12 julho, 2016

Cherne com lula-vampiro

Rui Tavares

Vamos ao que interessa. Era 1984 e a meia-final do Europeu de futebol. Os televisores de ambas as tabernas da aldeia ainda seriam a preto-e-branco, mas deu bem para ver que os dois golaços que o Jordão marcou contra a França nos davam uma superioridade estética perante os ressaltos e carambolas dos últimos seis minutos do prolongamento que nos tiraram o acesso à final e à glória. Doeu e ainda não foi esquecido.
Depois era 2000 e eu, chegado a Paris dois anos antes, todas as semanas atravessava a cidade para ver a bola com o André Belo, meu grande amigo, num clube de imigrantes portugueses de longa data. Num certo Inglaterra-Portugal para um outro Europeu de futebol, visto nesse mesmo clube, já perdíamos por 2-0 aos 20 minutos. Pior do que os golos dos ingleses eram os comentadores da televisão francesa, condescendentes e quase gozões com a nossa equipa — pelo menos até ao momento em que Luís Figo pega na bola a meio do campo e corre para a enfiar na baliza com um chuto de raiva. Calaram-se os comentadores, gritámos nós. Talvez nunca tenha visto aquela gente tão feliz como após a reviravolta com os elegantíssimos golos que vieram depois, de João Pinto e Nuno Gomes.
E não, não me obriguem a falar dessa meia-final de 2000 nem da famosa mão de Abel Xavier. Estou aqui nas horas antes da final do Euro, sou um daqueles adeptos que não quer morrer sem ver a seleção ganhar um título grande e vocês, a esta hora, já sabem se fomos campeões ou não.
É que se vamos falar de coisas tristes, admitamos o seguinte: ainda bem que esta é uma final entre futebolistas e não entre presidentes da Comissão Europeia. E mudemos de assunto para admitir — Durão não é nenhum Delors. O político português sempre sofreu com a comparação com o decano político francês mas acabou de pôr o último prego nesse caixão. Delors foi um verdadeiro líder da UE, que governou sempre com sentido de coesão e solidariedade; Delors não teria deixado, como Durão deixou, os governos rasgarem os tratados e usarem as instituições comunitárias para policiar e punir os estados mais endividados. Acima de tudo, Delors saiu para continuar a mobilizar gente pela causa europeia porque sabe que um ex-Presidente da Comissão Europeia não pode nunca, mas nunca, passar a servir um interesse privado extra-europeu.
Foi isso que aconteceu: o nosso cherne está agora ao serviço do banco que já foi descrito como “uma gigantesca lula-vampiro enrolada na cara da humanidade, com o seu tubo de sucção alimentar incansavelmente fossando em busca de tudo o que lhe cheire a dinheiro”. Os franceses são dos europeus mais escandalizados, e com razão.
Por isso falemos de coisas alegres — espero eu, já a poucos minutos de distância da final. Espero que a esta hora os nossos emigrantes em França estejam a chegar ao trabalho de peito cheio e sorriso de orelha a orelha. E se algum colega lhes disser que isto do Durão na Goldman Sachs é uma vergonha, que ao menos lhe possam responder: tens toda a razão. Mas nós temos a taça.
(Público)

1 comentário:

Anónimo disse...

Não falo de gente sem vergonha que trocou, ou seja fugiu, das responsabilidades que tinha com o seu país, para ir ganhar mais uns trocos como terceira ou quarta escolha na UE, não passando de um presidente de banalidades. Agora mais um tacho para um grupo de ladrões em todo o mundo.

Abílio Costa.