Qual Liberdade, qual carapuça! Qual amor clubista, qual treta! É o pilim, o cacau, a guita, o caroço, a massa, o carcanhol, a pasta, em suma, o dinheiro, quem mais ordena.
Bastou saber-se que a entrevista* de Pinto da Costa na RTP 1 estava agendada para hoje, para o portista Miguel Sousa Tavares ceder aos superiores interesses da SIC, permitindo que o seu habitual programa de 2ª.feira [Sinais de Fogo] fosse alterado para o mesmo dia e hora em que Pinto da Costa vai ao canal público. É o mercado, vão dizer. Nada melhor do que atirar para cima do povão com uma abstracção como é esta coisa do mercado, para calar as bôcas e todos engolirem a "pastilha".
Outrora, nos tempos em que a ética ainda se podia detectar pelas atitudes dos Homens, onde não se usava apenas como mera maquilhagem para retocar a dignidade de quem dela precisa porque não sabe o que é, dizia-se quando a consciência cívica falava mais alto: noblesse oblige [nobreza obriga]. Hoje, esta expressão tem uma utilidade cosmética, deu uma volta de 180º em termos práticos e foi substituída por outra, bem mais material: gain oblige [ ganância obriga]!
Miguel Sousa Tavares é um homem controverso. Tem tanto de lúcido, como de distraído. Às vezes parece que não é a mesma pessoa. Ao anuir às directrizes da Direcção da SIC que deliberou alterar o horário habitual do seu programa para competir com o da RTP, permitiu que a estação de Carnaxide matasse dois coelhos de uma só cajadada prejudicando implicitamente o impacto da entrevista de Pinto da Costa. Ou seja, dividiu o público em duas audiências, impedindo-o de assistir tranquilamente em directo a cada um deles, ao mesmo tempo que deu um bom pretexto para as comparar. Senão, é só aguardar umas horas e logo veremos se os gráficos de audiências não serão usados para tornar redutora a entrevista de PdCosta.
Os portistas mais radicais dirão que não lhes interessa ouvir o Orelhas, e aí, até os posso compreender [e como compreendo!], mas já não sei se diriam o mesmo se lhes perguntassem se não estariam interessados em ouvir as perguntas do Miguel a L.F. Vieira... O mesmo, por razões clubisticamente antagónicas, vai acontecer com a entrevista de Judite de Sousa. Ela, é uma portista apagada, domesticada, lisboetizada. O seu portismo nem se vai notar [aqui, o profissionalismo irá funcionar, vão ver]. É casada com um benfiquista pouco dado a rigores [e estou a ser simpático], e isso deve ter as suas consequências.
Por isso, as duas entrevistas têm igual interesse para públicos diferentes. Por isso, só um Miguel Sousa Tavares demolidor, pertinente e destemido, poderá remendar a asneira de ter concordado em passar o seu programa em simultâneo com o da RTP. Comercialmente falando, o grande público de uma e outra cor clubística nada tem a ganhar com a esperteza. Só perde. E Miguel S. Tavares, quer queira, quer não, estará a dar um contributo precioso para quebrar audiência à entrevista do líder do seu clube que conviria ser vista não só por adeptos como por adversários. Critérios.
Deixemo-nos de conversas. A ética é como o bom vinho, para preservar a qualidade intacta, não deve ser misturado, senão já não é vinho, é outra coisa qualquer. Na comunicação social a ética não se compadece com estes aforismos, é uma espécie de goma de mascar que se molda quando convém. É um mito. E o dinheiro, é o supremo dos valores [até para o Miguel].
Logo veremos se é ou não como eu digo.
* Entretanto, recebi a informação de um leitor através da caixa de comentários que esta entrevista não foi integrada no programa Sinais de Fogo, como erradamente os jornais noticiaram. Hoje, haverá um programa especial para a entrevista. De qualquer modo, a questão nuclear - que se prende com a data e hora da entrevista -, mantém-se.

