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26 março, 2008

O SENHOR PROCURADOR

Suponho não cometer uma heresia, se disser que neste momento, em que o centralismo aperta o cerco a Pinto da Costa, e que já teve como 1º. efeito uma acusação com a sua ida a julgamento, nenhum portuense-portista (nem todos se podem orgulhar deste feliz binómio), gostaria de ver o melhor dirigente de todos os tempos do futebol português, ser condenado, nem que fosse por uma multa de trânsito, quanto mais pela suspeita de corrupção de que pretendem acusá-lo.

O facto de ser um portista fervoroso, não me fará desviar dos princípios éticos que ferozmente defendo para qualquer outra área da vida pública e privada. Considerando as respectivas responsabilidades, da mesma forma que condeno o compadrio político e as grandes negociatas protagonizadas por grandes figuras públicas e do empresariado (e que nunca são apuradas até ao fim), não deixarei de censurar qualquer acção que venha a ser provada contra Pinto da Costa, por mais simples que ela seja. Mas desiluda-se, quem pensar que isso fará inverter a minha opinião em relação àqueles que passaram a vida a diabolizar Pinto da Costa, porque tenho a certeza que estarão sempre a anos-luz da dimensão do líder portista, em todos os aspectos.

Contudo, este autêntico folhetim criado em redor da figura de Pinto da Costa, que já serviu de inspiração a "escritoras" de geração espontânea e a "cineastas" falhados, é tudo, menos inocente.
Foi nitidamente orquestrado num processo conspirativo com óbvia e pública visibilidade, cuja motivação não foi mais do que o sucesso desportivo alcançado nos últimos 20 anos pelo Futebol Clube do Porto desde que Pinto da Costa é o seu dirigente, com a consequente subalternização a nível nacional e internacional, dos clubes de Lisboa. Isto, é um facto.

Portanto, na óptica centralista, não fazia muito sentido que, depois de espoliarem o Porto de tudo o quanto podia conferir-lhe algum protagonismo e poder - sedes de bancos, de jornais, ausência de canais abertos de televisão autónomos e esvaziamento da representatividade política - que a razia ficasse pela metade permitindo que o futebol, área onde o mediatismo é tão popular fosse a única excepção. Por isso, para compor o ramalhete, inventou-se o Processo Apito Dourado.

Mesmo admitindo que Pinto da Costa venha a ser absolvido, já muito mal entretanto terá sido feito, e se há entidade que ficará para sempre manchada em todo este triste processo, essa entidade chama-se poder judicial. Poder judicial esse, que se deixou envolver de forma imatura num embuste perpetrado grosseiramente e de fácil identificação.

Ontem mesmo, o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, considerava a actuação do Procurador Geral em relação ao caso "Carolina Michaelis" despropositada face à dimensão do problema, por ter mandado instaurar-lhe um inquérito, antes mesmo que alguém apresentasse a respectiva queixa. Aconselhou também o senhor Procurador a empenhar-se na resolução da grande corrupção e a apresentar resultados...

Estranha-se portanto, que a mais leve centelha de ruído proveniente do Porto seja motivo bastante para o senhor Procurador se desdobrar em investigações e já não se sinta motivado a fazê-lo depois de Portugal inteiro ter ouvido o Presidente do Benfica a negociar ao telefone a escolha de um árbitro com Valentim Loureiro. Mais. Se a força dos boatos é tida em conta para desencadear a reabertura de processos, ainda se compreende menos que o senhor Procurador faça orelhas moucas do que consta à boca pequena sobre a proveniência do dinheiro que serviu para tornar subitamente rico o Presidente do Benfica.

Há quem diga que foi na droga, senhor Procurador. Será suficiente para mandar abrir-lhe um processo, senhor Procurador?


PS-Pacheco Pereira, o moralista-mor, quando se trata de casos obscuros que envolvam clubes lisboetas tem muito pudor em falar deles. Por que será?