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15 março, 2009

As santas palavras da Hipocratocracia*

Com as palavras nos enganam, com as palavras matam a nossa esperança.
Há palavras para todos os gostos e feitios. O Amor, por exemplo, é uma palavra quase consensual, embora nem todos a percebam, porque é a única a não carecer de rebuscadas explicações. Amor, é palavra mais sensorial que gramatical, por isso se presta tão bem à prosa e à poesia. Pertence ao estricto grupo das palavras belas com tudo o que de angustiante e sofrido, por vezes acarreta.
Depois, temos as palavras feias, pesadas, como o ódio e a traição. Existem montanhas de palavras, umas mais autênticas, outras travestidas de significado, ambíguas e pouco fiáveis. Há também as palavras jeitosas, elásticas, perigosamente flexíveis. Jeitosas, não no conceito masculino de quem aprecia as formas de uma mulher ou de quem admira o talento de um biscateiro doméstico, mas no sentido da conveniência e do oportunismo.
A espaços, o regime lança, através dos seus doutrinários mais eloquentes e respectivas máquinas de propaganda, chorrilhos de palavras e frases jeitosas que, pela sua maleabilidade, se prestam a dizer tudo, sem dizer nada. Expressões como, democracia, provincianismo, sistema, verdade desportiva, corrupção e mais recentemente, populismo, foram usadas consoante a onda do momento e com «nuances» discriminatórias de índole geográfica (como os Apitos Dourados e afins).
Da Wikipédia
O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de movimentos políticos que se propuseram deslocar, no centro de toda a acção política, o povo enquanto massa em oposição aos (o ou ao lado dos) mecanismos de representação próprios da democracia representativa.
A política populista caracteriza-se menos por conteúdo determinado do que por um "modo" de exercício do poder, através de uma combinação de plebeísmo, autoritarismo e dominação carismática. A sua característica básica é o contacto directo entre as massas urbanas e o líder carismático (caudilho), supostamente sem a intermediação de partidos ou corporações. Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional (e não racional), com o "povo". Isso implica num sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos, e prestígio (legitimidade para si), através da simpatia daquelas. Esse, pode ser considerado o mecanismo mais representativo desse modo de governar.
São estas as considerações que a Wikipédia faz do populismo, que também são as mais fáceis de compreender. O que a Wikipédia não diz, nem pode explicar, é a quem pertence a primazia de usar a palavra populismo como argumento de crítica. Se aos políticos, se ao povo.
Ora, quem mais vemos a esgrimar o argumento do populismo como arma de arremesso, são precisamente os políticos, e raramente, os eleitores. Há expressões deste género que deviam estar proibidas aos políticos por terem o mesmo impacto negativo que tem um juízo em causa própria. Senão, vejamos. Qual dos líderes políticos em Portugal, pode dar-se à honra de afirmar - sem provocar gargalhadas -, que não usou do populismo em várias ocasiões, nomeadamente durante as campanhas eleitorais? Qual? Haverá algum?
Hipocritamente falando, que é, em boa verdade, a palavra certa para o lugar de democraticamente, também nós podemos usar os nossos dogmas, as nossas manhas, as nossas palavras jeitosas. Por que não, petulância? Em bom português, significa: descaramento, imodéstia e desaforo. Qual melhor do que esta palavra, traduz o perfil do vulgar político?
*Designação autenticada pelo povo para a palavra Democracia

06 março, 2009

Onde é que já ouvi isto?

"A nossa Democracia tem fragilidades que importa corrigir: a começar na vida interna dos partidos e dos sindicatos (...). Mas também nos domínios da Justiça (...) e dos media, onde cada vez há menos jornalistas qualificados e independentes e mais "funcionários" ao serviço dos interesses que lhes pagam..."
Mário Soares/Visão
Público

Tenho, o respeito que a minha consciência de cidadão minimamente atento ao teatro da política, exige que tenha, para com o Dr. Mário Soares. Não mais. Deste homem, de aspecto afável e bonacheirão, pouco mais me resta do que a imagem simbólica de alguém que nunca conseguiu ultrapassar o nível dos processos de intenção.
Ama a Liberdade (pela qual, sempre lutou), mais pelo que ela tem de abstracto, do que pelo que ela implica de objectivo. É um teórico do humanismo , um socialista de intenções, mas decididamente, um capitalista em acções (não foi ele quem meteu o socialismo na gaveta?). Incomoda-o, seriamente (creio), o lado usurário do capitalismo, sobretudo como nestes últimos tempos, quando põe a nu, os métodos anárquicos e oportunistas da gestão dos dinheiros públicos e privados. Ainda que atento e sempre disponível para censurar o capitalismo selvagem, caminhou sempre a seu lado.
Nunca, estes últimos anos, o vimos verdadeiramente interventivo, ou pelo menos, suficientemente incomodado com a macro-concentração do poder na capital, sabendo como um homem com a sua experiência é obrigado a saber, o quanto isso contribui para a fragmentação da coesão nacional e para a consequente geração de movimentos autónomos e até separatistas.
Este comportamento ziguezagueante de Mário Soares, deixa-nos sem alternativas ,e com muitas dúvidas, quanto à sua visão estratégica sobre o país. Às vezes, procede como se apenas estivesse interessado em manter um protagonismo que o avançar da idade ameaça ofuscar. Às vezes, acho que está a brincar connôsco...