16 novembro, 2009

Estranhas semelhanças...

"Foi o tempo da euforia, da embriaguez feliz, de dança nas ruas, das picaretas, dos martelos", podia ler-se num artigo da Notícias Magazine da autoria de Ricardo J. Rodrigues sobre o dia 9 de Novembro, data das comemorações da unificação da Alemanha.
Desta excelente crónica sobre a situação dos alemães da antiga RDA [comunista], foi possível constatar um factor comum com os portuenses: a desilusão. O desemprego atingiu taxas que oscilam entre os 19 e os 25% chegando ao dobro da taxa "nacional". A depressão económica não ajuda ao optimismo levando os ex-comunistas a uma nostalgia perigosa para o Ocidente. Sondagens recentes indiciavam que os ex-comunistas consideravam melhor a vida antes da reunificação...

Aparentemente, estou-vos a falar de política internacional, sem qualquer analogia com os problemas do Porto, mas é só na aparência de facto, porque no essencial, há muito em comum. A política, de esquerda ou de direita, já não fazem qualquer sentido nos tempos que correm. Nenhuma se pode gabar de ser melhor do que a outra. Importante mesmo, seria aproveitar o que de positivo tem cada uma delas e passar a governar o Mundo com outro espírito, com outra justiça. Talvez pudesse ser esse o caminho a seguir para chegarmos ao melhor dos mundos, caso a hipocrisia dos agentes políticos não predominasse sobre a organização das sociedades. Utopia, dirão apressados alguns! Eu preferia dizer: má vontade, e puro egoísmo.

Mas vi outras semelhanças entre a desilusão dos alemães da ex-RDA e o povo do Porto. Por razões diferentes - ou se calhar, nem tanto assim -, os portuenses exultaram com a queda da Ditadura, tal como muitos alemães comunistas com o derrube do regime, mas passados alguns anos [muitos mais em Portugal], ambos sofreram uma profunda decepção.

Quando pensamos nos tempos de Salazar e Caetano, num regime de ditadura fechado, pouco dado a liberdades, e nos lembrámos que no Porto proliferavam empresas de todo o género, com sede na nossa cidade e o comparámos com o da actualidade [democrático], que nos tem espoliado de tudo o quanto era importante para a região, é muito difícil encontrar uma boa razão para concluirmos que mudamos para melhor.
Não temos jornais locais. Temos embustes de jornais regionais [o que não é o mesmo] , porque os patrões, como sabemos, estão em Lisboa. As rádios, não têm expressividade, as televisões também não. Os Bancos e as Companhias de Seguros mais poderosas desapareceram do Porto, e no futebol, tudo têm feito para destruir o único símbolo de autonomia local, que é o FCPorto. Por que havemos nós então de gostar de uma Democracia que nos consome a existência e nos quer roubar a alma?
Termino reproduzindo as palavras de Olga Haust uma alemã da ex-RDA: «o 9 de Novembro foi o dia mais feliz da minha vida. Agora estou desiludida. Lutei contra o regime da RDA, mas não contra a sua memória». Ou, com estes desabafos dos alemães orientais: «De repente, deixámos até de ter direito a falar das coisas boas que tínhamos no passado».

Faço minhas estas palavras, trocando apenas o cenário e a motivação ideológica, acrescentando:já trataram de nos retirar a fama de gente laboriosa e hospitaleira, só falta mesmo é perguntar se o Porto ainda existe...

3 comentários:

Anónimo disse...

Viva,
Gostaria de contactar os autores deste blog sobre a constituição de uma Associação para a Região Norte.
paulo.pereira@tvtel.pt

renato disse...

Caro Rui!

Plenamente de acordo com a sua opinião!

Também estamos muito desiludidos e temos muitos motivos para dizer que as semelhanças não são estranhas, porque elas são bem reais, em ambos os lados, salvaguardando as diferenças óbvias!

Abraço,

Renato

dragao vila pouca disse...

É, o Porto murchou como os cravos...

Um abraço