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30 abril, 2012

Victor Pereira, melhor Pessoa que líder

Abraço de gratidão
A paixão pelo futebol - diria antes -, a paixão pelo nosso clube é tão irracional que em determinados momentos até consegue colocar adeptos do mesmo clube uns contra outros. No entanto, basta ganhar mais um campeonato para todos esquecerem as divergências, ainda que seja até à temporada seguinte e tudo recomeçar novamente.

Estas picardias entre "irmãos" de clube nem sempre são desprovidas de sentido, nem traduzem a irracionalidade típica das paixões. Se o problema se resumisse a isso, as divergências limitar-se-iam a incompatibilidades próprias dos diferentes temperamentos e educação que caracteriza as pessoas, e tudo se resumiria a uns pontuais arrufos. O problema fundamental é social. Há adeptos que confundem o direito legítimo de pensar diferente, de criticar ou louvar, com a vaidade extrema de se julgarem donos da verdade, e é aqui que as coisas se tornam mais feias.

Na blogosfera há dezenas, senão centenas, de sites e blogues ligados ao FCPorto, sendo sem dúvida o Dragão até à morte, do Manuel Vila Pouca, um dos mais populares e participados do universo azul e branco, o que lhe confere alguma autoridade democrática para o podermos considerar um dos mais equilibrados e combativos na defesa daquilo a que agora se chama portismo. E não é por me ter tornado seu amigo que o afirmo. Ele sabe bem que nem sempre estou de acordo com as suas opiniões, embora na maior parte das ocasiões haja uma grande convergência de ideias.

Outros blogues existem que também têm feito um trabalho importante pela causa FCPorto, como o Viva o Porto Carágo, e muitos mais [que me escuso a citar para não ferir susceptibilidades], mas outros há ainda que, não obstante o seu portismo, assumem uma postura crítica com o clube demasiado reactiva à mais ligeira brisa de instabilidade, só comparável à dos nossos adversários directos, o que explica em parte as discordâncias que atrás referi. Numa sociedade profundamente desigual como a nossa, pautada pelo elitismo e pela vaidade de certas classes, tradicionalmente dadas ao auto-elogio e à discriminação com base em meras futilidades, essas reacções não escapam ao futebol. E é talvez também por combater esse tipo snobe de "portismo" que o Dragão até à Morte tem o maior número de acompanhantes na blogosfera portista.

Aqui chegado, e porque fui [e continuo a ser] um crítico de Victor Pereira, enquanto líder e treinador, manda a justiça que lhe agradeça a conquista de mais um campeonato - embora tenha deixado fugir prematuramente a Champions e a Liga Europa -, porque o objectivo principal foi atingido. Mas, se não aprecio Victor Pereira enquanto treinador, nutro por ele uma enorme simpatia enquanto pessoa. As palavras de gratidão e o forte abraço que Victor Pereira trocou com Pinto da Costa espelham um grande carácter e um sentimento hoje infelizmente em vias de extinção que é a gratidão. Tenho a certeza que Victor Pereira é um grande Homem, que é um portista valente e sério.

Se um dia Victor Pereira puder, ou souber, associar a estas grandes virtudes a da liderança, então mudarei a minha opinião sobre as suas competências, porque vou ter muita dificuldade em esquecer a irritabilidade que algumas das suas opções em certos jogos me causaram.

11 março, 2012

Victor Pereira II

Como portista e portuense íntegro que me gabo de ser, rejubilei com a victória do FCPorto contra aquela agremiação megalómana, e elitista-novo-rica de Lisboa, cujo nome nauseabundo prefiro não pronunciar. Rejubilo sempre. O clube de Lisboa representa para mim o que há de pior e mais ridículo nos portugueses, tanto nalguns autóctones,  como numa grande parte dos assimilados pela expansão do país, de norte para sul... É a história [e os factos] que o diz, não sou eu.  

Mas, o *facto de ser um portuense-portista devidamente enquadrado na região e nos seus símbolos mais autênticos, não me inibe de dizer, mais uma vez, o que penso sobre o actual treinador do FCPorto. Antes porém, em nome da coerência e da justiça, há que prestar homenagem à Académica de Coimbra e ao seu treinador, o nosso ex-jogador Pedro Emanuel, que soube montar muito bem a equipa e jogar no Dragão como se estivesse em casa, conquistando um precioso ponto que podiam até,  sem escandalizar, ter sido três. A Académica jogou a maior parte do tempo com mais personalidade e lucidez que o FCPorto. 

