10 novembro, 2016

As dúvidas sobre Trump

O primeiro ponto que deve ser levantado é a sua relação com as instituições e as regras democráticas. “Excluindo uma fenomenal mudança de personalidade, a vitória de Trump aparece como um desafio ao modelo democrático ocidental”, escrevia também ontem, em editorial, o Financial Times. Durante a campanha ele desafiou a separação dos poderes ou a liberdade de imprensa.

Conhecido o resultado das eleições, surgiu um dado inesperado: Trump vai acumular um poder imenso. Será o chefe indiscutido do Partido Republicano. Controlará as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado. O seu estilo autoritário e o odor da vitória não deixam dúvidas sobre quem vai comandar. Será ainda Trump a designar os próximos juízes do Supremo Tribunal, que rege os equilíbrios dos poderes. Trump estará na posição inversa de Obama, bloqueado pela maioria republicana do Congresso, primeiro na Câmara dos Representantes, depois em todo o Congresso.

Os medos desafiam a lógica e os próprios interesses. É acima de tudo um medo da mudança e do desaparecimento dum “antigo mundo”. Medo da erosão dos valores tradicionais. Medo do futuro. As classes dirigentes americanas (para não falar nas europeias) não souberam falar aos “perdedores” da globalização e das revoluções tecnológicas.
O choque provocado por Trump não pode ser transformado em medo, nem entendido num registo catastrófico, que incita à passividade. Os 240 anos da democracia americana não desaparecerão de um dia para o outro. Há outra América para lá de Trump. Na Europa, o catastrofismo seria a mais perigosa forma de acelerar a erosão da democracia e de estimular os seus próprios populismos.

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