Não custa mesmo nada acreditar que o facto de sabermos que a qualquer momento podemos ter de recorrer aos bons ofícios de um advogado para nos defender de uma eventual acusação - fundada ou não -, nos possa inibir de censurar as suas acções, mesmo se elas nos parecem suspeitas e desenquadradas da opinião que fazemos dos protagonistas e da matéria em questão. Por outro lado, os advogados têm consciência desse ambivalente sentimento que despertam nos cidadãos, que é um misto de respeito e desconfiança, parecendo contudo sentirem-se muito confortáveis nesse duplo papel. Associada a essa imagem, têm consciência desde os primeiros anos de formação, do inconfessável poder que trazem colado à profissão, facto que não raras vezes os leva a alguns excessos.
Sexta-feira, foi finalmente lida a sentença do Processo Casa Pia e condenados a maioria dos réus, pelo menos, aqueles que eram do conhecimento público. Ter-se-à feito Justiça? Na minha opinião, não fez. E digo que não fez porque nunca será feita Justiça quando ela chega tarde. O tempo na vida das pessoas [vítimas e réus] é precioso e toda a Justiça que não tem em conta tamanho detalhe nunca se poderá orgulhar de ter cumprido o seu dever, como a sociedade lhe exige. O que se fez na sexta-feira foi a leitura [tardia ]de uma sentença, apenas. Justiça, é outra coisa.
Mas foram as declarações do advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes que mais me incomodaram, dentro e fora do Tribunal, que no caso em apreço fizeram pender a minha ambivalência emocional sobre este advogado mais para o lado da desconfiança do que para o lado do respeito. Assimilada que tenho a noção do papel de qualquer advogado - que é, defender a todo o custo os interesses e a imagem dos seus clientes, porque para tal é pago -, considero um desaforo e uma total falta de respeito pelos cidadãos colocar em causa a decisão do Tribunal e depois vir para as televisões e para os jornais defender fanaticamente a inocência de todos os arguidos [depois de condenados], incluindo a dos que nem sequer eram seus clientes. Para o efeito, usou expressões dramáticas como "Cenário de Trevas" e repetiu-as na Televisão e no jornal Público de ontem. Há quem diga que isto é recorrente, que faz parte dos jogos de defesa, mas se faz, não deixam de ser jogos muitos sujos...
Acreditar na bazófia conspirativa do senhor advogado de Carlos Cruz equivaleria a sermos levados a crer numa sofisticada e macabra cabala minuciosamente orquestrada por todas as vítimas, para a qual, toda a gente sabe, não têm meios nem imaginação quanto baste para a levar a cabo. Esvaziar, tentar descredibilizar todo o imenso rol de interrogatórios junto das vítimas é uma tentativa velada de incriminar os próprios juízes e de descredibilizar a própria sentença.
Já agora, uma vez que não ouvi o senhor advogado pronunciar-se sobre o assunto, acrescento que a profusão de entrevistas que Carlos Cruz deu à comunicação social, com ameaças mal dissimuladas em todas as direcções e nenhuma, antes e depois do julgamento, deviam ser alvo de um novo processo, porque essas são prerrogativas a que o comum arguido não está habituado nem tem direito. A cadeia está cheia de criminosos punidos, justa e injustamente, que dariam tudo para ter um décimo do tempo de antena que os media deram a Carlos Cruz para se defender. Se se revoltarem terão a minha solidariedade.
O senhor Carlos Cruz poderá ainda ter muito dinheiro e poder, mas foi acusado e julgado por um crime hediondo, e neste momento preciso é menos que um vulgar cidadão, é um criminoso, e como tal foi julgado. Terá mesmo assim muita sorte [espero que não a venha a ter], se com o previsível expediente aos recursos não chegar a pagar com cadeia efectiva os crimes de que foi acusado que destroçaram a vida de crianças pobres e indefesas.
Definitivamente, neste processo a minha comiseração só tem uma direcção: as vítimas.
Sexta-feira, foi finalmente lida a sentença do Processo Casa Pia e condenados a maioria dos réus, pelo menos, aqueles que eram do conhecimento público. Ter-se-à feito Justiça? Na minha opinião, não fez. E digo que não fez porque nunca será feita Justiça quando ela chega tarde. O tempo na vida das pessoas [vítimas e réus] é precioso e toda a Justiça que não tem em conta tamanho detalhe nunca se poderá orgulhar de ter cumprido o seu dever, como a sociedade lhe exige. O que se fez na sexta-feira foi a leitura [tardia ]de uma sentença, apenas. Justiça, é outra coisa.
Mas foram as declarações do advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes que mais me incomodaram, dentro e fora do Tribunal, que no caso em apreço fizeram pender a minha ambivalência emocional sobre este advogado mais para o lado da desconfiança do que para o lado do respeito. Assimilada que tenho a noção do papel de qualquer advogado - que é, defender a todo o custo os interesses e a imagem dos seus clientes, porque para tal é pago -, considero um desaforo e uma total falta de respeito pelos cidadãos colocar em causa a decisão do Tribunal e depois vir para as televisões e para os jornais defender fanaticamente a inocência de todos os arguidos [depois de condenados], incluindo a dos que nem sequer eram seus clientes. Para o efeito, usou expressões dramáticas como "Cenário de Trevas" e repetiu-as na Televisão e no jornal Público de ontem. Há quem diga que isto é recorrente, que faz parte dos jogos de defesa, mas se faz, não deixam de ser jogos muitos sujos...
Acreditar na bazófia conspirativa do senhor advogado de Carlos Cruz equivaleria a sermos levados a crer numa sofisticada e macabra cabala minuciosamente orquestrada por todas as vítimas, para a qual, toda a gente sabe, não têm meios nem imaginação quanto baste para a levar a cabo. Esvaziar, tentar descredibilizar todo o imenso rol de interrogatórios junto das vítimas é uma tentativa velada de incriminar os próprios juízes e de descredibilizar a própria sentença.
Já agora, uma vez que não ouvi o senhor advogado pronunciar-se sobre o assunto, acrescento que a profusão de entrevistas que Carlos Cruz deu à comunicação social, com ameaças mal dissimuladas em todas as direcções e nenhuma, antes e depois do julgamento, deviam ser alvo de um novo processo, porque essas são prerrogativas a que o comum arguido não está habituado nem tem direito. A cadeia está cheia de criminosos punidos, justa e injustamente, que dariam tudo para ter um décimo do tempo de antena que os media deram a Carlos Cruz para se defender. Se se revoltarem terão a minha solidariedade.
O senhor Carlos Cruz poderá ainda ter muito dinheiro e poder, mas foi acusado e julgado por um crime hediondo, e neste momento preciso é menos que um vulgar cidadão, é um criminoso, e como tal foi julgado. Terá mesmo assim muita sorte [espero que não a venha a ter], se com o previsível expediente aos recursos não chegar a pagar com cadeia efectiva os crimes de que foi acusado que destroçaram a vida de crianças pobres e indefesas.
Definitivamente, neste processo a minha comiseração só tem uma direcção: as vítimas.
PS-
Há nesta sentença uma decisão com a qual não concordo: os 18 anos de prisão a Carlos Silvino, a pena mais alta de todas!
Admitindo que tenha cometido mais crimes que os restantes acusados, não me parece que a pena que lhe foi aplicada seja a melhor "atenuante" para quem confessou os crimes e se dispôs a colaborar com a Justiça. Além de mais, ele próprio foi vítima de pedofilia na Casa Pia. Não entendo esta discriminação da Justiça.





