06 janeiro, 2010

Miguel Sousa Tavares

Há poucos dias atrás, tinha na caixa de comentários um anónimo recomendando a leitura de um artigo de Miguel Sousa Tavares no jornal a Bola sobre as pulhices que os tios e afilhados do centralismo continuam a fazer ao FCPorto. Compreendi muito bem a intenção do comentador. Tratava-se de mais um dos excelentes artigos do MSTavares sobre mais umas tantas provocações execráveis daquela gentalha lá de baixo que é sempre importante denunciar e que o Miguel sabe fazer como poucos.
Apesar disso, respondi instintivamente que não iria comprar a Bola para ler o artigo do Miguel, porque me recuso sempre a fazer publicidade [e, gratuita] a produtos que abomino. Sei também que a Internet e as vias de acesso que ela nos faculta, quase nos permite ler jornais sem os adquirir, mas a minha rejeição por aquele pasquim é tão vincada que não suporto a ideia de imaginar que haja um portista no planeta que gaste o seu dinheiro com ele sem perceber que está a sustentar quem tem contribuído ferozmente para o depauperamento económico e social da cidade do Porto e move montanhas para destruir o seu clube mais representativo.
Quando, em 1998, o jornal O Jogo ainda não se tinha vendido ao Centralismo [quando digo jornal, digo os donos do jornal], enviei uma carta ao Miguel Sousa Tavares reprovando o facto de, sendo ele portista, não prestar a sua colaboração neste jornal em vez de o fazer num outro [ A Bola] que, além de ser de Lisboa é declaradamente anti-portista. Mal sabia eu, quão ingénuo era por pensar que o jornal O Jogo nunca iria passar-se para o lado de lá, porque, apesar dessa submissão oportunista, naquela época era um jornal mais digno, razão pela qual aconselhava o Miguel a colaborar com ele.
Sabem qual foi a resposta? No ponto 6 da sua carta [porque abordei também o facto de ele ser contra a Regionalização], justificava assim a sua preferência pela "Bola":
"A Bola não é o Record nem é a SIC. É substancialmente diferente e é uma leitura onde, quer se queira quer não, a nossa voz chega a milhões de portugueses, até a emigrados no mundo inteiro. É assim que eu lhes farei chegar as razões de ver portista [que não é o mesmo, necessáriamente, que as razões de Pinto da Costa - e nisso consiste a minha "independência"]
Sobre a Regionalização, escreveu o seguinte: "Sou contra a Regionalização não por preconceito contra as minhas raízes, mas por uma questão de patriotismo e bom-senso, Várias vezes tenho explicado já essas razões mas, se as quiser resumir, é isto: eu, antes de ser do Porto ou de Lisboa ou do Algarve, sou português. E o único trunfo que Portugal tem no Mundo de hoje é a sua unidade nacional*, que supera a sua pequena dimensão. Juntos, teremos tanta força como a Catalunha, a Baviera ou o Piemonte. Regionalizados, valemos o que vale o Norte ou o Alentejo, ou o Algarve por si sós: isto é, nada."
A carta era relativamente longa, e não merece a pena enfadar os leitores com os detalhes, porque o que lá vinha escrito de substancial foi isto.
Há muitas coisas com as quais concordo com Miguel Sousa Tavares, mas há outras tantas com as quais estamos nas antípodas. Uma delas, são as touradas. Ele gosta, eu detesto. A outra, quiça mais relevante, é a Regionalização e o reconhecimento dos méritos do jornal A Bola... Há pessoas cuja inteligência parece ganhar mais brilho quando abordam determinados temas, e se torna mortiça com outros, mesmo com a experiência que o tempo as obrigaria a adquirir.
Eu, também já fui patriota, e por essa razão prestei-me a ir combater para Moçambique, quando podia deixar-me ficar em França, onde me encontrava, antes do serviço militar e quando outros fugiam do país e da guerra colonial em nome da Democracia...
Hoje não faria o mesmo, porque não reconheço a minha pátria. Por qualquer estranha razão, ainda estou ligado à minha cidade do Porto, e por essa sim, ao contrário do Miguel, estaria disposto a combater. Os tempos mudaram, eu mudei, mas decorridos 18 anos, o Miguel deve continuar a pensar que está numa pátria una e economicamente forte, como a Catalunha...
OBS.
Tenho ainda comigo a carta do Miguel Sousa Tavares, da qual assumo toda a responsabilidade pelo que dela reproduzi.
*O negrito é meu.

8 comentários:

dragao vila pouca disse...

