05 maio, 2017

A Europa e a Liberdade incondicional

Bandeira europeia
Bandeira da União Europeia

No início, quando comecei a pensar sobre as vantagens da abolição de fronteiras na Europa comunitária, achei a ideia magnífica. Mal sabia, que no momento em que a decisão fora tomada já essa mesma Europa do "Mercado Comum" se fragmentava do melhor da sua ideologia: a união política e económica entre os povos. 

Criada em 1957 para terminar com as constantes guerras na Europa, teve origem na CEE (Comunidade Económica Europeia) então constituída por 6 países (França, Alemanha, Bélgica,Itália, Países Baixos e Luxemburgo). Com razão, ou não, o Reino Unido nunca se mostrou abertamente cooperante com a integração, e não será surpresa que agora decida sair, sem contudo dar mostras de querer pagar os custos inerentes. Curiosamente, foi a partir de 1993, ano em que mudou a designação de CEE para União Europeia, que - sem disso dar sinais - a desunião começou a desenhar-se... 

Pergunto: como é que isto irá acabar? A questão é tanto mais pertinente como é preocupante. Se a par da instabilidade económica e social dos países da dita União juntarmos a ascensão dos partidos de teor nazi em vários deles, não resta na Europa actual grande espaço para optimismos. 

Importa lembrar que Hitler existiu. O que ele fez a Humanidade não devia nunca esquecer, mas esquece, porque é curta (e perigosa) a memória do povo. Hitler fez-se eleger pela burguesia, pelo empresariado, mas também pelo povo, através de um partido com nome muito popular (Partido dos Trabalhadores Alemães) mais tarde rebatizado com o nome de Partido Nacional Socialista dos "Trabalhadores Alemães", vulgo Partido Nazista... 

Nos EUA, Trump foi eleito "democraticamente", e ainda não sabemos do que é capaz. Marine Le Pen, na Europa, ameaça imitar os resultados de Trump.   Nada disto pode ser obra do acaso. O Mundo anda mal, muito mal governado. Como explicar então a recorrência deste fenómeno assustador?

Eu não sei a resposta, mas tenho a minha opinião. Em primeiro lugar, porque nunca acreditei na compatibilidade entre uma Democracia consistente e uma Liberdade absolutista e sem ética. Há muito quem defenda a Liberdade obsessivamente, quem a queira de braço dado com a calúnia, com a irresponsabilidade, e até com a própria corrupção (sem o admitir). Legitimam estas teses baseados na eficiência da Justiça, sobrecarregando-a com responsabilidades de âmbito social e educacional que cabe à própria sociedade providenciar. A Justiça existe para administrar conflitos, não para educar.

Em segundo lugar, a própria história explica, em parte, porque foi que em muitos países (como a Alemanha) os ditadores chegaram ao  poder. Deveu-se basicamente ao fracasso de regimes "democráticos" desregrados e incompetentes, que com o desemprego geraram a anarquia, e o descontentamento popular. Os democratas avessos à ética e à contenção vivem escravos de um conceito de Liberdade demagógico favorável aos oportunistas que dela se servem para se governarem, até levarem os seus próprios países à falência. Uma democracia séria, exige, não facilita. Mas a exigência tem de começar pelo tôpo das hierarquias e daí transmití-la às bases. Não como acontece em Portugal, e nalguns outros países.

Mal comparando, se numa sociedade democrática a Liberdade de opinião engloba e tolera pacificamente a violação das mais básicas regras comportamentais, como a calúnia, a discriminação e a xenofobia, alguém será capaz de justificar a utilidade dos sinais de circulação rodoviária? Por que será que eles existem? Não terão sido concebidos para a nossa própria segurança, e a segurança dos outros? Qual é o mal de cumprirmos com essas regras? Será que só as aceitamos porque tememos pelas nossas vidas, e as recusamos quando se trata de regulamentar as nossas relações sociais e políticas? Que coerência podemos reconhecer na liberdade extrema, quando os extremismos provam à saciedade fomentar o caos?

E da política, o que dizer? Por que havemos de votar em homens ou mulheres de quem, na maior parte dos casos, nada conhecemos? E porque havemos de os aturar um mandato inteiro quando nos apercebemos que se afastam das promessas e dos próprios programas eleitorais, dando-lhes o ensejo de se governarem à nossa custa?  E que dizer da renúncia ao cumprimento da própria Constituição?

E dos jornalistas? Que direito têm eles de enganar o povo com as suas falsidades? São profissionais credíveis? Gozarão dessa reputação, ou não serão também eles a causa maior das democracias amputadas do rigor que lhes alimenta a solidez?

Resumindo: são os falsos democratas, os inimigos da transparência e da paz social, os piores dos ditadores. Tanto os Trump's, como os Le Pen's deste mundo, são pouco recomendáveis, mas a verdade seja dita, só enganam quem quer ser enganado, ou quem tem a ganhar com a sua eleição. Pior, são os que nos oprimem a coberto da capa de democratas. São eles que conduzem ao poder os outros ditadores.

PS-Foi logo pela manhã que escrevi este post. Coincidentemente, já a manhã ia alta quando no jornal Público Rui Moreira dizia isto ...

