferentes sobre o exercício do poder, e que demonstra "a noção de resiliência dos portuenses, da sua necessidade de sobrevivência durante o cerco da cidade (1832-1833)".

Terminada a guerra, Lochery salienta que aconteceu "um movimento ao contrário", ou seja, segundo o historiador escocês, no Porto, "foi o começo de algo novo, de inúmeras batalhas entre diferentes grupos liberais sobre a Constituição, (...). E o interessante foi que esses debates sobre a Constituição não tiveram lugar em Lisboa, a capital onde estavam e estão o poder e as elites, mas no Porto", refere Neill Lochery.

Sobre se o papel do Porto na História de Portugal é subestimado, o reputado escritor atira um "claro que sim" e afirma que "muita da política de Portugal passou-se no Porto".

Lochery acrescenta, também, que outra das questões essenciais em relação à Invicta está relacionada com a questão republicana. "A primeira tentativa de derrubar a monarquia aconteceu no Porto a 31 de janeiro de 1891, quando os mais importantes movimentos políticos estavam lá centrados".

À questão sobre se o Porto será a cidade mais britânica de Portugal, Neill Lochery sugere a observação da arquitetura na cidade para afirmar que "olhando para alguns edifícios como o Palácio da Bolsa ou o Hospital de Santo António, é fácil imaginarmos que estamos em Edimburgo (...) ou em qualquer cidade do norte de Inglaterra".

Um outro aspecto que o escritor ressalta é o facto de que "geralmente as cidades têm um estilo único e o Porto é muito eclético".

O que o leva a concluir, na mesma entrevista, que "cosmopolita talvez não seja a palavra mais adequada" para classificar o Porto; para Lochery, "é mais uma espécie de sentimento europeu, mais até do que Lisboa, o que vem, lá está, da arquitetura e de como a cidade foi sendo ordenada ao longo dos tempos".

Além disso, para o historiador escocês, o "sentimento britânico" que o Porto sempre demonstrou no passado, "ainda permanece, nomeadamente na personalidade dos portuenses. Para as pessoas do Porto, o trabalho é encarado como a parte central da vida", referindo a título de curiosidade que "uma das primeiras coisas em que reparei quando cheguei ao Porto foi nos tempos das horas de ponta no trânsito, que são muito mais cedo do que em Lisboa. No Porto há uma cultura de empreendedorismo e de trabalho mais atrativa para estrangeiros que queiram investir em Portugal".

Acerca da relação do Porto com o turismo, Neill Lochery afirma que ao contrário de Lisboa, que se "tornou turístico-cêntrica", tendo sido "quase varrida pelo turismo", o Porto "teve mais cuidado nessa matéria".

Apesar de Portugal ser um país cuja dimensão geográfica não é muito extensa, Lochery considera que portuenses e lisboetas "são diferentes"; para o autor, "as pessoas do Porto estão mais comprometidas com o resto do país, ao passo que em Lisboa são mais centradas nelas próprias e na cidade" e acrescenta que "isso explica muito o centralismo do país". Fenómeno que surpreendeu Lochery, porque "não vejo pessoas no Porto a tentar declarar a independência da cidade e da região".

Para o professor de Ciência Política, "são questões históricas que continuam e que vão continuar na ordem do dia", exemplificando que "ainda recentemente houve um confronto público entre a Câmara do Porto e o Governo por causa da TAP".

O professor foi desafiado a clarificar se é verdade que existe "a identidade do Porto" ou não seria esta afirmação um cliché; ao que retorquiu "claro que existe! O Porto é muito distinto de Lisboa. É como estar em Portugal sem estar em Portugal", e prosseguiu afirmando que "apesar dessa forte identidade" ou de se afirmar na Invicta que "o Porto é uma nação", o "sentimento de pertença a Portugal é enorme".

Uma vez que o atual presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, se apresentou às eleições autárquicas como independente, tendo conquistado o seu segundo mandato com maioria absoluta, a NM perguntou a Neill Lochery se um candidato independente poderia ganhar as eleições autárquicas em Lisboa; o autor de "Porto, a Entrada para o Mundo", responde que "não tenho a certeza que um presidente independente pudesse ser eleito, até porque a Câmara de Lisboa funciona como catapulta para um cargo de relevo a nível nacional".