Caro Rui, sempre tive uma grande admiração pelo Miguel Sousa Tavares, Portista, ao ponto de ter quase tudo o que ele escreve sobre o F.C.Porto, de há muitos anos a esta parte - ainda ele não escrevia na Bola, mas no Público. A maioria das vezes concordo com o que ele escreve, outras vezes discordo, mas como portista, louvo-lhe a coragem de dar a cara e em Lisboa pelo F.C.Porto - não deve ser fácil e se compararmos com outros escrivas e paineleiros, então, é uma diferença abismal!
No resto, no Miguel anti-regionalista, aí, já estou em total desacordo e custa-me a entender...

Um abraço

Anónimo disse...

O M.S.Tavares não é o dono da verdade.Gosto muito das vezes de
ler os seus artigos ou ouvir os seus comentários, onde posso estar ou não de acordo com ele.
Até estarei de acordo em ele escrever para o pasquim da bola, porque sem dúvida é o que tem mais
tiragem; basta ser da capital e vermelho.
Quanto a regionalização,touradas
fumar em recintos públicos... não estou de acordo de maneira nenhuma.
Por isso digo que ele não é o dono da verdade.

O PORTO É GRANDE VIVA O PORTO.

Soren disse...

Ningué é dono da verdade e creio que o Miguel de Sousa Tavares é um espirito livre com ideias proprias que nao querera ser dono de nenhuma verdade.
Tera os seus ideais.

Eu sou contra o fumo em espaços publicos. Gosto de tourada e sou a favor da regionalizaçao e contra a existencia de autarquias e actuais governadores civis.

Mas como ja expressaei por diversas vezes neste blogue nao tenho vocaçao para martir.

Nos meus tempos de estudante da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto muitas vezes debati as regioes confessando-me sempre a favor da regionalizaçao. Qual era o meu espanto por ver, gente do Porto, nascida na cidade e na regiao que reconhecia os roubos lisboetas e ao mesmo tempo ignorava o debate das regioes.

Ha duas formas de controlo, desmoralizaçao, que causa apatia e controlo pelo medo. Estas duas formas de controlo sao utilizadas em todo o mundo. Portugal nao foge à regra.

Medo o Sousa Tavares nao tera. Nao me parece desmoralizado.

Por acaso adorava discutir isto com ele. Porque continuo sem entender o porque de ser contra a regionalizaçao. E contra que tipo de regionizaçao é contra. Quais os tipos de regionalizaçao que fazem sentido para ele? Nenhuns?

Para Portugal ser mais homogéneo, precisa de ser regionalizado. Talvez nesse dia possamos ser mais unidos do que somos hoje. E muito mais competitivos esta claro.

Para mim a regionalizaçao é um imperativo economico e nao um motivo para o divisionismo.

Rui Farinas disse...

Penso que MST, de quem admiro a independência, tem razão em continuar a colaborar na Bola, pela difusão alcançada pelos seus escritos em defesa do FCP. Deixar de o fazer em protesto pela linha anti-FCP do jornal, podia ser um gesto muito bonito mas só ia prejudicar-nos porque seria calar, na imprensa, a mais credenciada voz pró-FCP.
Mas MST não tem razão na sua sanha anti-regiões e anti-autarquias(?!). O argumento que usou na resposta que lhe deu, é fraco e nada convincente. Mas que quer, no melhor pano cai a nódoa!
Um abraço

Anónimo disse...

Portugal, país uno e indivisível, onde pelos vistos ser portista, nalgumas regiões, carecer de coragem, diz muito da sua unidade.
E de patriotismos também eu fiz um curso intensivo, quando a tropa mo prodigalizou nos mais de dois anos que me fez passar em Angola. Fiquei formado em "patriotismos"...
Agora sou mais pragmático. O Douro a fronteira!

Rui Valente disse...

Caro Soren,

eu também não pretendo monopolizar a verdade, de mais a mais com a relatividade que ela tem. Mas, há os factos e a coerência entre aquilo que pensamos e o que fazemos.

Nesse aspecto, concretamente em relação ao anti-regionalismo do M.S.Tavares, só podemos compreender a sua posição face ao distânciamento efectivo que tem da realidade portuense.

Ele é portista, sem dúvida, mas já pouco tem de portuense, senão já teria mudado de ideias. Falar numa pátria una quando só há olhos e barriga para Lisboa,não é ter ideias diferentes, é discutir o sexo dos anjos.
O centralismo não afecta só o FCPorto,porque apesar dos ataques de que é alvo, lá vai resistindo. E quer ele goste ou não de Pinto da Costa, afecta toda a vida da nossa cidade, coisa que ele parece não querer reconhecer, o que é, no mínimo, estranho...

Um abraço

Anónimo disse...

Bravo Rui Valente
Mais nada será preciso dizer.
Cumprimentos

pc disse...

Idem (Bravo Rui Valente).
Tenho todo o orgulho em pensar como você, e contudo, sinto que estou a pensar pela minha cabeça e ... com toda a independência.