25 março, 2015

Meu Porto, meu Douro, minha região, e o resto...

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Grande Douro
A moda é efémera, por isso, é bom não nos entusiasmarmos demais com ela. Mas que culpa temos nós se o Porto, o Norte e o Douro não páram de ser notícia. Seria caso para desconfiar, se fossemos nós próprios a "inventar" tanta e boa notícia. Por este andar, Passos Coelho, condicionado que é, intelectualmente, ainda pensa que estamos todos ricos, e vem cá roubar-nos a Casa da Música, Serralves e o Estádio do Dragão...

Na moda, ou fora dela, a verdade é que, ou tenho andado muito distraído, ou nunca vi tanto entusiasmo vindo do exterior com Lisboa, como tenho visto com o Porto.

Hoje, foi só mais uma dessas notícias. O JN noticiou aqui, que os passeios de barco no Douro foram considerados pelo jornal on-line norte americano The Huffington Post, dos 8 melhores da Europa. E ainda bem, digo eu. É que, se em vez da Europa fosse do País, às tantas já tínhamos os lisboetas e o seu Tejo à perna, tratando a notícia como mais um sinal de bairrismo bacôco.

Os gostos não se discutem, diz-se. Sou tão suspeito por gostar da minha cidade e da região onde nasci, como um lisboeta é por gostar de Lisboa e da Estremadura. No entanto, não é por gostar da minha cidade, mais que qualquer outra, dentro e fora do país, que me sinto inibido de gostar de outras. Prefiro cidades pequenas, como Viana do Castelo, Braga, Barcelos, Vila do Conde, ou mesmo Esposende. Guimarães tem um antiquíssimo centro histórico, mas tem um senão para mim: parece uma cidade fechada em si própria. Lá fora, só para falar do país vizinho, prefiro Barcelona a Madrid, embora neste caso ache a capital espanhola também muito bonita, com um pequeno senão em relação à Catalunha: falta-lhe o mar.

Como os gostos não se discutem, ninguém pode levar a mal se disser que de Lisboa só aprecio algumas coisas (como a Rua Rodrigo da Fonseca onde vivi, na zona pombalina), mas a cidade no seu todo não me entusiasma, e gosto muito pouco da região onde está plantada. Em seu redor, os lisboetas só têm a aristocrática Sintra (onde também vivi, de 1974 a 76) para regalar os olhos, e mais além, a saloia Mafra com o seu imponente mosteiro. Até nisso, a região do Porto é diferente. Não é preciso percorrer muitos quilómetros, quer a norte, como a sul, para em pouco tempo, estarmos em Monção, na região do Alvarinho, ou um pouco mais a sul na Bairrada, a terra do verdadeiro leitão (nunca o de Negrais). O Porto desfruta de si próprio, mas também da frescura bucólica típica da região, que torna qualquer viagem aprazível, quer se rume ao Minho, quer serpenteando as encostas xistosas do magnífico Douro plantadas de vinhedos deslumbrantes. Amar o Porto é também amar o Norte, e todas as suas cidades, e pessoas.

Há outra coisa que não ajuda Lisboa a ser mais apreciada, que é ser uma capital onde se concentram o maior número de provincianos por metro quadrado, em que os piores de todos, são precisamente aqueles que abandonaram as suas terras para ganharem a vida e delas quase se esqueceram com medo de serem socialmente discriminados.

Lisboa, é sobrevalorizada pelos que lá estão, e pelos que lá estando, não são de lá. Lisboa, é o centralismo. Abusiva e poeticamente, alguém se lembrou de a baptizar como a cidade-luz, adulterando o cliché e a fama atribuída a Paris. Não nasceu centralista, mas cresceu mentalizada para essa vocação, e os que de lá nos desgovernam, achando isso pouco, tudo têm feito para obliterar o crescimento do resto do país, e ofuscar quem possa tirar-lhe o brilho. Lisboa, tem complexos de inferioridade em relação ao Porto, não o contrário. Por isso, tenta amordaçá-lo, política, económica e desportivamente. O FCPorto que o diga, e os responsáveis pela comunicação social do país que o confirmem, se ainda tiverem um pingo de dignidade. Lisboa, é como uma única foz, onde obrigatoriamente têm de desaguar todos os rios do país.

Ainda bem que a Natureza fala mais alto que o centralismo de Lisboa, num português correcto  e bem mais patriótico...

PS-Para que não sobrem dúvidas, Lisboa, é também a gente que lá vive. Sendo alguns meros cidadãos, pacíficos, e sem responsabilidades políticas, nem por isso se lhes ouviu a voz para contestar a discriminação feita ao resto do país... Tal como alguns portuenses, aliás. Só com uma pequena grande diferença: o Poder está em Lisboa.
     

2 comentários:

Julio disse...

Claro, mas como deixei aqui dito, previamente e que reitero, distritais são comodistas, avessas à reforma dos partidos, como se chegar à reforma do Estado?
Tem muita razão, sobre o Douro e o Património da Unesco, o Alto Douro Vinhateiro que não foi a Primeira Região Demarcada, de memória vem-me, a segunda dos Vinhos Chianti; o que é certo, foi ter sido a primeira região demarcada, com padrões de QUALIDADE ! Por destruição, Sebastião José de Carvalho e Melo, dos Távoras: ora um Iluminista podia tolerar o que os Távoras tinham em Trás-os-Montes, feudalismo no seu estado mais primitivo!
Mas, como se refere, somos tão ordeiros, que nos podem levar a Casa da Música, Fundação de Serralves... O que queira, para a Despótica Capital.
Só, para lembrar, aquando das Invasões Napoleónicas, os portuenses deram uma sacudidela, e nesse Altar da Talha Barroca, Igreja de S. Francisco, por Ouro Puro, ser o mais dúctil dos metais e placas finissimas de Ouro, pacientemente coladas, sobre a talha, com clara de ovo, engessaram, para a soldadia francesa não queimasse a madeira e, brutos por incultos, levassem os vestígios, derramados sobre as cinzas: Au!
Depois foram, pela Ponte das Barcas, mas houve o tal desastre...

Anónimo disse...

Até se podia dizer-se que o Norte é Portugal e o resto é paisagem, mas não vamos ser tão chauvinistas como alguns lisboetas. Eu conheço bem Lisboa porque também lá vivi 3 anos, mas de uma coisa vos garanto, nunca, mas mesmo nunca, trocaria a cidade do Porto por Lisboa. Primeiro porque nasci no Porto e depois a cidade tem sempre qualquer coisa a descobrir que me encanta. Já viram a beleza das duas Ribeiras Porto e Gaia quase tão próximas separados por um rio D,ouro.

Temos um Minho lindo verdejante, um Trás-os-Montes mais árido mas de belas paisagens e um rio que atravessa uma das mais belas paisagens vinhateira do mundo do tão famoso néctar "vinho do Porto".

Lisboa por mais imitações que faça, por mais chauvinismo que tenha, por mais esterco de governantes que por lá andem, é sempre uma selva urbana, uma mata de detritos, infelizmente para os verdadeiros naturais de Lisboa.

Abílio Costa.