04 novembro, 2009

O empreendedorismo da tanga

Ainda que os temas abundem, e quase sempre pelas piores razões, algumas limitações de tempo impediram-me de começar a semana com o post da praxe a partir de 2ª. feira. Que me desculpem pois, todos aqueles, que por curiosidade ou por gosto costumam visitar o Renovar o Porto. Há mais vida para além do nosso querido e tão mal tratado Porto.
A semana passada no Porto Canal, e uns dias depois, num suplemento do JN, assisti [e li] a uma entrevista a 4 homens do norte [agora temos de escrever homens do norte com minúsculas] recheada de optimismo e esperança. Não interessa para o caso identificar os ilustres empresários que, com um entusiasmo invejável, quase conseguiam convencer-me a sentir orgulho pelas inexploráveis virtudes dos portugueses. Todos andavam radiantes e pelas mesmas razões: tinham investido em Angola e a coisa parece que estava a correr às mil maravilhas...
Como sempre acontece neste tipo de entrevistas, o optimismo destas pessoas mal se distingue da fanfarronice pedante de uma grande parte dos chamados "homens de sucesso". E por que sim e porque deixa, lá temos de gramar o fastidioso discurso da tanga, o recordar dos feitos dos nossos antepassados acompanhado de verdadeiras revelações sobre a alma lusitana. Os portugueses se quiserem, são capazes de coisas fantásticas - dizia um deles. Este tipo de expressões só tem uma única finalidade: é enfatizar a vaidade própria procurando moralizar hipocritamente a pobreza dos menos dotados. O resto, como já disse, é tanga.
Acresce que, a entrevistadora do Porto Canal, uma espécie de versão portuense da tia lisboeta, limitou-se a fazer aquele tipo de perguntas que os entrevistados apreciam, isto é, a ficar-se pela rama destes casos de empreendedorismo vitorioso.
A ninguém ocorreu - nem no Porto Canal, nem no JN -, perguntar aos garbosos empresários, se este súbito despertar visionário para investir em Angola não estaria relacionado com o baixo custo de mão de obra daquele país, ou então, porque é que não o fizeram na Lusitânia [agora é assim que chamo este país que não é o meu]. Certos jornalistas, ou lá o que sejam, só se lembram de ser incómodos [e às vezes até, mercenários], quando alguém lhes abana com umas boas centenas ou milhares de euros para se portarem bem...
Os economistas mais reputados, não são capazes de explicar ao povo qual o nível de riqueza exigível a um empresário para começar a pagar aos seus colaboradores ordenados dignos, segundo um princípio inverso ao que vem sendo seguido há séculos, que consistiria em aproximar os salários mais baixos do pessoal menos qualificado, dos extravagantemente mais altos, pagos aos quadros superiores das empresas. Não o fazem, simplesmente porque este nunca foi, nem será, um problema económico, mas sim, e em primeira instância um problema social escandaloso!
Basta, mas basta mesmo, olhar para a incompetência revelada pelo actual Administrador do Banco de Portugal, para qualquer pessoa de bom senso perceber que as centenas de milhares de euros que recebe, correspondam minimamente ao preço da meritocracia. Bem pelo contrário, esta filosofia capitalista premeia e estimula a demeritocracia! O roubo com o aval do Estado!
É por isso, e só por isso, que alguns "optimistas" da nossa praça andam para aí a vender o optimismo dos seus êxitos empresariais neo-colonialistas como banha-da-cobra.
Já sabíamos que o Salazar foi o símbolo mais retrógrado da colonização, agora, o que não esperaríamos, volvidos 34 anos, é que os "democratas" da Lusitânia bastarda eram capazes de fazer pior: colonizar o norte do país através de Lisboa, e agora, andarem numa azáfama travestida de empreendedorismo, a recolonizar uma ex-colónia governado por um homem a quem, em surdina, acusam de Ditador...
Ó Maitê Proença, escusavas de pedir desculpa!

3 comentários:

dragao vila pouca disse...

Será que vão com o objectivo deixar qualquer coisa para no futuro as "obras" aproveitarem a todos, ou vão para explorar e sacar, não deixando nada que aproveite aos dois povos?

Quanto aos jornalistas, meu caro Rui, há muito poucos com a espinha direita. A maioria aceita tudo, desde perguntas previamente conhecidas até respostas que não dizem nada.

Um abraço

Anónimo disse...

Estava a gostar tanto de ler até chegar ao "colonizar o norte através de Lisboa". Mas que raio! Continuamos a manter este minúsculo bocado de terra enterrado em mesquinhices medievais e bairristas traduzidas em divisões Norte/Sul?

Caramba.. um artigo tão bem escrito estragado por um comentário divisionista e retrógrado..

Rui Valente disse...

Anónimo desconsolado:

as verdades estorvam... Para outra vez, falo-lhe do céu azul de Lisboa e do glorioso, está bem?