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15 novembro, 2007

Amar o Porto

Embora a pós-modernidade avassaladora que nos conduz de défice em défice até à vitória final, daqui por outro milénio, considere estas coisas pirosas, retrógradas e, quando não, reaccionárias, penso que, em muita gente, continua a existir um vivo sentimento de pertença ao Porto.

Sentimento expresso em laços que se atam, firmes, em íntimas ligações afectivas com os lugares, em entranhadas formas de identificação com a cidade, nas suas grandezas e misérias, nas suas aspirações e desconcertos. Expresso naquilo que os provincianos em geral e em particular os mais de todos, que são os da capital do Novo Império, consideram a pior baixeza o bairrismo portuense. A isso, alguns - não sei quantos - tripeiros gargalham e não será o "patriotismo global" e a modernidade do couce (querendo dizer para trás, atrás, na retaguarda onde continuamos, não obstante Mestre Camilo ter escrito que o país entrava no futuro aos couces), que os fará esquecer de tal atributo.

Bairrismos. Por exemplo, um jovem ex-autarca e ex-político (daqueles de que o país precisa activos, competentes e, sobretudo, íntegros e que, talvez, por isso se afastam desta lamentável comédia de costumes a que assistimos diariamente), escreveu-me dizendo: penso que gostaria de saber que dei um pequeno contributo, ou melhor, dois pequenos contributos para inverter a taxa de natalidade do nosso Porto. No dia 26 de Janeiro nasceram, em Paranhos, o Francisco e o João. O próximo passo pretendo que seja o regresso ao Porto, em 2008. Não é isto uma prova de amor e fidelidade à cidade? Pois que regresse rapidamente ao Burgo e, se possível, à política, onde faz muita falta. E vivam os dois neo-tripeiros!

Também de um amigo - como eu nascido na Vitória - professor catedrático na Universidade do Minho, onde se exilou, recebi carta emotiva e repleta de nostalgias da sua infância portuense, de que, pelos vistos, não quer libertar-se, nem quer esquecer. É uma maravilha e, entre outras coisas, diz (a propósito de uma foto sua, com outra companheira de infância) "Apesar da idade que tínhamos a Lili e eu, ficamos bem na fotografia, de pose, que tirámos no estúdio fotográfico que ficava, também, na nossa rua. Era um rés-do-chão, creio que pegado à casa em que vivia o Carlos Alberto Enes e sua irmã Fátima, que foi o meu primeiro "namorico"".

Na realidade pisei pela primeira vez o palco, com cinco anos pela mão da família Resende e até aos meus 15 anos fui representando, fazendo rir e cantando, normalmente em solo, inserido nesse grande clube que era o Rádio Clube Infantil. Várias árias de óperas eram adaptadas para português e de forma jocosa. Aquela que cantei com a Lili era da ópera genoveva, de Schumann. Todos os textos tinham o dedo de D. Emília Resende e de seu filho Resende Dias.

Outras se seguiram, terminando com "La Donna E Mobile", num espectáculo no Coliseu cheio, em que fui compère, na roupagem de um sinaleiro e por isso cantava um automovilé, dois automovilés e seguia-se toda a ária, com adaptação da letra nesta base.

"E, adiante, conta "Frequentei o Chave d'Ouro e o Tropical, na Batalha, onde convivi com a Dalila Rocha e o Jaime Valverde. Também na minha lista constam o Palladium, o Avis e o Estrela. Joguei muito bilhar no Palladium: livre, 104, sargento, 3 tabelas, etc. Quando veio o snooker, ao disputar o torneio da cidade, fui ao Rivoli, ao Café Novo e à Confeitaria Peninsular.

"E mais evoca "Veio-me à memória a recordação dos "trampolineiros", que vendiam banha da cobra na Cordoaria, sempre acompanhados do seu macaquinho. Recordei as vezes que, miúdo como era, acompanhava a minha criada à Adega Macedo para encher o garrafão de vinho para a semana e ir a uma casa, nos fundos, que depois passou a ser o Avis, comprar petróleo, carvão e carqueja. Acompanhei muitas vezes a minha avó ao Mercado do Anjo e ao do Peixe, junto às Virtudes, agora Palácio da Justiça.

"E ainda à frente "Frequentemente admirei a miniatura do eléctrico que se encontrava dependurado num armazém de fazendas, lembrando o desastre provo-cado por um grande "amarelo" que, ao descer a Rua das Carmelitas (e não a da Assunção), não conseguiu fazer a curva para descer os Clérigos e espetou-se nesse armazém, que à porta sempre tinha um caixeiro a chamar a clientela.

"E, depois de mais considerações, remata "A carta já vai longa, a saudade e as recordações são muitas e ao escrever sempre me vieram ao rosto algumas lágrimas." (Entendem o que é o sentimento de amar o Porto, esta cidade única, dra-mática e - apesar de tudo quanto lhe têm feito - nobilitante e inesquecível?)

Hélder Pacheco, Professor , e escritor

14 novembro, 2007

Marco António quer13 milhões do Governo

Cansado de ver a Câmara Municipal de Gaia ser apontada como uma das autarquias cujo endividamento líquido é dos mais excessivos - 225 milhões de euros -, Marco António Costa, vice-presidente da Autarquia, desafiou ontem o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, a publicar não só a lista do passivo dos municípios, mas também a da dívida do Estado aos municípios e a dos financiamentos das autarquias à administração central."

