01 fevereiro, 2015

INÊS CARDOSO
(JN)
Precisamos de mais Quixotes
Pablo Iglesias comparou o seu sonho ao de D. Quixote, mas em vez da companhia solitária de Sancho Pança teve cerca de 100 mil pessoas a rodeá-lo. O novato Podemos mostrou músculo, ontem, e encheu a emblemática Porta do Sol, em Madrid. Numa Europa que viveu uma semana cheia de anúncios, surpresas e oscilações entre esperança e medo com a viragem histórica na Grécia, chega um novo aviso de que 2015 poderá ser um ano de mudança.
Se a capacidade de mobilização do Podemos se explica, como escrevem em Espanha analistas políticos, pelo sentimento de "vergonha" que atravessa a sociedade, também em Portugal não faltam motivos para questionarmos o legado social da austeridade. O retrato do país foi esta semana sendo desvendado em sucessivos números negros: um em cada quatro portugueses está em risco de pobreza ou exclusão social e o desemprego jovem aumentou para níveis comparáveis aos do pico da crise, em 2012.
O ruído das ruas foi ensurdecedor precisamente nesse ano, a 15 de setembro, mas a impressionante mobilização de pessoas foi arrefecendo e o balão do protesto popular esvaziou-se em tentativas posteriores de contestar o programa da troika. Desde então, surgiram novos partidos e ensaios de movimentos de cidadãos que parecem desfazer-se à nascença. Em Portugal, é difícil acreditar que algo de profundamente novo irrompa na política e quebre o tradicional ritmo de alternância entre os maiores partidos.
Essa impossibilidade é encarada com alívio pelos céticos que anteveem a ruína da Grécia e olham para Pablo Iglesias como um fenómeno resultante de ligações emocionais. O que é novo assusta e ainda bem, suspiram nesta altura tantos portugueses, que podemos assistir a uma distância segura ao experimentalismo que se anuncia em Atenas.
A verdade é que estamos há muito a demitir-nos do direito a sermos protagonistas ativos do sistema e a lutar por fazer cumprir a definição de que todos temos uma palavra a dizer em democracia - e que essa palavra deve ser audível para além dos dias de ir às urnas.
A vontade de algo novo não pode ser vista como mero idealismo inconsequente, num discurso que acaba sempre a recordar os compromissos, o défice, a dívida e as taxas de juro. Mal de nós quando deixarmos de acreditar que tudo pode ser reinventado. O grande problema dos partidos políticos é precisamente essa dificuldade em se renovarem nos programas com que se apresentam ao eleitorado e nos mecanismos para ouvir e envolver os cidadãos. Precisamos de quixotes, sim - sobretudo de quixotes cujas fantasias não sejam desmentidas pela realidade 
Nota de RoP: O negrito do texto é meu, e subscrevo-o literalmente. Aliás, já aqui apresentei o mesmo pensamento à minha maneira.






2 comentários:

alvara disse...

Muitos mais tontos ululantes teve o Zapatero aquando do atentado e das bombas da estação de Atocha e passado 4 anos deu no que deu.

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, temos que acabar com estes democratas oportunista que vão para o governo para se servirem dele, depois dizer a certas pessoas, que não são donas da democracia e que olhem para o seu passado de governantes que deixaram muito a desejar e que foram eles que nos meteram nesta sarilhada toda.
Parece que o "Já Basta " chegou, e quem nos trouxe a desgraça se afaste. Deixaram bater no fundo, e agora o que querem fazer, digam rapidamente que o vosso estado de graça está acabar.

Abílio Costa.