2 comentários:

Felisberto Costa disse...

Caro Rui Valente,
Sou um trabalhador, ganho uma bagatela que me faz ser isento de taxas moderadoras, IMI's e outras regalias, que o meu status quo permite. Em suma vivo portuguesmente remediado mas feliz.

Contudo e devido á educação que tive, jamais consegui ser de... esquerda!
Ficou em mim, mesmo na minha juventude nos anos de liceu em tempos de PREC, quando queimavamos bandeiras e partiamos vidros de sedes partidárias, não por um ideal politico, mas pelo simples facto de não termos aulas, sempre achei que não era ali o meu lugar. A minha noção de Portugal como nação secular e de valores ocidentais, não se coadunavam com Lenines, Marxs, Estalines e Tolstois!
Mas também me faziam ver que jamais seriamos gente decente se continuassemos colonos de terras que não eram nossas por direito e por dever!

Conclusão, sou um gajo de direita com um coração á esquerda (passe a verdade literal do termo).
Não sou hipócrita nem tão pouco desonesto em reconhecer que este governo, vai actuando com muita ousadia, alguma razão e muita sorte, coisa que a direita tecnocrata teve medo de fazer.
Uma direita portuguesa sem rumo, sem ideias, sem futuro próximo, infelizmente. O PSD actual é para a direita portuguesa o que Pinto da Costa foi para o FC PORTO nestes últimos 4 anos!
Ao contrário de quase toda a Europa, onde a esquerda perde em popularidade e a direita avança, é porque existe uma razão.
A razão está nas libertinagens (não liberdades, já que liberdade implica responsabilidade) esquerdistas, que tudo permitiram a outras culturas oriundas de fora da Europa e que nos seus países de origem até prendem e matam se formos... ocidentais (vide Arábia Saudita)!
O terrorismo europeu tornou-se uma moda tal como o terrorismo europeu dos anos 70 com as brigadas vermelhas os Baden-Meinhof, que eram alimentadas por uma máfia sem escrúpulos que manipulava jovens!
O terrorismo de hoje nada tem a ver com o terrorismo de estado como o IRA ou a ETA. O terrorismo de hoje é... uma baleia azul!

Creio bem que no meu parco entender, a esquerda e a direita já não existem, enquanto ideias como foram criadas!
O "comunismo" morreu de podre e corrupto. O capitalismo tornou-se selvagem, cinico e obscuro. Desenfreado sem rival, que é pobre fica cada vez mais pobre e quem é rico, vive no seu feudo recusando saber que existem... pobres. Bast ver a triste figura do aumento do salário minimo!

É tempo de alguém "inventar" dois novos sistemas mundiais. Não uma nova ordem porque isso faz lembrar nazismos, estalinismos e outras parvoíces terminadas em ismo.
Olhe meu caro Rui Valente, vivemos num tempo que faz lembrar o Renascimento onde os nobres tinham tudo, até perucas, e os pobres até ratos comiam, e a revolução francesa foi um catalizador de ideias para o nascimento da... esquerda e da direita!!!
Foi o dealbar da politica actual, foi o nascer da democracia tal como a conhecemos ainda hoje!

Mas tudo tem um principio e tudo tem um fim. Mesmo o plano mais perfeito, chega ao dia em que está esgotado e precisa de ser renovado, inovado, inventado!
Precisamos de politcos com razão. Não tecnocratas agarrados a cartilhas ultrapassadas pelo tempo das novas tecnologias!
O que me leva a dar-lhe toda a razão e concordância com este seu post!
Votamos em quem não conhecemos e em quem não nos quer conhecer!!!
Peço desculpa por ser tão longo mas sem querer ser maçador.
Um abraço entre tripeiros!

Rui Valente disse...

Caro Gilberto,

pode escrever como entender e quanto entender. Já sabe, esteja à vontade.

Sou também levado a concordar consigo, porque de facto, politicamente, já não sabemos muito bem o que distingue a direita da esquerda, sobretudo na forma de funcionar partidariamente.

No que às liberdades democráticas respeita, acho que o falecido Mário Soares levou longe demais o conceito, porque se esqueceu da importância dos valores sociais que aqui já referi. Acha que se esses valores tivessem sido preservados seria possível assistirmos aos programas degradantes que as tv's nos impingem? Como é que se explica o à vontade com que os próprios políticos e ex-governantes difamam e conspiram contra o FCPorto?

Não era essa imagem que seguramente você, eu e alguns outros portugueses esperávamos dos políticos da geração pós 25 de Abril, mas a realidade está aí para quem a quiser confirmar. Pessoalmente, estou enojado com este país, com a falta de nível (já nem falo de competência) dessa catraiada que os votantes inconscientemente conduzem ao poder. Já nem me causa incómodo o que a abstinência pode vir a causar, porque ainda há quem vote nestes gajos e os resultados em 43 anos são o que sabemos.

Enfim, caro amigo, não tenho o optimismo que você heroicamente mantém com o nosso actual FCP, mas, embora nem sempre concorde, admiro-o.

Um grande abraço para si. E bom fim ded semana!