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02 maio, 2011

Cidadania e futebol

Estou dividido. Por um lado, continuo a considerar prioritário o envolvimento da população na vida pública [que não é bem  o mesmo que militância político-partidária], mas por outro, ando cada vez mais decepcionado com a forma como essa população reage à irresponsabilidade dos agentes políticos, antes, e sobretudo depois, de acederem ao governo. O povo queixa-se dos maus governos [e com muita razão], mas também não está disposto a mexer uma palha para inverter a situação.

As gerações dos anos 50 e 60 não souberam transmitir aos filhos a importância de acompanhar a actividade política da mesma forma como a necessidade de lutarem por uma boa formação académica para garantir o futuro profissional. Não perceberam, que sem um bom país, desenvolvido e competentemente governado, de pouco lhes havia de valer a formação. Hoje, há montes de licenciados no desemprego à procura de futuro no estrangeiro, tal como os não licenciados e analfabetos. E mesmo assim, com a crise internacional de lideranças a juntar-se à crise económica e financeira, não é certo que a solução esteja na emigração.

Só temos duas alternativas: plantar um sorriso idiota nos lábios e brincar aos optimistas, ou assimilar de uma vez por todas, que se o comunismo falhou, o capitalismo selvagem também já está morto há muito tempo, apesar dos constantes balões de oxigénio que o sistema lhe vai impingindo para tentar esconder o cadáver...

Neste contexto, começo a dar-me conta que pouco adianta tentar convencer as pessoas a olharem para o fundamental quando elas estão masoquistamente viradas para o acessório. Assim, não querendo ser contraditório, mas apenas realista, vou optar no futuro [aliás, como já vinha fazendo], por realçar as poucas coisas boas que no Porto vão acontecendo, ainda que seja no futebol, ou melhor, no Futebol Clube do Porto, que elas mais incidem. Muito mais, do que num grande número dos seus adeptos, que antes de o serem, são cidadãos, se é que isso lhes diz alguma coisa...

27 junho, 2010

Os pró-anti regionalistas

Já anteriormente apresentei múltiplas razões para rejeitar as teses daqueles que passam o tempo a lamentar os lamentos [passe a redundância] dos adeptos da Regionalização com contraditórias alegações da falta de envolvimento dos cidadãos na coisa pública. E tenciono reforçar esse descrédito em tais teóricos por não vislumbrar seriedade argumentativa no que continuam a dizer e escrever.

Para começar, entram constantemente em profundas contradições. Ainda há poucas semanas tive oportunidade de detectar um desses teóricos portuenses a dissertar num programa de televisão uma coisa sobre a cidadania ,  e passados poucos dias a defender o seu contrário. Foi no Porto Canal, no programa do Jorge Fiel. Ontem, outro cidadão portuense conhecido pela sua ligação a festivais do cinema fantástico do Porto, escrevia num semanário local ser contrário à criação de um Partido Regional, repetindo a tese de que um Movimento Cívico seria mais eficiente por conferir aos cooperantes uma maior liberdade de pensamento e um menor apego ao Poder.

Realço daquelas declarações um insofismável facto que foi talvez a única conquista palpável que [ainda] sobra do 25 de Abril, não obstante a queiram agora fazer definhar: a Liberdade de Pensamento. Sendo isto uma realidade, por que é que esses "resistentes" à criação de um Partido Regional não admitem a possibilidade da criação de novas regras estatutárias onde as práticas do Poder possam ser substancialmente reformuladas? Um novo Partido, implica, do meu ponto de vista, novas ideias, novas regras de distribuição de Poderes. Para além dessas regras, a Regionalização, que é o principal objectivo do Partido do Norte  -, impõe, de per si, mudanças significativas nos órgãos do Poder, cujo aspecto mais relevante é , sem dúvida, o factor proximidade dos cidadãos com os centros de decisão.

O grande drama dos Movimentos Cívicos é estarem permanentemente condenados ao fracasso nos momentos em que se confrontam "face a face" com o Poder e tenderem a subdividir-se em outros Movimentos com a adjacente redução de força e representatividade popular. Por outro lado, os Governos apesar de se terem revelado ao longo dos anos de uma incompetência confrangedora, têm até hoje, sabido lidar muito bem com todos os Movimentos e controlam-nos quase sempre com relativo à vontade.

Como tal, só disputando o Poder com o Governo e os partidos existentes é que um Movimento poderá afirmar-se. O facto de ter de se confrontar com uma previsível e feroz oposição desses partidos provará que é temido, coisa que não acontece em relação aos Movimentos cívicos. Veja-se a "resistência" que o Governo continua a opor aos Movimentos contra as Scuts, apesar de apoiados pela maioria dos autarcas nortenhos de todos os partidos. Só que, os problemas do Norte não se reduzem infelizmente às portagens das Scuts, são muito mais vastos, e a Regionalização como já foi por nós diagnosticado não vai lá com promessas, conquista-se, e para se conquistar pacífica e democraticamente, só através da implantação de um Partido político.

A menos que esses anti-partidários de um Norte sem Partido que o defenda, continuem a acreditar nas suas promessas... Convenhamos: até a paciência tem limites.

