06 outubro, 2010

O PODER MEDIÁTICO NÃO DEIXA EXTERMINAR O CENTRALISMO

Sir James Goldsmith (26/02/1933-18/07/1997) não se tornou célebre por ter dito que quanto maiores são as instalações da sede de uma empresa mais decadente está a empresa. Mas essa asserção ganhou força metafórica quando aplicada ao centralismo: a todo o género de centralismo.

Importa menos, aqui, que Goldsmith tenha sido um predador da bolsa e da finança, um financeiro frio e obstinado, que nunca virou a cara a um desafio e se confrontou directamente com os meios de comunicação e os jornalistas que o criticavam ferozmente e pretendiam abatê-lo.

O que interessa, agora, realmente, é a substância da metáfora com que iniciei esta crónica, pois ela traduz, literal e profundamente, o pensamento de um homem que cedo percebeu os riscos do gigantismo e da concentração: nuns escritórios; numa empresa; num partido; numa organização multipartidária; num Estado-nação.

Talvez se perceba melhor, assim, por que é que Goldsmith se evidenciou como eurocéptico, fundando, no Reino-Unido, o Partido pelo Referendo (Europeu) e representando a França como membro do Parlamento Europeu, eleito pela "Majorité pour l'autre Europe" ("Maioria pela outra Europa").

Este homem contraditório (nascido no seio de uma família judaica, conservadora e rica, financiador de inúmeras organizações não governamentais, que combateu activamente a fome no Mundo e afrontou vários tipos de corrupção), salientou-se como inimigo visceral de todo o tipo de centralismo.  Por isso, não gostava de sedes de empresas enormes. Nem apreciava hiper-organizações centralistas.  Por isso, contrariava a concentração de poderes e estimulava a partilha de responsabilidades no topo das organizações e das suas hierarquias.  Por isso, foi eurocéptico. Por isso, revoltou-se contra o domínio das nações mais poderosas e influentes na União Europeia. Goldsmith era anti-centralista.

SECOU O RESTO DO PAÍS
O Centralismo é (conforme especifica o Houiaiss) um sistema de organização que leva à centralização, à concentração num mesmo centro ou local, à intensa concentração de poder nas mãos de um centro único, especialmente de decisões e acções.

Portugal tornou-se um país com uma força centrípeta polarizada na sua cidade-capital. O centralismo potuguês é um estado de espírito que significa mais de tudo (tudo!) para quem o defende e protege.

Quem se confronta com o centralismo sente-se impotente e chora de raiva por saber que nunca (nunca!) tem argumentos e meios suficientes para o combater.

O centralismo actuou como um eucalipto (imenso!):  secou o resto do país.  Quem pode negoceia com o estrangeiro ou foge para o estrangeiro. Os grandes negócios estão marcados em Lisboa. Os empregos mais bem remunerados existem em Lisboa. Quem quiser desempenhar funções de topo em grandes empresas e instituições tem que ir para Lisboa (basta ver os anúncios do "Expresso").  Quem se evidencia no resto do país é atraído para a capital.  Pela política.  Pelo mundo financeiro. Pela actividade económica. Pelo poder dos mais influentes meios de comunicação, que, divertida ou insensivelmente, omitem ou ignoram o que acontece no Resto e não proporcionam a atenção justa ao que de melhor aí se faz.

Pesporrente, arrogante e intolerante, o centralismo gerou uma maioria silenciosa (uma esmagadora maioria), que um dia deste vai revoltar-se, explodir - só não se sabe as consequências.

VAMPORIZAÇÃO DEPOIS DA ENGORDA
O centralismo, primeiro, engordou o Estado e, agora, vampiriza-o.

Portugal tem dois problemas fundamentais: emagrecer o Estado e exterminar o centralismo. Mas estas acções simbióticas parecem condenadas ao fracasso: como extinguir centenas de milhar de empregos bem rumenerados? Como acabar com milhares de administradores de empresas públicas, privadas, público-privadas e de institutos públicos e fundações - e os seus vencimentos milionários e as suas mordomias sumptuárias?

Não é possível pensar em qualquer forma de regionalização - nem sequer de uma verdadeira descentralização administrativa - sem exterminar o centralismo. O poder mediático não deixa (alimenta-se dele): porque, na realidade, está ao serviço dos poderosos da finança, da economia e da política. Todos entrelaçados em interesses que não se sabe onde começam e terminam. Mas não servem, autenticamente, o desenvolvimento equilibrado do país.

Sir James Goldsmith não se sentiria bem neste Estado-Nação.

[Alfredo Barbosa, consultor de Comunicação e Doutorando da UFP]

3 comentários:

Portucalense disse...

http://www.ionline.pt/conteudo/81728-centralismo-mafioso

E se chegou a ler este?

Anónimo disse...

Vou ser breve para dizer o seguinte:
O centralismo só serve as ditaduras para que o ditador tenha o poder na mão.
Que se fodam as democracias centralistas.

O PORTO É GRANDE VIVA O PORTO.

dragao vila pouca disse...

Principalmente, quando os donos do poder mediático, em Portugal, vivem dos favores do centralismo e a bajular o centralismo.

Um abraço