Neill Lochery participa em numerosas palestras por todo o mundo, é comentador regular em assuntos internacionais e tem inúmeras publicações na imprensa internacional, incluindo o Wall Street Journal.

Nota de RoP:
Para quem ignore o significado de ecletismo, talvez interesse saber o que consta do velhinho e reputado dicionário de Augusto Moreno sobre a palavra:

Sistema filosófico que consiste em escolher o melhor de qualquer doutrina ou sistema, com bom critério.

13 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado Rui Valente por este belíxximo texto (que naturalmente face à sua dimensão lhe faltará sustentação).

Contudo, um profundo agradecimento por o trazer para aqui, para o seu blog... que muitos o leiam e que sobre ele façam uma reflexão

Obrigado e um abraço

JPPCH

PS- Quanto à nossa equipa, independentemente do lugar que ocupa, já nos últimos meses foi tudo dito... quanto aos corruptos, aguardemos paea sustentadamente melhor falar... ainda não perceberam que tal como JVA o LFV só se aquenta neste contexto jurídico de país enquanto for presidente de SLB.

Rui Valente disse...


JPPCH,

Não tem que agradecer, mas fico muito contente por saber que ainda há portuenses enraizados, como parece ser o seu caso. O Porto tem de regressar ao palco da política nacional e acabar de vez com este centralismo carunchoso.

Até os estrangeiros nos reconhecem méritos. Só os egoístas, pró-centralistas e anti-patriotas que vivem à custa do trabalho dos nortenhos o negam. Invejosos provincianos, é o que eles são, assim como os aqui nascidos desenraizados.

Anónimo disse...

O TRIPEIRO.
NAÇÃO VALENTE IMORTAL.
Por vezes somos mais reconhecidos por gente de outros países que propriamente pelos nossos. Neste país centralista cheio de políticos corruptos e a cheirar a mofo, um autarca independente tem muitas dificuldades em fazer obra para que a cidade se torne mais global mais Europeia. O Rui Moreira é um homem da cidade e do Norte, mas os nichos da Política para dar algo ao Porto como esse tribunal contas, é um problema, continuamos aguardar verbas e autorização tempos infinitos para se concretizar obras de interesse publico.

Anónimo disse...

Peço desculpa pelos ortográficos da minha comunicação... quanto ao conteúdo mantém-se da comunicação.

Agradeço muito a sua resposta. Por este espaço de liberdade vamos tendo ou usufruindo de comunicação e de intercambio informativo.

Quanto ao FCP que todos amamos, com pior ou melhor orientação (direcção, equipa técnica e opções) que mesmo a jogar abaixo do exigível, para nós adeptos, que vá vencendo e seja campeão... campeão no campo (com suor e esforço) e campeão contra a macrocefalia lisboeta (e sobre isso há sempre muito a dizer a a ecrever, desabafar)
Mais uma vez obrigado

JPPCH

Rui Valente disse...

JPPCH,

Sobre o nosso clube já não digo nada. A qualidade de futebol é fraca, mas ainda é possível
ganharmos este tão estranho campeonato. Haja talento e vontade para isso.

Mas os mafiosos continuam em liberdade e a justiça a fazer de conta que não sabe de nada... Isto precisa mesmo de uma lavagem. Aguardemos pelos
próximos capítulos.

Volte sempre


Anónimo disse...

Gostaria, se isso me é permitido uma pequena homenagem ao Senhinho... aqui no seu espaço... fiz o ciclo e secundário no INA (Caldas da Saúde) e tinha um prefeito (Zé Pedro) que por artes que desconheço arranjava sempre bilhetes para a velha superior sul para a canalha portista do colégio... foi lá que vibrei (muito adolescente) com o FCP campeão após 19 anos de seca, que vi o Manchester e que com Oliveira, Gomes e Seninho essa flecha endiabrada vi o FCP renascer face à macrocefalia lisboeta (que o 25 de abril não atenuou, pelo contrário acentuou).

Que descanse em paz, esse meu herói dos 10-12 anos


JPPCH

Rui Valente disse...

JPPCH,

Eu subscrevo os seus sentimentos.

Seninho foi um jogador fabuloso que lamentavelmente não esteve tempo suficiente no FCPorto e para poder assim mostrar ao mundo as suas excelentes aptidões técnicas.

