13 agosto, 2015

Saudade de uma Democracia que ainda não existe


Recordo, com saudade e simultaneamente tristeza, o ano de 1995 e a manifestação de repúdio promovida por várias figuras públicas da cidade do Porto (Câmara, actores e gente ligada à cultura) contra a venda do Coliseu do Porto à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) cuja determinação e sentido cívico evitou a concretização do negócio e que um ícone cultural da cidade fosse parar às mãos de oportunistas sem escrúpulos.

Passaram-se 20 anos, e quando muitos pensavam que a ousadia de açambarcar património aos portuenses jamais se repetiria, foi exactamente o contrário que sucedeu. Desde então, o Porto perdeu emissoras de rádio, o jornal Comércio do Porto, o jornal Público, e mais recentemente, tudo aponta para que perca o Jornal de Notícias, na forma e no conteúdo... O Primeiro de Janeiro ainda existe, mas é como se não existisse, tal a irrelevância da sua popularidade, pelo que, constitui um verdadeiro caso de estudo saber o que explica tão estranha sobrevivência... Podia também falar do longínquo Norte Desportivo, dos Bancos, das Companhias de Seguros que entretanto se extinguiram, ou que passaram para a capital, enquanto isto a que ainda chamam democracia percorre o seu lento percurso de abstracção até à autofagia final.     

Já não é novidade para ninguém que a principal responsabilidade para tal colapso se deve às políticas centralizadoras de sucessivos governos, consentidas pela inexistente resistência de cidadãos, políticos, jornalistas e empresários da região, a essas mesmas políticas. O poder político sabemos, está na capital, é um facto. Mas nem todos que governaram o país desde o 25 de Abril são de Lisboa, é preciso dizê-lo (alguns são do Porto e do Norte), o que não isenta os lisboetas das suas responsabilidades em matéria de centralismo, que para quem ainda conhece mal o significado, quer dizer: discriminação! Discriminação política, económica, social e também desportiva.

Bem, aqui chegado, que posso eu dizer que já não tenha dito antes? Que relevância tem a opinião de um cidadão como eu por mais razoável que ela seja numa democracia postiça? Nenhuma, excepto usar a palavra como purga, já que não posso defecar políticos regularmente, ou dar-lhes voz de prisão justamente, como gostaria (além de Sócrates, há muitos, e de outros partidos a dever-lhe companhia na prisão).

Dizia ontem a filha de Marcelo Caetano, Ana Maria Caetano, em entrevista à RTP, que não acreditava na Democracia. Vindas da sua boca estas palavras, até me podiam chocar. Mas não. Para falar verdade, descobri nela uma franqueza e uma dignidade que não vejo nos que passam o tempo a bater no peito tecendo encómios à Democracia, mas que não se coibiram de a abastardar todos estes anos [41!] com esquemas, homicídios e jogos de corrupção. Quase lhe dei razão, e digo quase porque no fundo da minha boa fé, me recuso a aceitar como utópica uma Democracia edificada por cidadãos e políticos de carácter. Essa Democracia é possível, é tolerante, é legal, mas não permissiva nem idealista. Utópica, e socialmente corrosiva, é a que os políticos que tivemos e temos ainda defendem. Uma democracia protectora para eles (ditadura liberal) e tremendamente dura e ineficiente para a população.

Receio bem que os nortenhos, e em particular os portuenses, continuem a priorizar o clube de futebol como fonte de energia reivindicativa, porque pode consolar mas não resolve os seus (nossos) problemas. Continuamos a lamentar-nos da discriminação (eu incluído), mas nada conseguiremos mudar se não formos mais interventivos e corajosos na quota parte que nos cabe. Há demasiada gente acomodada ao desconforto, à liberdade condicionada pela ameaça de desemprego. Mas, é por aí que as coisas têm de começar. Há que aprender a dizer não.

  

1 comentário:

Anónimo disse...

É verdade, também vi a entrevista. No fundo o que ela quis dizer é que esta democracia ainda não a convenceu, bom, nem a ela nem a ninguém, só interessa a uns quantos que enriquecem à custa dela.
Uma democracia nunca será uma verdadeira democracia, quando os chefes partidários sejam e continuem a ser verdadeiros Pinóquios, vendedores de banha da cobra, subjugados a uma Europa chefiada por um traste Alemão e seus parceiros de cartilha.

Abílio Costa.