06 setembro, 2016

O que é ser do Porto, hoje?


INFANTE D. HENRIQUE
O leitor, saberá responder?

Terão os portuenses de hoje a devida noção da importância do Porto na epopeia dos descobrimentos? Saberão, porventura, que as tripas à moda do Porto estão na origem dos descobrimentos, e que o seu mentor, o Infante D. Henrique, nasceu nesta cidade? Estarão ainda recordados que foi a cidade do Porto que deu nome a Portugal? Conhecerão por acaso que a fama de povo generoso lhe vem da disponibilidade espontânea de ter oferecido aos navegadores o melhor da carne dos animais, contentando-se a ficar com as vísceras (o cognome de tripeiros teve aí origem)?

Há uns anos atrás, diria que as respostas só podiam ser afirmativas. Hoje, face à inexpressividade social, cívica e política das suas gentes e de todas as classes, acho que os portuenses já nem sabem bem o que são na história deste país. Este povo generoso, distraiu-se tempo demais, permitiu que outros, através das novas tecnologias de comunicação, lhes impusessem os seus valores, a ponto de não perceberem que ao assimilá-los, estavam a esquecer os seus próprios valores. O Porto, deixou "fugir" para Lisboa as sedes dos seus jornais, dos seus bancos, das suas rádios, fábricas e empresas, com a colaboração de muitos portuenses, é preciso dizê-lo. 

O centralismo da era "democrática" foi, e é, mil vezes mais cínico que o do Estado Novo. Foi a política centralista quem ditou estas regras e "inspirou" os nossos empresários a obedeceram-lhe, indo ao cúmulo de terem de passar as sedes dos seus negócios para a capital. Foi por aí que os nortenhos, portuenses (ou não), começaram gradativamente a baixar a guarda, aceitando "normas" éticas e comerciais inaceitáveis para um país democrático.  A televisão fez - e continua a fazer -, o resto.

O Jornal de Notícias ainda existe, a sede ainda está no Porto, por agora... Mas a Administração está nas mãos de um advogado (Proença de Carvalho), sem qualquer conotação com a cidade, é quem mexe os cordelinhos nas decisões mais importantes. Tem como Director Geral Afonso Camões, outro desconhecido, um albicastrense que cedo tratou de centralizar o alinhamento editorial.   

Enfim, da generosidade dos portuenses sobra a lorpice. Nem no futebol sabem apoiar como outrora os seus clubes. Não se unem, lamentam-se em surdina. Não estão aburguesados, estão estupidificados por esse cancro repugnante chamado centralismo e vão na sua conversa, talvez por não terem outra para seguir. Os líderes do Norte abdicaram do estatuto em obediência ao dinheiro que, paradoxalmente, não lhes reforça o poder entre os outros poderes...

Será que os portuenses de hoje ainda gostam de tripas à moda do Porto, ou vão mais em caracóis..? 

Quem terá matado a alma desta nossa gente? Sabem? Será preciso fazer um desenho para que os tripeiros (todos) acordem e comecem a fazer estragos? Às vezes é preciso dar um grande berro.

PS-Falar destas coisas numa época em que a União Europeia parece uma barata tonta, parece descabido, mas não é. É prova de que os valores se degradam por ausência deles, em todo o mundo.

2 comentários:

Soren disse...

De facto Rui, a podridão intelectual é imensa, mas a ignorância dos consumidores é tão abismal que foi muito fácil comer os tripeiros.

Muito materialismo totó e pouca cultura. Culpa da falta de vontade para educar as novas gerações. Quando os educadores são ignorantes e comodistas, o que se pode esperar de quem vem a seguir?

A questão da comunicação não é menor. Só quem anda a dormir (como o Presidente do FC Porto e a maioria dos tripeiros) é que pode pensar tal barbaridade.

Aliás basta ver que o português com mais presenças nas reuniões do Bilderberg é o Pinto Balsemão. E agora quem é que sequer se dá ao trabalho de pensar nisso? Os "porquês" da coisa... controlar a informação, numa sociedade de alienados e ignorantes é a mais importante estratégia de poder.

De facto admiro a sua tenacidade. E nem me vou alongar mais senão a conversa fica muito deprimente.

Um abraço.

Rui Valente disse...

Caro Soren!

Nem mais. Ninguém me pagou para isso, mas apetece-me começar a fazer publicidade ao livro de Rui Pedro Antunes.

Vai ser mesmo hoje.

Um abraço e não desista também de remar contra esta maré de apatia. Nunca somos demais