Francisco Pinto Balsemão exigiu ontem uma "solução radical" na forma como na Europa são geridos os serviços públicos de televisão, quando discursava num encontro em Helsínquia como presidente do European Publishers Council (Conselho Europeu de Empresas Proprietárias de Jornais), associação que representa alguns dos principais grupos de media.
(Inês Sequeira, In PÚBLICO)
Comentário RoP:
Francisco Pinto Balsemão já foi 1º. Ministro de Portugal, precisamente entre 1981 e 1983, no VIII Governo Constitucional. Primeiro Ministro, sim, não há engano. Cargo que, no subconsciente (ou no imaginário, como queiram) dos cidadãos, deve requerer altos padrões de probidade e valores. Contudo, este fino cavalheiro, que foi lá para fora, na qualidade (imaginem!) de Presidente do Conselho Europeu de Empresas Proprietárias de Jornais, exigir uma solução radical para a forma como são geridos os serviços públicos de televisão, é o dono da SIC, responsável pelo melhor, mas também pelo pior que se tem produzido estes últimos anos em matéria de televisão no país.
Aqui está mais uma boa amostra como os políticos têm de si mesmo uma ideia desfocada da realidade e absolutamente narcisista. Acham que podem ser aquilo que efectivamente não são nem nunca hão-de ser, só porque foram políticos. Pronto. Ser político - mesmo Primeiro Ministro -, não confere implicitamente uma garantia de elevação humana e cívica ao portador. É apenas um trampolim para se poder tornar relevante ou não, mas essa importância só os cidadãos lha podem dar, se a merecer. E, neste caso concreto, eu não lha reconheço, porque penso que não a merece.
Pinto Balsemão e a sua SIC, são responsáveis por alguma lufada de ar fresco na televisão mas também o são pelo mais poluído e ordinário. Foi a SIC, que lançou programas como a «IURD», «Os Donos da Bola», «A Noite da Má Língua», onde a intriga e a arbitrariedade foram do pior que se fez em Portugal.
Ainda hoje é responsável por programas erótico-porno (na SIC Radical) cuja valia, sobretudo para os mais jovens, ainda estamos por perceber. A má língua, a conspiração, é outra das apostas da casa. E não falo assim por questões de puritanismo bacoco, falo apenas por uma questão de exemplo.
Quem se julga afinal, Pinto Balsemão, para dar conselhos ao Estado? Para lhe (e nos) dar sugestões dos programas de "alta qualidade" que a RTP deve, ou não, transmitir? Não é a ele que compete dar pareceres sobre a coisa pública, é à opinião pública!
Percebe-se assim que as angústias de Pinto Balsemão pouco tenham a ver com a ética e a qualidade, elas devem-se, exclusivamente, à concorrência que a televisão pública lhe está a fazer e ao dinheiro que ele e a sua SIC podiam ganhar se a afastassem da corrida.
Não é que a RTP me inspire mais credibilidade, pelo contrário. Teoricamente, até concordaria com Pinto Balsemão, se não fosse ele a falar do que não devia.

