15 agosto, 2016

Há sentido crítico para umas coisas, não há para outras


Todos políticos, todos diferentes

Aida Hadzialic tinha bebido dois copos de vinho numa saída nocturna em Copenhaga. Quatro horas depois julgou estar livre do efeito de álcool e sentou-se ao volante. Foi fiscalizada numa operação policial e o alcoolímetro marcou 0,2 g/l sangue. À luz da legislação sueca cometeu uma infracção. E pagou por ela um preço alto.

O que diferencia esta jovem de 29 anos de tantos outros condutores fiscalizados nessa noite é o cargo que desempenhava até se demitir do Ministério da Educação. A mais jovem ministra de sempre na Suécia, e primeira muçulmana, considerou que "o maior erro" da sua vida não se coaduna com as funções políticas que exercia. "Escolho fazer isto porque acredito que o que fiz é suficientemente grave para tal."

Em Portugal, a taxa de alcoolemia apresentada por Aida Hadzialic não mereceria sequer multa. Na Suécia, não só é considerada infração como pode ser punida com pena de prisão até dois anos. O Ministério Público já se pronunciou dizendo que tomará uma decisão relativamente à governante durante a próxima semana.

O que separa os dois países não é apenas o rigor com que encaram o álcool ao volante. Vista à distância, parece quase bizarra a demissão de uma ministra considerada competente, com medidas de formação de adultos elogiadas pela imprensa, que tem além disso um capital de simpatia associado à sua história de vida: chegou à Suécia aos 5 anos com estatuto de refugiada, em fuga do conflito étnico na antiga Jugoslávia.

Por cá, não faltam exemplos de políticos apanhados em excesso de velocidade ou a cometer outras infrações não diretamente ligadas às suas funções. Como não faltam exemplos de membros de Governo que se mantêm sossegados no lugar, mesmo depois de se tornarem públicos atos que levantam dúvidas éticas e são, mais do que isso, suscetíveis de implicar responsabilidade criminal.
Volta e meia ouve-se dizer que é populista exigir total rigor e transparência a titulares de cargos públicos. Por gerirem bens comuns e tomarem decisões que afetam a comunidade, os eleitos devem estar acima de toda a suspeita e sujeitos ao máximo escrutínio. Populismo é considerar que os políticos são todos iguais, quando como eleitores nos demitimos de uma cultura de exigência e assim contribuímos para a degradação da imagem de quem nos governa. É por serem todos diferentes que devemos admirar os políticos que honram o lugar que ocupam.

(Inês Cardoso/JN)


Nota de RoP:

Vivesse eu num país civilizado, esta crónica não merecia mais que umas parcas linhas de concordância serena, própria de quem se habituou a bons hábitos de cidadania. Como não é isso que acontece neste eternamente adiado projecto de país, fica assim justificado o destaque que dou regularmente a outros artigos de natureza semelhante. 

Intriga-me, é que os mesmos jornalistas mantenham os olhos fechados para outros temas de igual gravidade que em nada abonam a sua genuidade. Por exemplo, com o centralismo, e a brutal segregação que o mesmo tráz ao país. 

Nunca os leio, a explanar com a mesma lucidez, com a mesma profundidade, o excesso de órgãos de comunicação social de todo o tipo, concentrados na mesma região e com a mesma política centralista. Não os leio revelando incómodo, ou no mínimo, estranheza, de saberem que a 2ª. cidade do país teve mais autonomia mediática e financeira em tempos de ditadura que após o 25 de Abril. Como explicarão o fenómeno? Com a demagogia do costume? Com o desprezo pelo rigor que esta jornalista do artigo (com razão) acusa agora os portugueses? 

Seria muito útil para o país real que começassem a democratizar um pouco mais o espírito crítico que mostram  noutros assuntos, como é o caso deste. De contrário, cheira-me a falso, cheira-me, talvez...a Terreiro do Paço. 



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