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19 março, 2010

Se a minha avó fosse viva

Artur Santos Silva é [pelo menos, goza dessa reputação], um homem prestigiado da vida pública portuense. Administrador do BPI e descendente de uma família de adeptos republicanos [seja lá qual fôr a importância do facto], tem conseguido manter uma saudável distância das polémicas politiqueiras e dos deploráveis esquemas financeiros de alguns dos seus pares, o que tendo em conta a sem vergonhice actual, só abona em seu favor.
Hoje, o ASSilva disse ao semanário Grande Porto que não defende o TGV, nem a Regionalização. Quanto ao TGV, tudo bem, é uma opinião quase consensual que só não tem o aval do Governo e de alguns seguidistas do Partido Socialista. Já sobre a Regionalização, limita-se a repeli-la como se de um praga se tratasse, preferindo optar pela versão política da lenda da avózinha que não devia ter morrido. Se o Governo fôr descentralizado, se forem concedidas mais competências às Câmaras, se fôr reduzida a máquina centralista, se a minha avó não tivesse morrido... Ses.
É com estes 'ses' de esperança infantil, como os de ASantos Silva, que grande parte das pessoas com o seu estatuto e fortuna encaram a situação miserável em que se encontra o Porto e o Norte. Mas, não admira, porque para estas pessoas o Porto, mesmo que visivelmente abandonado e em acelerada decadência social e urbana, tem nichos de oásis onde se movem, como os das suas residências, as dos seus amigos, e dos locais onde a higt society se reúne, que lhes distorce a noção da realidade dos problemas e os timings em que devem ser resolvidos. Artur Santos Silva é um homem que se pode dar ao luxo de ter tempo, mas as populações não.
Mas, a culpa não é dele. Se o Homem é a sua realidade, ASantosSilva, está na realidade dele, e como tal, não é capaz de sair do seu status para ter uma visão mais pragmática do país. A responsabilidade, é de quem escrutina tais personagens para obter respostas sobre problemas que pouco ou nada lhes dizem, como está bem patente na resposta que ASSilva deu sobre o bicho-papão da Regionalização. Porque a Regionalização pode esperar, ou então, é perigosa e fracturante para o país... A descentralização também pode esperar, porque o povo é sereno.
Há gente, que se obstina em percorrer caminhos que não levam a lado nenhum, e que em vez de procurar outro para chegar ao destino, prefere fechar os olhos e esperar que o destino aconteça.
Mesmo assim, espanta-me, como pessoas com carreiras tão pragmáticas com é a de ASSilva, não possam servir-se delas como bitola para lhes abrir os olhos para pragmatismos bem mais nobres. Mas, repito, a culpa não é apenas dele. É, sobretudo dos jornalistas que persistem em querer convencer o público que são aqueles que mais dele se afastam que têm a solução para os seus problemas.
Que querem, ainda há quem goste de ser tratado como animais domésticos.