Vendo as coisas pelo lado mais optimista, pode-se dizer que ainda é cedo para começar a recear pelo futuro do Porto Canal, mas, se as avaliarmos com o peso das mais recentes experiências do Porto em matéria de televisão, talvez se justifiquem algumas cautelas.
O FCPorto decidiu escolher o jornalista Júlio Magalhães para liderar o projecto do Porto Canal, o que, numa primeira abordagem, parece merecer a aprovação de toda a gente. Júlio Magalhães é um homem do Porto e um jornalista competente, que ao contrário de outros, nunca se desligou totalmente da sua cidade, nem mudou a residência para Lisboa, apesar de ter que ir para lá todas as semanas trabalhar. São detalhes, mas detalhes importantes, se os compararmos com outros, como Judite de Sousa, José Alberto de Carvalho e Fátima Campos Ferreira, que sucumbiram sem pestanejar ao "efeito difusor" da grande capital, e nunca mais quiseram saber do Norte para nada. Mas, será isso suficiente, para fazer de Júlio a pessoa certa para o lugar de Director-Geral do Porto Canal? Eu, tenho dois tipo de resposta para esta questão. Se for apenas para desenvolver a estação de tv, para ampliar o seu raio de acção a Norte, mas com protagonistas políticos já conhecidos que nada têm a acrescentar a um projecto que se quer novo, diria que Júlio Magalhães serve. Agora, se for para criar e liderar uma nova forma de fazer televisão, politicamente mais ousada, interventiva e fracturante com o centralismo, nesse caso, já não sei...
É que, sinceramente, a ideia de chamar Marcelo Rebelo de Sousa ao Porto para "abraçar" a causa regional não me parece que vá fazer de Marcelo um regionalista. Marcelo, gosta de ser comentador da TVI e é, e sempre foi, um centralista inveterado, como se pôde comprovar durante todos estes anos na TVI, onde não foi capaz de seleccionar a Regionalização sequer uma vez para tema do seu programa de domingo à noite. Se Júlio acredita que a presença de Marcelo na TVI pode ser uma mais valia para o Norte, então é porque confunde a amizade com a política, e isso é cometer um erro de palmatória.
Por isso, estou intrigado. Ignoro se o FCPorto tem um plano estratégico para o Porto Canal e se Júlio Magalhães o conhece, e se, a propagada cobertura a Norte vai mais além do mero voluntarismo, ou se tem uma componente ostensivamente política em matéria de regionalização, como seria suposto ter. É que, o que se continua a ver nos estúdios do PCanal para discutir os nossos problemas, são exactamente as mesmas figuras públicas que aparecem nos outros canais, e que já sabemos o que valem.
Tenho a ideia de que o FCPorto ainda não pesou convenientemente a grande oportunidade que é para a cidade e para o próprio clube ter um canal de televisão, nem o diamante que tem nas mãos para lapidar e se tornar na jóia da coroa dos nortenhos. Seria bom que não facilitasse logo no arranque. Se é um projecto novo, a cara tem de dizer com a careta. E, para já, os sinais não são muito animadores. Mas, esperemos que não passe de um pressentimento. E Marcelo Rebelo de Sousa não é de todo, o melhor.

