14 setembro, 2016

Barroso o cherne pôdre

Pedro Ivo de Carvalho
Furão Barroso

Há múltiplas razões para assistirmos de boca aberta ao degradante espetáculo público que se seguiu à contratação de Durão Barroso para o banco de investimento Goldman Sachs, mas há uma em particular que pinta o caso de tons ainda mais surrealistas: a desfaçatez com que o ex-presidente da Comissão Europeia (CE) e ex-primeiro-ministro de Portugal se queixa de estar a ser vítima de discriminação por parte de Bruxelas. Estava à espera de quê? Da generalizada compreensão da opinião pública europeia? De palmadinhas nas costas dos principais dirigentes políticos? "Fez bem, senhor Barroso, isto não passa de uma ardilosa maquinação para o prejudicar a si e à Goldman Sachs".

Bruxelas não quer perseguir Barroso nem a gigante multinacional para onde foi destacado. Bruxelas quer, Bruxelas precisa, é de dar-se ao respeito. O mais lustroso tapete vermelho de que Barroso poderia beneficiar não foi Jean-Claude Juncker quem lho tirou, quando equiparou o antecessor no cargo a um mero lobista que terá de ser revistado tal e qual uma empregada de limpeza sempre que entrar no edifício-sede da CE. Foi o próprio Durão que dele abdicou, ao tropeçar nos pés e numa desmedida ambição pessoal. Esse tapete vermelho chama-se prestígio, credibilidade, honra, seriedade.

Porque o "sim" de Durão à Goldman Sachs não o vincula só a ele. Arrasta a União Europeia para a lama, arrasta, até, o nome de Portugal para esse terreno pantanoso onde germinam, alegremente, interesses políticos e económicos. Barroso não é inocente. E muito menos burro. Está, por isso, consciente de que, daqui a 20 ou 30 anos, não será apenas lembrado como o primeiro português a presidir à CE, mas também e sobretudo como o presidente da Comissão que saltou diretamente para uma empresa que se alimentou da especulação financeira durante um período que coincidiu com uma violenta crise económica no Velho Continente; e que essa mesma empresa ajudou a maquilhar, durante anos, as contas públicas da Grécia, com os resultados conhecidos.

Durão escolheu o caminho. Aliás, não podemos retirar da equação o papel que lhe foi destinado pelo novo patrão: usar a experiência acumulada para mitigar os efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia (já agora: o desplante é tanto que o negociador do lado de Bruxelas é nada mais nada menos do que Michel Barnier, ex-comissário na equipa de... esse mesmo, Durão Barroso).

O agora assalariado da Goldman Sachs não pode esperar ser tratado como um estadista quando preferiu ser um lobista. Não pode querer passear-se altivo pela Europa com o nome "limpo" depois de ter optado por "sujar" a imagem com um emprego que o desqualifica enquanto decisor político. É como querer estar de bem com Deus e com o Diabo. Ora, isso é incompatível.

EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO



2 comentários:

Anónimo disse...

Eu penso o que a esta figurinha o que o move para estas situações, é o tacho e o prestigio pessoal, porque de coluna vertebral estamos falados. O seu historial na vida política portuguesa todos já a conhecemos. Muitos amigos dele na altura diziam, que era importante prestigioso para Portugal que ele fosse presidir a UE para Bruxelas, Vê-se! (mesmo sendo ele uma terceira quarta escolha) este sr em Bruxelas nunca passou de uma banalidade. Agora, esta tão prestigiada figurinha sabendo quem são estes sacanas da Goldman Sachs e sabendo do lugar que ocupou em Bruxelas, simplesmente marimbasse.
Triste país que tem gente desta.

Abílio Costa.

Soren disse...

Quem conhece o termo "Government Sachs", sabe o que se passa no mundo. Quem não conhece (e é demasiada a gente que está a leste do que se passa neste mundo), procure o termo e leia sobre o assunto. Vale a pena.