 


23 abril, 2010

Reabiltação urbana ao gosto de cada um

Leia, no blogue As Casas do Porto, um artigo de opinião que reflecte integralmente a péssima ideia que a opinião pública criou dos senhores advogados. Clique aqui e dê o seu parecer.

20 outubro, 2009

António Alves versus Rui Moreira

Li , com particular interesse, a troca de impressões entre o Rui Moreira e o António Alves, àcerca da recente iniciativa de se fundir a AEP com a AIP. Trata-se de dois portuenses como eu e outros que por aqui passam e escrevem, sobre os quais não tenho dúvidas que vivam intensamente os problemas que atravessam toda a região Norte e a cidade do Porto.
O António Alves transcreveu aqui uma afirmação do Rui Moreira que já gerou algum desconforto em muitos portuenses, talvez por verem neste último, uma figura do Porto capaz, serena, educada e, o que é mais relevante, um portuense assumido. Ah [ia-me esquecendo de um factor importante], e... um portuense portista!
Devo dizer que nutro uma simpatia natural por Rui Moreira, desde que começou a aparecer na televisão [não me refiro ao Trio de Ataque, mas já lá irei] e a fazer a diferença no panorama marasmático das chamadas elites portuenses [coisa que actualmente continuo sem saber o que é, e quem é].
No entanto, no caso concreto em debate, não deixaram de me surpreender as suas declarações citadas pelo A.Alves. Concordo por isso, com os argumentos [aqui e aqui], do António Alves. E, isto não se trata de amiguismos, porque apesar de conhecer pessoalmente o António Alves [só me encontrei com ele uma vez], reconheço-lhe uma independência intelectual e social que gostaria de ver mais vincada em Rui Moreira, mas receio - e até compreendo -, que tal não seja fácil, dada a diferença de protagonismo mediático e social, entre um e o outro. Mas, é se calhar aqui que a porca torce o rabo.
O protagonismo, tem duas faces. Uma, que pode conferir projecção a um desconhecido e trazer-lhe benefícios materiais [e aqui, não estou a querer insinuar nada, estou a ser realista] de longa ou curta duração, e uma outra, que pode subverter a liberdade intelectual do indivíduo por obediência cautelosa às influencias que eventualmente arriscará perder se insistir em dizer exactamente o que pensa.
Ludgero Marques, é um paradigma do que acima quis explicitar. Houve um tempo, em que parecia ser o tal homem do Norte que a mitologia local inventou [já nem sei, se com algum fundamento]. Era interventivo, empreendedor, mas assim que os ventos do poder se concentraram mais a Sul, perdeu quase toda a Liberdade afirmativa e com ela a coragem.
Rui Moreira tem razão quando diz que L.Marques deu um tiro no pé ao abdicar por sua inicativa de âmbito regional da Associação Industrial Portuense para uma teórica e nominal Associação Empresarial de Portugal, porque foi esse o primeiro acto de renúncia à identidade própria de uma instituição local [a AEP], por aparente convicção pessoal de que a sobreposição do nome Portugal ao Portuense lhe iria trazer vantagens.
Ludgero, não estava a pensar nos benefícios da Região, estava a pensar nos seus. Daí, continuar a não compreeender a aparente contradição de Rui Moreira pela sua fé na novel fusão, mesmo com os exemplos que apresentou da Alemanha e da França que são países com uma cultura de respeito democrático a anos-luz da nossa. Há uma patente ingenuidade nesta frase de Rui Moreira, a que ele prefere chamar opinião positiva, que é esta: "Mas tenho uma opinião positiva sobre o desenlace, ainda que isso resulte numa sede em Lisboa onde já está a AIP, desde que a fusão permita que os serviços da AEP no Norte podem sobreviver por essa via."
Sobreviver por essa via? Ainda acredita nisso, depois de tanta vilagem, de tanto desprezo, tanto saque contra o Porto?
Caro Rui Moreira, hoje, confesso-lhe, pela saturação de tanta hipocrisia, tenho pavor que as minhas opiniões possam por algum segundo que seja, parecerem próximas de qualquer fundamentalismo, mas pela minha parte, pela minha experiência vivida e [que o meu amigo também terá], não consigo mais acreditar que de Lisboa saia alguma coisa de bom para o Porto. Não sinto sequer qualquer fraternidade por Lisboa. Que quer que lhe diga, não fui eu quem a fomentou...
Também não quero rejuvenescer tão bruscamente na minha boa fé, como o meu amigo... Acreditar na teoria do chicote escondido nas costas, do desprezo por uma região, faz-me desvalorizar aquela sua frase engraçada mas plena de realismo que dizia: «que as ovelhas não se tosquiam a si próprias!» Lembra-se?
Será que o «rebanho» de Francisco Van Zeller é uma excepção? Eu, não acredito.
PS-Quanto ao Trio de Ataque, caro Rui Moreira, depois de tudo o que ouvi dos seus pares de programa, das dissertações alucinantes sobre o FCPorto, das intriguices do cineasta, eu, no seu lugar já os tinha deixado a falar sozinhos. Mas isso sou eu, que acho que não tenho de ser amigo de toda a gente...