09 março, 2017

Cleptocratas

Rafael Barbosa*

O elenco não é novo, mas não deixa por isso de ser impressionante: José Sócrates, deputado, ministro e finalmente primeiro-ministro de Portugal durante sete anos; Ricardo Salgado, líder do BES, com fama (e proveito) de ser uma espécie de DDT (Dono Disto Tudo) ao longo de várias décadas; Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, a dupla que durante anos geriu a PT e os seus voláteis e volúveis milhares de milhões de euros; Armando Vara, ex--ministro e ex-administrador da CGD e do BCP, os dois maiores bancos portugueses; Joaquim da Conceição, do Grupo Lena, um dos maiores potentados da construção civil.

Há poucos anos, todos integravam a lista de indivíduos mais poderosos e influentes de Portugal. Admirados e temidos. Uma verdadeira elite política, financeira e económica. Eram políticos argutos e populares, gestores brilhantes, empresários visionários. Hoje, fazem parte de uma lista de indivíduos que, tudo o indica, deverão ser acusados de crimes tão graves como corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais ou tráfico de influências.

É certo que não se devem fazer julgamentos precipitados. É certo que toda a gente tem direito à presunção de inocência. É certo que uma acusação não é sinónimo de uma condenação (e é até plausível que não se venham a provar em tribunal alguns dos crimes de que cada um destes indivíduos pode ser acusado). Mas essas garantias jurídicas, essenciais num Estado de direito, não diminuem nem invalidam o inevitável julgamento político, moral e ético (no fundo, a verdadeira justiça popular), para os quais já existem factos mais do que suficientes. E não é arriscado concluir que, independentemente do que venha a acontecer a partir do próximo dia 17 (data limite para ser concluída a acusação do Ministério Público), podemos olhar para esta lista, já não como a de um conjunto de homens ilustres, mas como um grupo de gente desprezível. Gente que usou o seu talento e o seu poder em proveito próprio e dos seus parceiros e à custa da comunidade e do bem comum. Se o país entrou em bancarrota, se a miséria social alastrou, se hoje somos confrontados com uma dívida pública insustentável, isso também se fica a dever à cleptocracia que esta (e outra) gente cultivou durante as últimas décadas.

Haverá, como sempre, um derradeiro grupo de fanáticos ruidosos que reclamarão, até ao último recurso transitado em julgado (e até para além disso), a inocência e respeitabilidade de todos eles, propondo, em alternativa, a tese da cabala protagonizada por um punhado de procuradores e juízes. Creio que a maior parte dos portugueses não se deixará ludibriar. O tal julgamento político, moral e ético não carece de uma sentença final do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal Constitucional ou do Tribunal de Justiça da União Europeia.

* Editor Executivo


[O sublinhado, é da responsabilidade de RoP ]


Nota de RoP:

Depois de tantas vezes criticar o jornalismo oportunista, concretamente a contribuição que a nova administração do JN vem  dando aos interesses centralistas, é natural que haja quem estranhe continuar a ler este jornal e a publicar artigos de alguns dos seus colaboradores. 

A primeira causa, prende-se com um hábito antigo de leitura diária que me custa largar. O vício começou, há muitos anos, ainda trabalhava em Lisboa. Comecei com o «República», mais tarde com o «Diário de Lisboa», o «O Jornal», e posteriormente pelo «Jornal Novo». 


De jornais portuenses, havia, além do JN, o «Comércio do Porto», o «Primeiro de Janeiro»,  «o Diário do Norte» e no desporto o «Norte Desportivo». Foi uma época rica em termos de imprensa, altamente eclética, democrática e qualificada. Até o jornal A Bola se podia ler, sem se ficar (como hoje acontece) enjoado. Isto, traduz o quanto regrediu democracia em Portugal, em termos de comunicação social, tanto em quantidade, como em qualidade ...Como ainda andávamos a saborear a Liberdade, tivemos de tolerar uma excepção negativa, qualquer coisa  parecida com o Correio da Manhã de hoje: o pasquim «O Diabo» da hiper-reaccionária Vera Lagoa (um resquício do que julgávamos finado).

Outra das razões para não ter acabado definitivamente com a leitura do JN, é que, embora a política editorial tenha reforçado a matriz centralista, ainda lá trabalham alguns jornalistas que vão riscando umas coisas interessantes [como é o caso deste]. Submissos - é lamentavelmente verdade -, mas ainda assim dignos de serem lidos.

PS-Isto hoje, correu-me mal. Peço desculpa pela péssima inserção ortográfica, mas não tenho tempo para resolver o problema. 

1 comentário:

Anónimo disse...

Estes seres de muita inteligência homens de outra galáxia não passavam de uns burlões que viviam da fachada e que na sombra lesavam a pátria a coberto de outros iguais ladrões muito inteligentes fazendo do povo burro.
Hoje temos uma Banca ladra que nos suga e que os nossos governos são cumplicies. Tenho nojo desta gente política que tanto criticaram os do tempo da outra senhora, mas hoje à sombra da democracia são iguais ou piores infelizmente.

Abílio Costa.