03 março, 2010

O nobre silêncio dos militares

Como militar que é, não se pode levar a mal que o General Loureiro dos Santos enfatize os resultados de um recente inquérito [ler no Público de hoje] que concluiu que os portugueses consideram as Forças Armadas como a instituição em que depositam mais confiança. Pelo contrário, compreende-se.
Curiosamente, ainda há poucos dias comentei com uns amigos, incluindo alguns da blogosfera, que as Forças Armadas eram - até ver - as únicas instituições que se aproveitavam neste lodaçal português. Esta constatação apraz-me particularmente tendo em consideração várias pessoas da minha família que seguiram essa dura vida, muito em especial um avô paterno. Eu "degenerei"na vocação... No meu caso pessoal, a vida militar nunca me atraiu, talvez pelo meu excessivo apêgo à Liberdade ou pelo excessivo rigor da tropa, mas o certo é, que é pela falta dele que Portugal se parece cada vez mais com um pocilga.

O meu avô [e desculpem-me estar a familiarizar demais o post] era daqueles que levava ao espírito da letra a máxima de Bismark que achava que "os Homens não nasceram para ser felizes, mas para cumprirem com o seu dever". Este conceito de vida faz algum sentido na cabeça de um militar, mas é manifestamente austero para um civil, como é o meu caso e o da maioria das pessoas. Contudo, talvez não fosse mau para todos nós se levásse-mos à prática só um pedacinho da frase de Bismark. O país, podem ter a certeza, seria outro... A reputação dos alemães arrastará eternamente consigo o nome de Hitler* e as barbáries que cometeu com a Humanidade, mas não apaga o outro lado do carácter alemão que lhe tem colado o rigor. É do rigor alemão [e dos japoneses também] que nascem produtos altamente qualificados como os automóveis Audi, Mercedes e BMW [passe a publicidade]. O que é alemão, diz-se, é bom. E é bom porque é fabricado com rigor.
Daí que, talvez valha a pena reproduzir e comentar o último parágrafo do artigo do General Loureiro dos Santos, que diz assim:
«Finalmente, as elites actuais devem assumir uma atitude participativa. Intervindo e resistindo à confortável tentação de ficar à margem. Portugal não pode ser entregue aos profissionais da baixa política, aos oportunistas, aos maldizentes e aos incompetentes e incapazes, aos desonestos e àqueles para quem os valores humanos e patrióticos não têm sentido. Aos que invocam em vão os valores éticos, mas simplesmente os desprezam.»
Cem por cento de acordo, senhor General. Mas, deixe-me perguntar-lhe: onde estão essas elites? Como se definem? Qual é a sua imagem de marca? Para quem exactamente está V. Exa. a falar?
Alô?! Alô?! Cadê as nossas elites, que não respondem? Não deve estar a referir-se aos banqueiros, pois não, senhor General? Livr'ó Deus!


*Nunca é demais recordar que foram condições semelhantes às que temos hoje em Portugal [crise económica e financeira, desemprego, oportunismo político, corrupção, usura, bandalhice], que pariram o Hitler...

4 comentários:

dragao vila pouca disse...

Elites, elites, elites...ninguém responde, ou melhor respondem alguns tristes e pobres diabos, que de elites não têm nada...

Um abraço

Anónimo disse...

E que tal lerem o texto do Prof.Costa Andrade no Publico de hoje com o titulo "Sapunarulk" ?
Está excelente.

Anónimo disse...

Isso é conversa de mitar general.

Um aparte.

Diz um provérbio:
"OS VELHOS FAZEM A GUERRA MAS QUEM
MORRE SÃO OS NOVOS".
Vê-se isto por todo o mundo militar
e o exemplo estão nos nos mártires do fundamentalismo, que são todos jovens.

Outro aparte

Eu já passei por situações menos boas na guerra do ultramar;e o que ganhei e ganho!?...nada, e quem tem os proveitos e os galões!?..os Generais.
Isso é conversa de militar que está servido.

O PORTO É GRANDE VIVA O PORTO.

Rui Valente disse...

Também estive no Ultramar e não fui para lá para ganhar nada.

Assim toda a gente ia... Agora, se me falar dos militares que foram para a Bósnia com remunerações aliciantes, essa é outra música.

De qualquer modo, o fundamental do post é realçar a postura discreta das forças armadas em contraste com outras instituições de peso da Reoública.