Se há coisa que me incomoda seriamente, é que alguém publicamente opine por mim sem o meu consentimento, e se há alguém que o faz frequentemente sem que os possa impedir, são os senhores jornalistas. A fasquia da arrogância desta classe está instalada tão alta, que nem se dá ao cuidado de pensar uns segundos nas atoardas patéticas que rabiscam nos jornais ou que deixam soltar pela bôca.
Seria importante que estes senhores, que tanto se empolgam com as ameaças à Liberdade se habituassem a explicar qual é a base científica das suas opiniões quando falam em nome dos portugueses. Vem isto a propósito de coisas como a que foi ilustrada no jornal Público de ontem e que reproduzi neste post, bem como comentários como o do Sr. Sócrates e de alguns políticos [até da oposição], que consideram um orgulho para os portugueses a eleição de Victor Constâncio para a vice-presidência do Banco Central Europeu. Ora, até prova em contrário consta do meu B.I. que a minha nacionalidade é portuguesa e contudo não sinto um pingo de orgulho nesta ocorrência. Tal como não senti nem sinto por Durão Barroso ter sido nomeado Presidente da Comissão Europeia.
É do conhecimento público que estas nomeações são puramente estratégicas e decididas por membros representantes dos países poderosos para atingirem objectivos realmente importantes, como é o caso da Alemanha que perspectiva um alemão para a Presidência do BCEuropeu. Técnica e teoricamente, Victor Constâncio, como outros candidatos à vice presidência do BCE reunirão as condições básicas para o cargo, mas o facto da escolha incidir sobre o português, como incidiu sobre Durão Barroso para a UE, expressa mais uma garantia de obediência fiel às directrizes traçadas pelos países mais fortes [que são quem efectivamente manda] do que um voto de confiança na independência executiva do eleito. Por isso, só patriotas de inspiração scolariana é que se podem regozijar com estas patriotices.
Não é aceitável que um jornalista se arrogue ao direito de retirar conclusões pessoais como se fossem opiniões de todos os portugueses. Pela minha parte, e contrariamente ao escrito pelo Público, esta nomeação não só não acaba com as vagas de críticas que foram justamente dirigidas a Victor Constâncio, como fragiliza a confiança dos portugueses nos critérios selectivos e de competências da União Europeia. Uma das principais funções de Victor Constâncio enquanto Governador do Banco de Portugal era supervisionar o sistema bancário nacional, função essa completamente falhada pela não detecção atempada dos escândalos do BPN e BPP . Assim sendo, das duas uma. Ou a União Europeia anda a leste do que se passa na Banca Nacional, ou tem conhecimento, e prefere fechar os olhos à negligência do Governador do BP para melhor o "controlar"... Não me parece pois, que se forem estes os critérios de avaliação da UE haja motivos respeitáveis para nos sentirmos orgulhosos.
Orgulhoso e pofundamente feliz deve estar Victor Constâncio. Trezentos e tal mil euros por ano de vencimento, extra mordomias, são razões quanto baste...


