15 junho, 2015

Churchill, e a plasticidade das suas frases históricas

Já são poucos os programas que vejo nas televisões deste território. E digo território, porque não me é fácil chamar país a um pedaço de terra cujos governantes monopolizam praticamente tudo numa só região (Lisboa). É como que uma afronta para quem tem uma leve ideia do que deve ser um país. A comunicação social é só um desses monopólios. A mesma distorção da realidade pode igualmente aplicar-se a outras coisas de cariz institucional, como a Presidência da República, ou os Ministérios. De facto, oficialmente, esses cargos existem, pessoas para os ocuparem também, mas sempre tem faltado quem os mereça, isto é, quem esteja à altura de os ocupar. 

Como ia dizendo, não me interessa nada a televisão que se faz em Lisboa, e ainda menos a programação política e os debates. É pura banha da cobra, de ranço e de tédio. Vejo de quando em vez "A Quadratura do Círculo", e o "Eixo do Mal", ambos na SIC, apesar de ali também ser proibido falar de descentralização, como não podia deixar de ser. Então de Regionalização, naquela e noutras estações da capital, é quase uma heresia. O certo, é que no Porto Canal do "anti-centralista" Pinto da Costa o desinteresse é o mesmo, ou pior.

O Porto Canal, aquele que por razões óbvias mais gostaria de acompanhar, insiste em afastar os espectadores, já que decidiu seguir pelo decadente caminho que o FCPorto dos tempos recentes parece querer trilhar, o que, diga-se de passagem, não pode ser simples coincidência... Tinha um programa interessante (Pólo Norte), e acabou com ele sem dizer água vai, água vem, ao grande público, e multiplicou a produção dos programas mais ordinários. Colocaram a Maria Cerqueira Gomes a entrevistar qualquer maltrapilho de Lisboa como se fosse a coisa mais importante do mundo para os portuenses, arriscando-se a perder uma grande profissional, para a transformar numa mocinha de recados bem remunerada. Enfim, sinais dos tempos...

Provavelmente, estarei a ser pessimista. Neste território sem país, haverá sempre quem defenda que antigamente era muito pior, que não havia Liberdade, nem Democracia, que agora sempre podemos "votar", etc. Há sempre quem se empenhe a dar corda à conversa dos profissionais da política, que lhes sirva de amplificador, é uma verdade. Duvido é que o façam gratuitamente ou por razões puramente ideológicas... Duvido, mesmo. Se quando falam de Liberdade tencionam reduzí-la à possibilidade de organizar movimentos, ou partidos políticos livres, até posso compreender, agora se me falarem também da liberdade de circulação garanto-lhes que no tempo da outra senhora nunca senti falta dela, quer para dentro como para fora do território.  As fronteiras eram facilmente ultrapassáveis, porque o regime era burro, embora bronco e um tanto brutal. E quanto à organização político-partidária, está ainda por provar os seus efeitos práticos na vida dos cidadãos. Com a Democracia passa-se algo semelhante: ela não confere poder bastante aos eleitores para se livrarem dos políticos de carreira em tempo útil, e é demasiado permissiva com as ilegalidades (como hoje podemos comprovar). A Democracia é estável sim... mas só para os políticos.

Talvez seja também por essa razão que os políticos de agora adoram citar Churchill, embora esse entusiasmo traga sempre coladas grandes doses de inexactidão. Quando Churchill um dia afirmou que a Democracia era o pior de todos os regimes, excepto todos os outros, fê-lo num contexto muito específico, da segunda guerra mundial, em tempos já muito distantes. Por conseguinte, antes de citá-lo, certos senhores, deviam comparar os respectivos séculos (o de Churchill, com o nosso) para a seguir talvez se envergonharem.

Churchill foi, além de primeiro-ministro britânico, oficial do Exército, e acima de tudo um grande estadista para o seu tempo. Seria pois interessante (e já agora, muito democrático), que esses iluminados que a despropósito e abusivamente conspurcam o nome dos grandes Homens como ele, citando-o, que também citassem esta outra expressão muito sua:

"Só os fanáticos não mudam de ideias, nem de assunto"

Haverá frase que encaixe com tanta sublimidade na concepção de Democracia, como esta? 


3 comentários:

Guilherme de Sousa Olaio disse...

Caro RUI VALENTE,

A PLASTICIDADE DOS POLÍTICOS

"De todas as formas de governo tentadas" esta é aquela que permite aos medíocres o acesso garantido ao poder.
Veja-se o caso mais recente. Se aos cidadãos fosse dado a conhecer o currículo deste político, forjado nas madraças sociais-democratas, que aos 37 anos obtém uma licenciatura no privado e sem passado profissional relevante, certamente não lhe teriam dado o seu voto. E só assim, por meio da" pior forma de governo", escondido numa qualquer lista de candidatos chegou ao patamar de Presidente do Conselho.
Tudo quanto diz sobre o Porto Canal, subscrevo inteiramente. Replicar os conteúdos da programação dos canais existentes é ridículo e humilhante para todos quantos esperavam uma alternativa às TV`S do "cheira bem, cheira a Lisboa".
O alinhamento das notícias e a qualidade dos comentadores é confrangedora. Como diz, do que lá havia de qualidade foi tudo "saneado" e vá lá saber-se porquê !
A frase com a qual encerra o seu tema de hoje, serviu de inspiração ao título por mim usado A PLASTICIDADE DOS POLÍTICOS.
Veja-se a quantidade de medíocres que começaram no PCP e se passaram para o PS, PSD etc. Os que se iniciaram no maoismo e acabam a presidir à UE e nos mais altos cargos de todos os poderes. Aqueles que saltitando entre uns e outros e no estertor da sua vidinha política apregoam o populismo como derradeiro meio de se guindarem à mesa do orçamento.

Uma coisa é certa. Nenhum deles pode ser acusado de FANATISMO ideológico ou IMOBILISMO. Mas como todos sabemos há um nome para todos eles !

Cumprimentos

marujo88 disse...

Isto só lá vai a tiro, continuamos a ser considerados portugueses de segunda, mas o mais grave é que a maioria das pessoas do norte não se importa.
Abraço
Manuel da Silva Moutinho

Rui Valente disse...

Já sei que o que vou dizer é impróprio de um cidadão devidamente domesticado. Perdão! Queria dizer civilizado. Mas, fosse eu o proprietário do Porto Canal, despedia logo o Director que ousasse convidar gajos da laia do Durão Barroso, Passos Coelho, Cavaco Silva e demais jotinhas, a bem da sanidade pública.

E já nem falo do Sócrates, porque esse já está a contas com a Justiça. Faltam muitos outros.

Mas como o Director do PCanal é um sado-masoquista decente, tolerante, simpático com os poderosos, e hospitaleiro com sacanas e centralistas, um dia ainda vamos assistir a coisas insólitas, como ver a Maria toda simpática, a perguntar ao Dias Loureiro que segredo é o dele para ter enriquecido depressa e tão dignamente. Ah! E já não surpreenderia que Pinto da Costa não aprovasse a iniciativa...