Foi demasiado cedo para os EUA por ser um excelente jogador, facto que
o levou a sair demasiado cedo. Que descanse em paz, é tudo o que lhe posso desejar.

Cumprimentos

Francisco Paulos disse...

O futebol é um lodaçal em que um clube, que mais não é que uma associação criminosa,domina tudo e todos a seu bel prazer. Esta história do Helton leite só acontece num país em que a justiça e a verdade desportiva não existem. A CS dominada por cartilheiros tudo branqueia. Acontecesse isto com o Porto e seria abertura de telejornais e capas de pasquins. É contra isto que é preciso lutar mas infelizmente temos de aguentar edta passividade por mais 4 anos pois os sócios nas eleições branquearam o comportamento desta gente que não defende o clube. É pena.
Quanto ao campeonato nada está ganho e não ganhando em Tondela dificilmente o venceremos pois ainda temos que jogar com o Sporting e o braga e o futebol miserável que praticamos não deixa ninguém optimista. Espero que tudo corra bem. De qualquer modo acho que SC no final deve sair.

Rui Valente disse...


F. Paulos,

É um lodaçal, sim senhor. Mas os principais responsáveis por ele, são os "governantes" (até me enoja usar esta palavra).

Não é a abstracção do Estado, como o Francisco J. Marques diz. O Estado não identifica as pessoas que o representam, sobretudo as com cargos "superiores".

É chegada a altura de falar nos NOMES e não apenas no Estado. Assim, nunca conseguiremos responsabilizá-los. Assim, eles escapam à vergonha do que tentam esconder. É preciso responsabilizá-los pelos danos causados ao FCPorto, não só morais como também materiais.

Isto é que me repugna, porque os autores já estamos cansados de saber quem são. E são muitos. Muitos porque deixam-nos praticar os crimes que quiserem. E quem permite isso? Quem?

Anónimo disse...

Ainda vamos ouvir o senhor Luis Filipe Vieira dizer: Benfica? Não conheço!
Agora até à Guiné já chegou para corromper putos e funcionários de embaixada... e viva o rei dos frangos num Portugal depenado de honestidade, igualdade e sobretudo moralidade.

F.C.

Anónimo disse...

Boa noite Rui,

Espero que se encontre bem, assim como os frequentadores aqui habituais.

A propósito das “polémicas com Lisboa”, já reparou que quando desde o norte ( não necessariamente do Porto ) se reclama de alguma coisa relativa ao que na capital do império falido se faz, a reaccao que normalmente vem la de baixo é que somos parolos, mesquinhos, etc...
Ou seja, a malta aqui reclama, normalmente com fundamento e objectividade e a resposta que nos dão é de uma receptividade e interesse pela análise e discussão que diz bem da inteligência dos espécimens....

Abraço a todos!

Deacon Blue

Rui Valente disse...

Viva, Deacon Blue!

Se quer que lhe dê um exemplo de suprema demagogia (para não dizer hipocrisia), é o programa da SIC, "O EIXO DO MAL" onde participa o suposto portista Pedro Marques Lopes e mais 3 pessoas além do moderador.

Podia ser aquilo que parece (um bom programa), onde são debatidos casos relacionados com a política, e os políticos. Podia ser factualmente um bom programa, mas não é, porque até ali é proibido falar-se de centralismo, ou de regionalização.

A vantagem de se continuar a ver esse programa, é exactamente quando entra em jogo o PORTO e o NORTE em geral. Aí, salta-lhes imediatamente a máscara do sentido crítico, e da imparcialidade, que nesse caso deixa de existir. Está-lhes na massa do sangue: Lisboa é Portugal. O Porto causa-lhes urticária e uns ciúmes cretinos. Portanto, nem Pedro Marques Lopes faz a diferença. Vejam com regularidade o programa e vão ver que mal toquem no tema Porto/Regionalização aquilo é uma "revolução".

Um abraço,
e muito cuidado com o Covid-19, as férias já estão a criar problemas.

Anónimo disse...

O TRIPEIRO.
LISBOA CHAUVINISTA,
Parolos residentes na capital com bons Tachos, é a pior merda de gente, esta escumalha juntamente com alguns naturais lisboetas, são as amarras as algemas do centralismo. Tirando Lisboa esta corja pouco ou nada conhecem do resto do país. Falar estes parasitas em Regionalização ou Descentralização é como lhes tirar as entranhas pela boca.