13 junho, 2016

Marcelo é fixe, mas às vezes fala demais

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Marcelo e o abraço da praxe a Holland
Os homens não são perfeitos, estamos cansados de saber. Porém, alguns há, que talvez por se acharem perfeitos, ética e intelectualmente, entendem que têm capacidade para governar outros homens, coisa que ainda está por provar, sobretudo num país como Portugal. Se a par dessa já habitual presunção houvesse seriedade, o mínimo que se lhes devia exigir, era que errassem menos, caso contrário muito dificilmente escapam da vulgaridade a que se habituaram (e ainda se queixam de ganhar mal).

Como é evidente, reportava-me aos  auto-considerados modelos de homens "quase" perfeitos que usam a política como trampolim  para vôos mais altos, do tipo cherne barrosão, que é como quem diz políticos fugidios que saltitam sem mais nem para quê do governo para comissários europeus, administradores bancários ou similares. O programa anteriormente plasmado da Quadratura do Círculo, dá-nos uma ideia próxima de quão preciso é recorrer a uma linguagem esteriotipada para caiar o oportunismo instalado na mente dos actores políticos. A perfeição é um mito que todo o homem de bem deve tentar alcançar, e a norma é tanto mais premente quanto maiores forem as responsabilidades de cada um.

Sem o querer encaixar neste quadro, Marcelo Rebelo de Sousa é talvez o Presidente da República eleito desde o 25 de Abril que mais tem surpreendido o país. Ainda é muito cedo para opiniões conclusivas, mas é por demais evidente que o seu estilo descontraído, cooperante, afectuoso, e pouco convencional, tem merecido rasgados elogios por uma grande franja da opinião pública. Neste aspecto também eu aprecio o género. Naturalmente, há sempre aqueles que criticam tudo, até a bondade - que é das melhores qualidades humanas -, mas temos de dar um desconto, porque esses fazem da má língua e da calúnia um modo de ganhar a vida, por sinal com sucesso e muitos seguidores.

Excluindo esta espécie, muito prolífica em Portugal, duvido que a maioria dos portugueses não olhe para o estilo de Marcelo Rebelo de Sousa com simpatia e alguma confiança. Mas, como disse há dias José Pacheco Pereira (com certa razão), será preciso ao actual P.R. controlar um pouco esta nova forma de presidir, porque a função do cargo assim o exige. Trata-se de moderar, não de mudar de estilo. Lá chegará o dia em que terá necessidade de se resguardar por efeito de uma qualquer situação delicada. Continuando neste ritmo, acelerado e dialogante, sobre tudo e sobre nada, a margem de manobra para a contenção será curta se um dia tiver de falar de assuntos importantes, ou impopulares. Nessa altura, o povo terá dificuldade em compreender a mudança. Oxalá me engane.

Marcelo decidiu, quanto a mim bem, comemorar o dia de Portugal em Paris, junto dos emigrantes, uma originalidade que outros nunca ousaram levar por diante. Esteve bem quando discursou junto de François Holland, da maire de Paris e da comunidade lusa. Seria "perfeito" se um dia depois não tivesse exagerado na linguagem com o intuito de alimentar o patriotismo dos presentes. O entusiasmo fê-lo cair numa autêntica ratoeira, precisamente por falar demais.  Esquecendo-se que estava em França, num país anfitrião, e como convidado, disse qualquer coisa como isto: os franceses são excepcionais, mas nós somos muito melhores!

Se quisermos avaliar estas declarações à luz do nacional-porreirismo, como um  estimulante sopro de orgulho para os emigrantes, esquecendo o país de acolhimento onde estas palavras foram proferidas, nada há a objectar.  Sucede, é que esse argumentário nacionalista podia (e ainda pode) ser interpretado pelo país anfitrião, no mínimo, como  soberba, como uma coisa deselegante, com odor a ingratidão. Afinal, qual dos dois países deu as melhores condições de vida aos portugueses em termos de dignidade humana? O país de origem, ou aquele que os acolheu?

Estes orgulhos de circunstância, assentes num passado de país de descobertas, colonizador - que hoje mesmo coloniza "o resto do país" com o centralismo -, que flutua num presente de prosperidade dúbia, e ainda lança para a emigração muita gente, a mim, provocam-me vergonha. É verdade que hoje em dia, toda a Europa está doente, mas não me importava nada de trocar a paz pôdre portuguesa, pela instabilidade da França.

Cá entre nós que ninguém nos ouve: os franceses (e não só) estão a pagar caro o preço de já terem sido um país "el dorado"  para muitos povos, incluindo os portugueses, e de lhes terem escancarado as portas de entrada.

Afinal, a onde é que está a nossa grandeza contemporânea, para lá da bazófia? Exmo. Sr, Presidente: optimismo, venha ele. Demagogia já temos que chegue.   

3 comentários:

Anónimo disse...

Já Leu:

"Como se muda o que parecia imutável" no Expresso por Nicolau Santos ???

Merece leitura.

Rui Valente disse...

Não li, mas fui ler, como sugeriu.

O conteúdo tem muito de realista, agora resta saber se António Costa terá pedalada para aguentar tanta pressão.

Esta Europa está ideologicamente pobre. Economicamente, só aos ricos interessa. Acho que ainda vamos ter surpresas maiores e mais trágicas.

Anónimo disse...

Nem 8 nem 80, aquilo que aquela Múmia que lá esteve, fazia ou seja não fazia, este parece-me que exagera, são estilos. O importante é que faça pelo menos algum trabalho sem fazer muita despesa.

Abílio Costa.