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22 maio, 2012

Náusea

Mentiria se dissesse que nunca me passou pela cabeça pôr um ponto final no Renovar o Porto. Ao longo dos quase cinco anos de existência que já leva [nasceu em Setembro de 2007], procurei não me desviar do espírito e do nome que atribuí a este blog, embora a criação posterior de "As Casas do Porto" lhe tenha retirado algum espaço pela força esmagadora das imagens, esvaziando-o de alguma objectividade para o ocupar com assuntos de carácter regional e nacional. 

A indisponibilidade para continuar a alimentar com a regularidade requerida o blogue As Casas do Porto acabou por se repercutir em ambos os blogues, para o melhor e para o pior. Não quero com isto dizer que estou arrependido. Pretendo somente dizer que começo a estar cansado de "pregar no deserto", não porque alguma vez pensasse que podia resolver os problemas da nossa cidade através de um blogue [isso era passar um atestado de ingenuidade e estupidez a mim mesmo], mas porque cheguei à conclusão que em Portugal não basta denunciar, ser frontal e crítico, é também importante ter poder [muito poder] para acabar com o que está mal, não só no Porto, como no resto do país. Os órgãos da Justiça neste simulacro de democracia não funcionam, e estão é super-ocupados a tapar os buracos provocados pelos amigos [Duartes Limas e Dias Loureiros]...

A democracia, ou  o embuste em que os políticos e a indiferença do povo a transformaram, permite aos cidadãos inconformados pouco mais que ocasionais deslocações às urnas, apenas para dar emprego a mercenários da política desonestos e incompetentes que, como hoje se comprova, nunca souberam dar conta do recado. 

Não me posso culpabilizar por não ter alma de ovelha, por me revoltar com a discriminação, com a manutenção de uma justiça para ricos e outra para pobres, até porque a experiência da vida me diz que a honestidade é mais comum nos mais pobres do que o contrário. À excepção dos poucos que tiveram sorte ao jogo, raros são aqueles que enriqueceram depressa e com a integridade intocável. É-se tanto mais rico quanto mais se consegue roubar. O mais que um homem honesto pode conseguir em Portugal - e mesmo assim nem todos -, é amealhar um modesto pé de meia para a velhice.  

Por tudo isto, pelo desprezo profundo que a classe política me infunde já não tenho paciência [nem calma] para assistir a debates, para me submeter a exercícios de hipnose intelectual a pretexto de "esclarecimentos" que não pedi, com gente em que não acredito. Até os telejornais agora me causam indiferença. Não pertenço ao grupo gigantesco de imbecis que ouve e aplaude quem anda a dever muitos anos de prisão à sociedade.

Só receio uma coisa: é que, como está historicamente provado, um dia destes alguém se aproveite do trabalho sujo e fraticida dos falsos democratas [como os que levaram Hitler ao poder] para impor uma nova ditadura em Portugal. Ela já começa a ganhar forma. Basta reparar no frenesim do actual governo [de direita] e a sua sôfrega rapinagem aos direitos e regalias dos cidadãos [mantendo as suas] como se de animais se tratasse, para se ficar esclarecido. Mas não se iludam, que as coisas não se vão ficar por aqui. É dar-lhe "asas" e liberdade, e a direita vai deixar cair totalmente a máscara. É uma questão de tempo. Nada irá melhorar, podem ter a certeza. 

Mesmo assim, vou tentar resistir à náusea de não poder fazer algo bem mais eficaz do que escrever...  
    

24 abril, 2008

Os mistérios de Sócrates

Se fosse possível auscultar a seriedade intelectual do ser humano, saberíamos exactamente qual é o estado de espírito de José Sócrates quando se ouve a si próprio e, preferencialmente, qual o nível de credibilidade que podíamos atribuir aos seus permanentes manifestos de optimismo tantas vezes deslocado da realidade. Como não é possível, só podemos intuir.

Ora, a minha intuição diz-me que Sócrates leva demasiado a sério a sua auto-confiança. Tão demasiado a sério, que se esquece do fundamental, que é do feedback do seu discurso nas massas, sem condicionalismos de classes e territórios. Não o fazendo, preferindo ignorar a sua condição de simples mortal passível de errar, Sócrates arrisca-se a cometer um erro bem mais grave: o do autismo.


Esquece, que antes dele, houve outros "Sócrates" (com nomes menos sugestivos), igualmente candidatos a filósofos, que também estavam cheios de certezas e que raramente se enganavam. E antes desses, outros igualmente 'seguros' imitaram o estilo sem contudo nunca terem conseguido dar provas da sua eficácia. Todos seguros à partida, mas todos derrotados no fim. Pouco ou nada do que desenvolveram das suas políticas agora se aproveita, o que nos leva a garantir sem margem para hesitações que se enganaram.


Apesar disso, o estilo fanfarrão, teórico, autista, continua, o que prova que Sócrates nada aprendeu com as asneiras dos outros. E é dramático que tal esteja de novo a acontecer, porque não é Sócrates nem "sus ministros" quem mais irá sofrer com as asneiras (eles ficam sempre bem, como os altos cargos empresariais o atestam no pós-política), é o país e a sua população. O cenário vai repetir-se, e é abominável que permitamos que se repita.


O Tratado de Lisboa é a menina dos olhos de Sócrates. Ele baba-se com o feito e imagina que nós portuenses também. Eu estou a borrifar-me para o Tratado de Lisboa, como muitos de nós se começam a borrifar para a entrada de Portugal na União Europeia, como outros começam a borrifar-se para a valia da nossa democracia. Tudo isto vem sendo contestado, até a própria Liberdade, porque se calhar a sua prática, em termos políticos, não é tão "livre" como parece.


A Liberdade é um bem precioso, mas numa sociedade moderna e justa, pouca valia tem se isolada de outros valores. Esses valores passam por uma distribuição mais equilibrada da riqueza, pelo acesso igual à justiça, por uma valorização de competências razoável, pelo respeito das regras do trabalho entre empregadores e empregados. Todos em teoria concordam com tudo isto, mas sabe-se que na prática (que é o que conta) as coisas não se passam assim.


E os jornalistas - os tais menssageiros do povo - sabem-no, mas também pouco se incomodam, desde que se mantenham encaixados em qualquer orgão informativo que lhes dê o pão. No JN de hoje, a autora desta crónica não encontrou tema melhor para abordar do que os dotes de alquimia do 1º. Ministro. Foi a mutação de um das letras dos três "D" do Movimento das Forças Armadas (MFA) que a inspirou. Segundo escreve, o "D" de Descolonização (a escôlha é dela) foi subsítuído pelo "E" de Europa, servindo para associar o 25 de Abril à ratificação (sem recurso a referendo) do Tratado de Lisboa. Que imaginação!


Já Rui Moreira, na recepção que concedeu a Sócrates, fez com apropósito o que dele se esperava , aproveitou a rara oportunidade de o ter na plateia para lhe acenar com os lembretes da Regionalização, do TGV e do Aeroporto Sá Carneiro. A mais não é obrigado.


Vamos lá a ver se Sócrates tomou boa nota dos seus reparos. Saiu sem dar uma única dica e isso pode querer dizer tudo. Veremos.