Sem dó nem piedade, o JN que, nos últimos anos não se tem propriamente distinguido pela fidelidade às raízes que lhe deram vida, rodeou a imagem de André Villas Boas de balões de texto com declarações recentes do [até esta hora, que sei eu?] ainda técnico do FCPorto, que rezavam assim:
- O FCPorto está presente em mim desde muito cedo, desde que tenho memória
- Cresci adepto do FCPorto e vivi o clube das mais variadas formas
- Estou sentado na minha cadeira de sonho e não abdico dela por nada
- Já fui membro dos Super Dragões
- O meu futuro está completamente ligado ao FCPorto
Depois, com cruel sadismo rematou este título: "André é o último brinquedo de Roman"
Sei bem, que nos tempos que correm é cada vez mais difícil investir no carácter das pessoas. Também sei, a inutilidade que é, a profusão de pareceres que por aí vemos, sobre as causas da crise, quando na origem de todas elas há uma só explicação: o capitalismo. E que por detrás do capitalismo, existem pessoas, especuladores e banqueiros - todos elas com nome próprio -, que deviam ser responsabilizadas pela crise, mas que, pelo contrário, surgem [FMI] aos olhos do povo como salvadoras da pátria. Contudo, tem de haver limites.
A ser verdade, repito, a ser verdade, que André Villas Boas vai mesmo para o Chelsea, e que a cláusula de rescisão de 15 Milhões de euros, foi, ou irá ser paga ao FCPorto, uma única ilação daqui se pode extrair: o dinheiro reduz a pó o carácter de algumas pessoas, o que pode querer significar que não é sensato fazerem-se promessas de amor ao clube, como fez o André, sem antes pesar muito bem o preço do carácter e de prever a força dominante do dinheiro dos magnatas mundiais. Eles existem, estão atentos às mercadorias, e quem como André Villas Boas, acabou de fazer uma época notável à frente do FCPorto, devia sabê-lo e, por conseguinte, poupar-se a sentimentalismos clubístas, do modo apaixonado como o fez.
Assim sendo, no futuro, qualquer treinador que tenha o mesmo tipo de declarações, poderá criar um sentimento de desconfiança nos adeptos sem retorno, o que me parece dispensável, já que, ninguém pode prever o futuro... Se a saída extemporânea de José Mourinho - que tanto chocou os portistas -, se tolera, tendo em conta o facto de ele não ser portista, a de André Villas Boas já custa muito a digerir [pelo menos a mim], depois de ele se ter comprometido a ficar mais uma época no FCPorto.
O clube, precisa de fazer receitas, todos sabemos disso. Mas, é preciso não esquecer o papel afectivo dos adeptos, que face a estes golpes de teatro podem sentir-se traídos e decepcionados. Não é o fim do mundo, o clube saberá contornar o desfalque, mas será sem dúvida muito mais difícil e arriscado reprogramar a época que se avizinha. Depois, o campeonato é uma prova de resistência, com altos e baixos. Caso na próxima época acontecam momentos mais baixos que altos, é bem possível que venha a ser solicitado o apoio dos adeptos pelo futuro treinador, e aí, não se poderá levar a mal se os sócios decidirem devolver o pedido de apoio ao remetente, ou então, aos cofres do Roman Abramovich...

