21 março, 2016

Portuenses de trazer por casa

Há quem não ligue muito às origens, à terra dos ancestrais, à família, e há quem não ligue a coisa nenhuma, que é o modo mais cómodo de estar na vida. Eu pertenço à primeira categoria, o que não quer dizer que esteja certo. Não sei, são opções de cada um.

Para amar algo, é fundamental possuir um forte sentimento de exclusividade sobre o alvo amado. Não sou dos que consideram relevante o local de nascença para alguém se sentir parte de uma terra, pessoa, ou clube. O que é preciso é conhecer o que se gosta, e porque se gosta. Não acho que se goste, apenas porque sim. Essas, são emoções de adolescentes, efémeras, passageiras. Quando falo do Porto, trago coladas à voz as ruas da minha infância, os meus amigos (os melhores), a minha família e toda uma vida de profunda identidade com a terra natal, que nem episódicas ausências foram capazes de fazer esmorecer. Bem pelo contrário, os contrastes e as ausências, potenciaram o meu amor pelo Porto. Ter estado fora da minha cidade, dentro do meu país (Lisboa) e no estrangeiro, exacerbou-me a atenção pelas diferenças. Na comparação, encontrei sempre vantagens para a minha cidade, e também nas suas gentes.

O cosmopolitismo de uma cidade tem os seus inconvenientes. Ao abrir as portas a quem para cá vem apenas por interesses económicos, ou profissionais, sem chegar a integrar-se na cidade nem se afeiçoar às suas gentes, aos seus hábitos e características, o Porto começou a perder um pouco do seu distinto carácter. Hoje, fruto de uma política governativa centralizadora, que faria corar de vergonha o próprio Salazar, os portuenses foram perdendo a capacidade de se indignarem. O que está a acontecer no FCPorto actual, é também a consequência dessa descaracterização, não tem apenas a ver com negociatas, e má gestão...

Fui dos que rejubilou com a aquisição do Porto Canal pelo FCPorto. Por essa altura, ainda acreditava na objectividade da iniciativa, que havia um projecto idóneo, que podia vir a constituir-se no primeiro grande passo para uma autonomia mediática, que Lisboa não permite. Vã esperança a minha! O Porto Canal, hoje, decorridos poucos anos, é o instrumento de comunicação mais atípico e contraditório que se pode imaginar. Mas não é só isso. É a humilhação de uma cidade em forma de televisão, para todos os portuenses e portistas. Não tem fibra, imaginação, nem coragem para funcionar como um pendulo moderador contra a macrocefalia da comunicação terreiro-pacista. 

Júlio Magalhães não quer saber de nós para nada, e como tal, nada tem para nos dar. A política de comunicação e programação do Porto Canal é uma anedota, um hino à mediocridade (tal como a do FCPorto...). Se há ali um projecto, não é para todos os portuenses, é só para alguns amigos de conveniência, e famílias... Bem podem abrir a boca com "a nossa gente", porque estão muito longe de saber o que é o Porto, e principalmente, do que mais precisam os seus habitantes. Trazer betinhos e betinhas, de Lisboa para cá, podem estar certos que não é a nossa primeira, nem última carência! Nós precisamos de nos defender deles, não de os bajular, porque são eles que nos estão a levar tudo! E quando digo "eles", não estou a individualizar, nem a falar só de futebol, estou a dizer que "eles" corporizam o que há de pior no centralismo: a ganância, o egocentrismo e a arrogância. É fácil, ouví-los e vê-los nos media a falar de nós, quando estão juntos. Gozam, como doidos. Só o pessoal do Porto Canal não sabe, nem quer saber... 

Destes "representantes" do Porto, tenho eu vergonha. Estão nas antípodas do que era o tripeiro. É só um clic, e daqui a uns tempos vamos vê-los nos canais de Lisboa, a olhar pela vidinha. Querem uma aposta? Para já, é o FCPorto que os sustenta.  Mas, como censurá-los, se o patrão permite, se o patrão se ausenta e não controla o canal? 

Como ousa Pinto da Costa queixar-se do centralismo, se no canal que devia combatê-lo, os portuenses não têm voz, e os inimigos do Porto são tratados como príncipes? Para quê, tanta hipocrisia?

As minhas afinidades com o clube, não se estendem às de quem o governa. Foi tempo. O FCPorto, esse, não morrerá. Estou certo.

  

3 comentários:

marujo88 disse...

Rui há muita gente que apoia a politica do Porto Canal, ainda há dias discuti o assunto com alguns portistas e a maioria apoia o actual projecto do porto canal, por isso vai ser dificil eles mudarem, infelizmente muitos portistas andam a ser enganados e não querem admitir, eu agora nem tenho o canal porque sou cliente da NOS e para falar verdade nem sinto a falta, excepto para ver as modalidades. Pode ser que os Portuenses/Portistas acordem e obriguem a direcão do FCP a mudar de rumo
Abraço
Manuel da Silva Moutinho

Miguel Lima disse...


a última afronta dá pelo nome de raminhos, um lampião que se considera humorista e que disse, do nosso clube do coração e da sua história, o que Maomé nunca chegou a tecer sobre o toucinho. e por mais do que uma vez... já faltou mais para se convidarem os cachalotes do guerra e do 'gordobern'. e, se calhar, até o próprio orelhas (e não me refiro ao Herrera)...

abr@ço
Miguel | Tomo III

Rui Valente disse...

Eu também sou cliente NOS, e não vai ser com esta política subserviente que vou mudar de operador só para ter um canal que fala do centralismo mas anda sempre a bajular quem o representa. Não é qualquer Pinto da Costa que me faz mudar de opinião. Estou farto dele. Nunca imaginei perder-lhe a consideração, mas ele tratou de tudo fazer para o conseguir.

Um abraço