Victor Pereira até pode chegar ao fim do campeonato com estes irritantes altos e baixos e vencê-lo que eu não mudo de opinião: não é treinador para um clube com as ambições e a história do FCPorto. Ponto. Escrevo-o aqui, mesmo que ele me dê o prazer de ganhar este ano o campeonato. Nestas declarações não há nenhuma contradição, porque entre as minhas convicções e a minha afeição ao FCPorto, coloco em primeiro lugar o afecto, e os resultados desportivos do clube.

Posto isto, só tenho a acrescentar ao que já tenho escrito, é que Victor Pereira pode até perceber muito de futebol, mas de um treinador de top não é só isso que se espera, é sobretudo a capacidade de liderança. E o que é isso, afinal? Em que é que se traduz?

Ser líder, não é ser literalmente invencível, porque tal não existe. Ser líder é ser mais vezes vencedor do que vencido [Pinto da Costa é um líder na sua área]. Ser líder, é essencialmente saber comunicar, neste caso concreto, com  os jogadores e com toda a equipa técnica, e explicar correctamente o que pretende que estes façam para refinar, sempre numa espiral ascendente, os níveis de produtividade e de qualidade técnico-táctica de todos os elementos. Mas, para saber comunicar tudo isto, um treinador ambicioso tem de cortar a direito quando é preciso, impor-se a jogadores caprichosos, relegando-os para o banco se não obedecerem às suas instruções, sejam eles quais forem, explicando-lhes depois porquê. Saber comunicar, é muito importante, é verdade, mas de nada vale se essa comunicação não passar ao destinatário.

As dúvidas que mantenho em relação a Victor Pereira são dessa natureza. Ontem, quando me interrogava da  razão pela qual Victor Pereira não deu [ou, não soube dar] instruções aos jogadores durante os primeiros 45 minutos para jogarem mais rápido e exercerem maior e melhor pressão no meio campo adversário, dei por mim a rever um filme demasiadas vezes visto esta época com os resultados que se conhecem, e foi isso que aconteceu.

Como é possível contornar a apatia de Victor Pereira depois de com alguma sorte, e tanto mérito, termos recuperado o 1º lugar, sem criticar o treinador? Como é possível jogar com os fantasmas de um passado recente, em casa, e com um adversário cujo clube tem um orçamento infinitamente inferior ao FCPorto? Como? Podem-me dizer, pois é, que não o elogiei no jogo contra os mouros, mas se me permitem, suspeitei [infelizmente, com razão], que o bom jogo do FCPorto se deveu mais a uma questão de orgulho ferido dos jogadores, a uma reacção, do que propriamente às convicções técnico-tácticas do treinador. E não me digam que falo depois de conhecidos os resultados, porque até ao jogo com o Benfica o FCPorto não demonstrou qualquer consistência de jogo. Ontem, repetiram-se os erros colectivos e individuais que vimos em muitos jogos, e a mesma apatia da equipa. Quem tem afinal a responsabilidade de corrigir estes repetidos devaneios? Os jogadores? Desde quando é que eles são o farol da equipa, é que eles se auto-controlam? Desde quando é que um clube de futebol pode prescindir da orientação de um treinador? E para que é que, para além dos aspectos físico-técnicos e tácticos, os clubes lhes  pagam?

No final do jogo, Victor Pereira falou assim para a imprensa: "Demos 45 m de vantagem. Não existimos na 1ª. parte, faltou-nos alma e tivemos de ir atrás do resultado". Que redundância! Pensará ele que os adeptos não perceberam isso? Estaria ele convencido que nos estava a dar uma novidade? Ou, não seria melhor, mais produtivo, guardar este discurso para o balneário e dirigí-lo com objectividade aos jogadores? Tê-lo-à feito? Acreditemos que sim. Mas, como o terá feito? Com que alma, com que inconformismo?

Durante toda a primeira parte bem olhei para ele para ver se descobria esses sinais de inconformismo, essa alma, a ser transmitida aos jogadores, mas a única coisa que vi foi insegurança e medo.


* Assim se fala na RTP

- Olá Paula, há tanto tempo que não te via!
- Olá Maria, é verdade!
- Então? Casaste?
- Não Maria, vivo em união de fato.
- De facto, queres tu dizer.
- Não, não, casei-me com um alfaiate!