08 março, 2015

Eles comem tudo

Assalto à mão desarmada
08.03.2015
AZEREDO LOPES

















O Porto deve estar no cimo de uma montanha e Lisboa num vale: porque tudo o que medra no Porto tem tendência a escorregar, mais tarde ou mais cedo, para a capital. Ou, então, Porto e Lisboa estão ao nível do mar, e a culpa não é da geografia e das leis da Física: é da bem conhecida doença do "centralismus glutonensis".
Há um procedimento-padrão.
Em primeiro lugar, a enorme resistência em aceitar que quaisquer competências sejam exercidas fora da capital. Se não for possível evitar, seja! Vão lá as tais competências para Norte mas, imediatamente, tente-se descaracterizar o processo. E, o mais depressa possível, corte-se nos recursos para estrangular. Se, por desgraça, as coisas ainda assim correrem bem, então deite-se abaixo custe o que custar. O instrumento privilegiado costumam ser as razões "técnicas", às vezes uma ou outra chico-espertice "jurídica" (por exemplo, um artigo num contrato de concessão ardilosamente redigido), ou as célebres razões de índole "prática".
Os do Norte e, mais especificamente, "os" do Porto são uns trogloditas peludos e chorões. Estão sempre a queixar-se, têm a síndrome de capital, não fazem pela vida, sofrem com o complexo provinciano, estão sempre insatisfeitos. De tudo isto teremos ouvido, e vamos continuar a ouvir sempre que se preparar mais uma.
Desta vez, parece poder estar a ser congeminado um novo assalto, relacionado com o Centro de Produção do Norte da RTP. O bolo da noiva é a RTP2. Como se saberá, a sede da RTP2 é no Porto, em consequência de um envolvimento fortíssimo de poderes públicos da região (entre os quais a Frente Atlântica do Porto) e da sociedade civil, com a Academia em grande destaque, com Serralves e outras organizações muito importantes a exigirem. Por uma vez, falou-se a uma só voz e o Poder Político (no caso, o Ministro Poiares Maduro) compreendeu e aceitou. O que só o honrou.
Mas não se pense que foi fácil, ou que a resistência capitalense ia acabar, porque nunca acaba. Logo a RTP2 sofreu duríssimos cortes no orçamento, logo pulularam as ordens de serviço que retiraram o que puderam de autonomia. Mesmo com tudo isto, a RTP2 é hoje o único canal relevante no serviço público de média. Tem o melhor jornal, às 21 horas, que provou, de forma inovadora e sem medo do risco, como em 40 minutos se consegue informar, e bem. Tem séries que deram e dão que falar (Borgen, El Principe e, agora, os Influentes), tem cultura, tem artes, tem uma programação que (até que enfim!) se percebe. A RTP2 está na moda, é um produto que demonstra, todos os dias, como é possível fazer belíssimas omeletas praticamente sem ovos.
A RTP2 estar na moda deveria ser motivo de orgulho. Seria assim, mas só na terra de S. Nunca. Vai daí, ao estar a correr bem, ao estar na moda, ao ser feita de forma barata, com imaginação e com qualidade, a RTP2 passa a ser um perigo, e um perigo grave em Lisboa. É que, com a sua existência no Porto, demonstra-se, com aliás inúmeros exemplos, que no Centro de Produção do Norte da RTP se faz (no mínimo) o mesmo, com muito menos dinheiro. E isso é inaceitável.
Anova estratégia de quem poderá estar a pensar este assalto à mão desarmada (se for à mão armada, ao menos, só podem levar-nos o que temos na carteira) até será divertida. Desde que a RTP2 está no Porto, tudo tem sido feito para que quem a pensa e executa fique sem meios e sem autonomia.
Agora, o que se congemina? Fácil. Se "eles" lá no Norte já praticamente só têm o poder de pensar o canal, então a RTP2 pode ser feita em Lisboa. É só um saltinho, depois mandamos-lhes uns bombons, como na canção de Jacques Brel. Fecha-se o ciclo, e acabam-se as comparações muito desagradáveis. Os labregos, afinal, não fizeram uma RTP2 local, fizeram-na nacional, de qualidade, barata e plural. De facto, é inaceitável, anda o Mundo às avessas quando aquela gente já quer fazer televisão séria e a sério.
Vamos agora testar, e testar mesmo, se, além de terem sabido derrubar o anterior Conselho de Administração da RTP, os membros do Conselho Geral Independente (CGI) conseguem exercer um poder muito mais difícil, embora pouco espetacular: garantir o pluralismo real do serviço público de média. E o pluralismo, esse, também é territorial, por muito que alguns pensem que o Mundo, e de certeza o seu umbigo, começam e acabam na bela capital.

3 comentários:

Anónimo disse...

Até quando é que nos vamos deixar dominar por esta quadrilha de artista do centralismo e as verdadeiras vozes do Norte e principalmente do Porto dão o murro na mesa e dizer basta.
É, que aqueles Idiotas de lá de baixo, são o super/sumo de bem governar, poupar, e mandar nos outros. Não é por acaso é que este país está como está a ser governado por aquela babilónia de ninguém se entender e de roubo.
Mudam-se as mosca-varejeira, mas a merda é sempre a mesma.

Abílio Costa.

Silva Pereira disse...

Boa tarde,

Sinceramente para o peditório da RTP já não dou nada.
É-me indiferente pois com aquela trupe (carlinhos, huguinhos ...) não vejo diferença nenhuma.

Não adianta nada protestar com esse canal macrocéfalo.
Para mim deviam vender a RTP e deixar-se de pagar a taxa.

No que diz respeito ao centralismo estou de acordo, mas como pelo menos há 40 anos discutia com colegas e amigos que este tempo iria chegar, lembrava-lhes que estavam a comprometer o futuro dos seus filhos que no estado em que as coisas caminhavam se quisessem evoluir teriam que ir para a capital.
Na altura vinham sempre com o argumento da visão de portista (os mais acérrimos defensores de Lisboa eram benfiquistas). Nisto e em outras matérias detesto ter razão.
Por isso meu caro Rui Valente é que não acredito.

Rui Valente disse...

Boa noite, Silva Pereira!

Sobre a RTP subscrevo a mesma opinião. Já no que respeita a RTP2 (sediada no Porto), embora pertença à mesma empresa, o autor do artigo refere-se à perda de autonomia do Centro de Produção do Norte que está a fazer de facto um bom trabalho com poucos recursos. Seria bom que o autor adiantasse mais alguma coisa para sabermos quem é que está a minar o terreno.
A RTP2 tem bons conteúdos, boas séries (Borg, El Principe e agora Influências) e os telejornais são mais criteriosos. Comparada com o que se faz na RTP1, parece outra empresa. Agora, o facto é que não nos podemos levar pelas aparências.
Afinal de contas temos o Porto Canal e aquilo é uma miséria.Mas já me cansa falar para mortos...

Um abraço