Somos credores do Governo de 13.943.454,13 de euros e não tenciono perdoar um cêntimo", afirmou, repetindo o número por extenso e acusando o poder central de "cinismo" em relação ao Poder Local. E explicou "80% da nossa dívida resultou da necessidade de construir 2600 habitações sociais.

Como não lá limite para o endividamento social, porque essa área deveria ser da responsabilidade do Estado e ele não o quer cumprir, vamos continuar a endividar-nos". E deu exemplos dos terrenos que tem cedido ao Estado: "Para escolas, para as esquadras da PSP e da GNR, para centros de saúde".

Apesar disso, Marco António Costa assegura que a Câmara conseguiu, este ano, abater mais cinco milhões de euros do que seria necessário para estancar a dívida (11,9 milhões) em excesso. E diz que isso fica a dever-se à receita extraordinária obtida pela autarquia até ao mês passado. "Cobrámos, até Outubro, mais 62 mil euros do que o apurado no final de 2006. E, até ao fim do ano, cobraremos mais 20 mil". Gaia continua a ser, juntamente com Lisboa, a Câmara cujo endividamento líquido é maior. Mas, precisamente por Lisboa ter agora um autarca socialista (António Costa), o vice-presidente social--democrata acusa o Governo de criar leis à medida das necessidades dele. "O conceito de endividamento líquido muda todos os anos. Mas, até aqui, só era possível fazer empréstimos de curto prazo para fazer face à tesouraria; desde que António Costa está na Câmara de Lisboa passou a ser possível fazer empréstimos de médio e longo prazo". HTS

Causas portuenses

Já se movimentam alguns quadrantes associativos republicanos, em relação ao centenário da implantação da República, que ocorre em 5 de Outubro de 2010 e deveria (deverá) ser uma comemoração de amplo significado e visibilidade nacional. Ao mais alto nível das instituições, também e pedagogicamente, na rede fina das associações democráticas e republicanas e no sistema de ensino e cultura.

No Porto, a Câmara podia e devia aproveitar a oportunidade para associar esta data a outra que está ligada ao republicanismo democrático e liberal da cidade, o 31 de Janeiro, e ampliar o programa comemorativo de tal centenário aos 120 anos daquela revolta, a comemorar em 2011, ou seja, poucos meses após o epílogo do 5 de Outubro.

A malograda revolta do 31 de Janeiro de 1891 foi a semente da República e, sem necessidade de grandes detalhes agora para a crónica, foi um movimento e constitui uma data que expressa com clareza o mais intrínseco da alma portuense, inconformismo e insubmissão e um ideário liberal de valores de liberdade e justiça que sempre marcaram o Porto. Sei que já lá vão muitos anos e há quem diga, às vezes com demasiada ligeireza, que a lembrança destas datas se resume ao agrupar de memórias de "meia-dúzia de nostálgicos", pois, à cidade real isso pouco interessa.

Pensamento ligeiro, embora talvez realista, mas, nesta questão de valores, nem sempre as memórias cumprem o seu dever, dando preferências a esquecimentos que pouco abonam do estado de conhecimento da História e da Cultura colectivas. Cumpre, por isso, às instituições mais directamente ligadas a estes valores promover o seu conhecimento e divulgação, associando-os à História de uma cidade ou de um país, como será neste caso o 31 de Janeiro para o Porto e a que a sua Câmara não deve ficar indiferente.

Por que associar o centenário da República, comemoração nacional, com o 31 de Janeiro, facto local e de desfecho desastroso, quando o momento será para exaltar a vitória do movimento republicano e a consolidação do seu ideário na governação e vida do país?

Porque tal associação faz todo o sentido, nacional e, sobretudo, portuense, uma vez que foi daqui, do resultado de tal desaire, que foram lançadas as ideias que haveriam de triunfar na "Revolução da Rotunda", quase 20 anos depois. Também, por ter sido na Câmara de então que foi hasteada pela primeira vez a bandeira republicana e aí perdurou algumas horas, num sacrifício generoso de cidadania que Alves da Veiga protagonizou ao lado dos revoltosos e do povo da cidade.

Nada a que o Porto não estivesse historicamente habituado; daí, como lembra Basílio Teles, "quem se mostra em primeiro plano são os paisanos desconhecidos", ou seja, o povo portuense, que, ainda segundo o mesmo autor, "foi o intérprete dos sentimentos de todo o povo português". É precisamente para honrar estas memórias e lembrar que a cidade existe e não as esquece que aqui se propõe à Câmara portuense e ao seu presidente tal associação do 31 de Janeiro ao centenário da República.

O Porto precisa de causas e de encontrar objectivos e esta pode argumentar-se não ser uma causa tão galvanizadora como seria desejável, mas até pode ser se a embalagem nacional do centenário da República for aproveitada para lhe imprimir a justa marca portuense. O 31 de Janeiro foi a nossa República, quando o país ainda não estava preparado para ela e, também é preciso dizê-lo, a capital não via com bons olhos que tal revolução se viesse a concretizar a partir do Porto. É preciso lembrá-lo e assumi-lo e ninguém melhor que a Câmara portuense para o fazer e, com isso, unir a cidade numa grande causa, sustentada e sustentável. Causa histórica e cívica, causa cultural e identitária de temperamento e alma de uma cidade.

Gomes Fernandes
Arquitecto