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24 março, 2008

O QUE A MACROCEFALIA ESTÁ A PROVOCAR

O centralismo exacerbado está a provocar um cada vez maior distanciamento das pessoas do Norte relativamente a Lisboa.

Muitos de nós alhearam-se da selecção nacional.

Movemos montanhas para ir ver um jogo do Porto, mas não alteramos a hora de jantar para ver um jogo da selecção.

Temos famílias divididas por causa do centralismo.

Nunca senti vontade de ir a Lisboa mostrar aos meus filhos aquilo que os meus Pais me mostraram.

Quando me interpelam no estrangeiro de onde sou, respondo – SOU DO PORTO. Podendo completar que é uma cidade situada no Noroeste da Península Ibérica.

Não digo que não sou português, mas o que espontaneamente respondo é que sou do Porto.

Já ouvi conversas de café onde nortenhos indignados dizem que preferiam ter a capital em Madrid, pois assim seriam muito menos dependentes de Madrid do que são hoje de Lisboa.

Ironia da história: toda a região do berço da Nação Portuguesa, refiro-me à zona Norte, é hoje mais dependente de Lisboa do que todas as outras regiões que ficaram sob a alçada de Leão e Castela!

Lisboa, que é uma cidade muito bonita, é cada vez menos destino preferencial das pessoas do Norte.

Quando nos sobra algum tempo e dinheiro, preferimos, cada vez mais, ir de carro até à Galiza. Onde nos sentimos em casa. A fronteira natural do Rio Minho não é suficiente para nos afastar, se calhar une-nos. Seguramente que a fronteira politica também não conseguiu afastar-nos…

Ou então, se houver mais disponibilidade de tempo e de dinheiro, e apesar de todos os boicotes ao aeroporto Sá Carneiro, metemo-nos num avião e vamos a uma cidade europeia por muito menos dinheiro do que o que custa ir a Lisboa de avião.

Nós estamos a acordar, será que eles vão acordar a tempo?
Manuel Cerqueira Gomes

14 novembro, 2007

Eu, portuense, olho-me ao espelho com a ajuda de Garrett, Sophia, Saramago, entre outros

A leitura destas frases ajuda-nos a nós, portuenses, a conhecermo-nos melhor. Eu leio-as, releio-as e sinto-me como se estivesse a olhar-me ao espelho.

Espero que esta leitura ajude os forasteiros a melhor decifraram esta cidade secreta que Eugénio de Andrade, um seu filho adoptivo, não hesitou em considerar «a mais fechada das nossas cidades».


O b pelo v

«Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão.»

Almeida Garrett


Maravilhas e angústias

«O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias.»

Sophia de Mello Breyner


Como se vinga

«O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da Polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.»

Ramalho Ortigão


Rir desbragadamente

«E quanto ao riso, o Porto gosta de rir e de rir com uma certa insolência: ri mais desbragadamente, mais primariamente, mais saudavelmente e com mais gosto do que Lisboa.»

Vasco Graça Moura


Regaço aberto para o rio

«Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é a Ribeira.»

José Saramago


Uma alma de muralha

«Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.»

Agustina Bessa Luís


Invejas

«Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S. Carlos e o Martinho. Detestam-se!»

Eça de Queiroz


Lição de portuguesismo

«Uma ida ao Porto é sempre um lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! - um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.»

Vitorino Nemésio

Uma família

«O Porto não é em rigor uma cidade: é uma família. Quando algum mal o acomete, todos o sentem com a mesma intensidade; quando desejam alguma coisa, todos a desejam ao mesmo tempo. Os portuenses são tão ciosos da integridade da sua cidade, como os portugueses em geral da integridade da nação.»

João Chagas


Aspecto severo e altivo

«O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada.»

Alexandre Herculano


Jorge Fiel

08 novembro, 2007

As estranhas formas do centralismo se manifestar

Domingo, no final do fim-de-semana prolongado, os efeitos perniciosos da macrocefalia manifestaram-se sob a forma de engarrafamentos com extensão superior a seis quilómetros nas entradas de Lisboa.

No mesmo dia e à mesma hora, entrei de carro no Porto pela A1, vindo de sul, sem nunca parar ou abrandar - e atravessei a ponte da Arrábida à confortável velocidade de 90 km/hora.

Na semana passada, a Direcção Geral de Impostos divulgou pela primeira vez as estatísticas referentes ao pagamento de IRS por concelho.

Ficamos a saber, sem surpresa, que quem paga mais são os residentes em Lisboa. Em média, cada família residente na capital paga 4.540 euros de IRS/ano.

Os outros dois lugares neste pódio são ocupados por concelhos da área Metropolitana de Lisboa: Oeiras (4.196 euros) e Cascais (3.995 euros). As famílias do Porto surgem estão em quarto lugar neste ranking de contribuintes, com 3482 euros/ano de IRS, ligeiramente à frente das coimbrãs (3.250 euros).

E, como não podia deixar de ser, os cinco concelhos onde se paga menos IRS situam-se todos a Norte do Douro: Mesão Frio (420 euros), Castelo de Paiva (424 euros), Santa Marta de Penaguião (430 euros), Sabrosa (441 euros) e Lousada (481 euros).

O centralismo tem estranhas formas de se manifestar. Ironicamente, manifesta-se sob a forma de engarrafamentos e de descontos mais elevados para IRS.

Não deixa de ser curiosa esta ironia. Mas a verdade é que não me parece muito provável que um pobre esfomeado sofra de colesterol elevado…

Jorge Fiel