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23 setembro, 2009

Mitos que a história tece

Para surpresa de muitos, e para esvaziarem as dúvidas sobre as ficções criadas por alguns historiadores, seria interessante ler o que Camilo Castelo Branco escreveu sobre o mito chamado Marquês de Pombal. Entre outros "galanteios", Camilo dizia de Pombal o seguinte:
«Foi um espancador distinto e um estremado trocista. A sua mocidade agitou-se em tempestades que hoje chamaríamos canalhas e a polícia castigaria a espadeiradas. O seu intelecto não era acessível às ideias de Liberdade mental e política.»
Sobre o seu papel, no terramoto de 1755 que tão heroicamente a história tem propagado, Camilo escreveu isto:
«Pretendem convencer-nos de que sem Sebastião de Carvalho e Melo, a terça parte de Lisboa arrasada pelas convulsões e pelo incêndio, nunca mais se levantaria. Não fugiu de Lisboa? Nenhum dos seu colegas fugiu. De resto, ele ficou-se sentado, de luneta no olho a dar ordens, enquanto os frades e demais padres andavam pelos escombros procurando salvar os feridos e sepultar os mortos enquanto os fidalgos como D. João de Bragança Lafões e os filhos bastardos de D. João V recolhiam nos seu palácios e jardins centenas e até milhares de desgraçados, albergando-os e alimentando-os à sua custa, durante meses, coisa que ele não fez, pois não albergou nem alimentou ninguém no seu Palácio».
Só transcrevi estes trechos de Camilo sobre a figura do Marquês [havia imensos], para dar uma pequeno exemplo de como os historiadores, quando querem, subvertem o rumo dos acontecimentos e transformam um crápula num herói nacional. Isto para lembrar que neste momento preciso está a acontecer história que daqui a uns anos será também seguramente desvirtuada.
Foi essa trafulhice histórica que fez de Francisco Sá Carneiro um mito. Estivesse hoje ele vivo, presumivelmente, ou já nos teria decepcionado, ou já tinha sido silenciado pelos malandros do regime.
Com Mário Soares, apesar de algumas intervenções importantes na vida nacional, nomeadamente no contributo que deu à nossa integração europeia, vai acontecer o mesmo. Vão dizer dele muito mais do que aquilo que vale. Enquanto político e governador, foi o que se viu... Já há até alguns jornalistas a tratá-lo por "dinossauro", por "animal político", seja lá o que isso for na mente ficcionista desses analistas.
Estou farto desta política, deste folclore de fingidores com o qual nos "obrigam" a viver. Os debates, são meras discussões, simples manifestações de invejas e ambições pessoais. Nada do que dizem tem substância, nada é verdadeiramente sério. Já nem vontade tenho para os criticar. São simples animais, tenho de me conformar a deixá-los viver. Coitados.

21 janeiro, 2008

Vida Política/Vida Militar

Agora, lançada que está a participação pública em sites e blogues (ainda que insuficientemente generalizada) sobre os mais variados assuntos, a profusão de ideias e soluções para os problemas que nos assolam é de tal ordem rica, que ficamos sem ter bem a ideia como é que, com tanta sabedoria dispersa, chegamos a este patamar de pré anarquia política e social.

Ainda assim, não falta quem - a despeito da opinião pública constituir o barómetro mais fiável sobre o estado da Nação - venha apontar, com precisão pretensamente cirúrgica, o dedo da "culpa" das crises (que são permanentes) a todos nós, numa petulante atitude paternalista sustentada em (pre)conceitos e teorias com efeitos mais do que duvidosos.

Segundo as suas teses, quando há fome, a culpa é do faminto. Se o desemprego acontece, a responsabilidade é também do desempregado. Em síntese, a ideia é esta: na vida, há uma solução para tudo (menos para a morte), descobri-la, só depende de nós.

É uma teoria supostamente animadora, muito em voga agora, mas assim mesmo, acéfala e superficial. Contudo - há que reconhecê-lo - tal visão super-optimista do Mundo, serve como luva, ao sistema vigente, para explicar as desgraças humanas, apostado em transformar as vítimas em carrascos e vice-versa. Paralelamente, atinge um outro alvo: dilui as responsabilidades do poder e das elites.

É também para isso, por exemplo, que existem programas como o "Prós e Contras", com audiência garantida e que poucos ousam contestar. Não resolvem nada, nem tão pouco esclarecem, mas "permite" que cada um diga de sua "justiça", sacuda a água do capote, deixando contudo no ar a ideia de um exemplo acabado de prática "democrática".

A conclusão que podemos tirar de tanta genialidade perdida, é que, mais vale sermos nós próprios a "inventar" o regime que queremos, porque o "Menu" que o actual regime nos oferece é pobre, vulnerável, velho e comprovadamente duvidoso.

Solidariamente apoiados pelo povo, um arrojado grupo de militares consumou o 25 de Abril, em 1974, aparentemente para corrigir defeitos ditatoriais com virtudes democráticas. Corrigidos alguns exageros, próprios de um processo revolucionário, os militares regressaram aos quartéis, como lhes competia, dando lugar ao poder civil. Como é consensual a sociedade civil não esteve à altura (e ainda não está) de agarrar o desafio.

Entretanto, o tempo, bom conselheiro que é, a par de alguma experiência pessoal e de alguns laços familiares ligados à vida militar, acentuou-me a convicção de que o Exército nada ficar a dever à sociedade civil e política em exemplos e valores. Pelo contrário.

Involuntariamente, pelos anos vividos em regime teoricamente democrático, vejo-me forçado a concluir que são mesmo os militares a parte mais pacífica e respeitável da sociedade, porque por experiência compreendem os custos de uma guerra e preferem quase sempre evitá-la. Nunca a provocam, apenas a cumprem, quando lhes é imposta.

E se existe excelência moral na esfera militar de que a sociedade civil anda carecida, é a da disciplina e dos valores. Um deles, quiçá o mais importante, é o hábito do respeito pelas regras, que raramente faz escola na classe política, com consequências negativas na sociedade civil.