07 julho, 2011

Trinta e seis "Tzadikim"*

Na última da notável série de entrevistas "Beleza e consolação", em tempos transmitida pela SIC, a questão em cima da mesa (uma mesa onde se sentava gente como, entre outros, Steiner, Martha Nussbaum, Coetzee, Soyinka, Germaine Greer, Tatyana Tolstaya...) era: "Por que vale a pena viver?". De todas as respostas, ficou-me na memória a de Steiner: "O único motivo que me ocorre é o meu cão". Já não me lembro se Jane Goodall estava presente, mas estou certo de que a sua resposta seria semelhante.

Ontem tive uma demorada conversa com um velho amigo que, nas últimas décadas, apenas encontrara ocasionalmente. Ao fim de 44 anos de vida profissional em tribunais, o meu amigo estava inteiramente descrente do Mundo e dos seres humanos em geral (e do Mundo e seres humanos dos tribunais em particular). E falou-me longamente da maldade.

Aos 20 anos, a minha geração partilhava sonhos desmesurados e não se contentava com menos do que com o impossível: transformar o Mundo e mudar a vida. Hoje, a maior parte dela vive, com desprezível sucesso, da maldade. E, em vez da vida, importa-lhe a vidinha.

Depois do encontro com aquele amigo dos meus distantes 20 anos senti-me absurdamente bem. Os cabalistas dizem que o peso moral do Mundo assenta sobre os ombros de 36 "tzadikim", homens bons que ninguém, nem os próprios, conhece. Se assim for, eu acredito que soube ontem de mais um além de Steiner e de Jane Goddall.
[No JN]


*Tsadic, tzaddik ou tzadik (em hebraico: צדיק, "justo"; pl. צדיקים tzadikim; pronuncia alternativa, tsaddiq) é um título dado geralmente a personalidades no Judaísmo Ortodoxo considerada santa, tal como um mestre espiritual ou rebe. A raiz da palavra tsadic, é tzedek(צדק), que significa justiça ou integridade

06 julho, 2011

Cada macaco no galho próprio


Os tempos que correm são tão inintelegíveis e sinistros que me amplificam a compreensão sobre determinado tipo de reacções de alguns comentadores mais precipitados. A sobrecarga de informação negativa que nos entra pela casa, é tão avassaladora, que nos altera a disposição, por mais que tentemos evitá-lo. Porém - será bom lembrá-lo -, um blogue, sendo um espaço livre de comunicação e de opinião, não tem a obrigação de propor alternativas, ou muito menos soluções para os problemas do país, que são muitos, como sabemos. O que não quer dizer, que não o possamos fazer [e já o temos feito], em casos pontuais. Mas não é esse o nosso papel. Às vezes, as pessoas esquecem-se disso, e fazem certo tipo de comentários que mais parecem dirigidos a deputados ou  ministros. Ora, nós não somos, nem uma coisa, nem outra. 

O que nos devia incomodar a todos, era sim, esta paranóia que nos andam a impingir, 24 sobre 24 horas, com programas e debates, com participação de antigas figuras governativas, cujas competências técnicas, e sobretudo políticas, não foram para além do sofrível, face à ineficiência reflectida no nível de vida global  da população. Nunca fomos capazes de sair da cauda dos países mais atrasados da Europa, e quando nos tentaram fazer querer no contrário [estou-me a lembrar do oásis de António Guterres], era mentira. O que agora está a acontecer, a nível de endividamento público, começou há muitos anos, e desde então, não houve um único governo capaz de o impedir, ou no mínimo, de o assumir. Tudo estava bem. O Sócrates foi apenas um clone extremado daquilo que outros fizeram antes, incluindo o actual Presidente da República. 

Aquilo que tem orientado as minhas críticas, mais do que a discriminação concertada ao Norte, é a pobreza de uma Democracia que nos impede de intervir activa e eficazmente junto dos organismos públicos sem necessidade de passar pela militância política. Por outro lado, a vontade popular de intervir na coisa pública é diminuta, receosa mesmo, e ainda com muitos fantasmas do passado.

Num país á beira da bancarrota, é inexplicável e um tanto provocante para o povo, que haja tanta gente a dar pareceres sobre política económica e com tanto tempo disponível para gastar em televisão, sem contudo daí se retirar qualquer benefício concreto para a comunidade. Diariamente, somos bombardeados com todo o tipo de debates onde o grande público praticamente não tem lugar, a não ser [ e só em certos casos], como espectador. A oportunidade é invariavelmente dada aos infractores, àqueles que se distinguiram pela repetição de outras incompetências, quando o que se lhes exigiria era uma sóbria remissão ao silêncio, ou na melhor das hipóteses, a assunção dos próprios erros. Mas não. Continuam soberbos, a ser tratados pelos media como autênticas vedetas, como pessoas altamente qualificadas...que não são. 

Como querem então que sejam os bloguers, ou mesmo os jornalistas, a apresentar soluções? Não estaremos nós a inverter os papéis? Não tarda nada, pedem-nos que governemos gratuitamente. Só falta mesmo, é mandarem-nos levar a  «politólogos/ex-políticos» como Marques Mendes e Rebelo de Sousa, o cheque do ordenado aos estúdios de televisão, onde já estão a receber uma boa avença.

Haja lucidez, porque no ar anda  confusão a mais.

PS-Recomendo a leitura deste post. É um caso típico de um cidadão comum, mas lúcido e com ideias bem estruturadas, que de vez em quando não se limita a criticar: propõe. O que resta saber, é se num país cujos governos são autênticos mares de ignorância e desperdício, propor publicamente soluções inteligentes, não será o mesmo que dar pérolas a porcos... 

A sugestão é melhor que a opção


Concordo 300% com a sugestão aqui apresentada para
 inserção de publicidade sobre as camisolas do FCPorto.
 Já o ano passado abordei aqui este assunto, pelos vistos,
sem sucesso. É visível e notória a diferença entre a opção
escolhida, com o emplastro inestético e de cor nem sempre
compatível com os tons das camisolas, uma com o fundo
preto e outra com um azul piscina quase esverdeado.



05 julho, 2011

Os vira-casacas


Está nos livros: onde existe uma grande dependência do Estado, mudanças no poder trazem consigo mudanças na opinião de muitos. Não antes, mas depois ou, pelo menos, a partir do momento em que se torna óbvia a derrota da "situação", como se dizia antigamente. O povo crismou-os: "vira-casacas". Os mesmos que até aí aplaudiam, servilmente, o poder descobrem, subitamente, o seu engano. Coerentes na sua vocação de bajuladores, continuam a aplaudir o poder. O novo. Encontramo-los entre os empresários, grandes ou pequenos, os gestores, públicos ou privados, os comentadores. Por toda a parte. Representam o pior da espécie humana, se é legítimo atribuir-lhes essa pertença pois falta-lhes coluna vertebral. Governo que se deixe rodear por eles, lhes dê ouvidos ou se deslumbre com os encómios em que se especializaram, está a meio caminho do autismo. A outra metade será da responsabilidade dos que vêem a política como se de um jogo de futebol se tratasse. Em conjunto, actuam sobre a componente narcisista que há em quase todos os homens públicos. Falam-lhes da história e de como esta os verá. São piores do que as sereias o eram para Ulisses. Alguma dessa gente já apareceu, ou reapareceu, em força, nestas duas semanas.

2. As medidas simbólicas que o Governo tomou foram erigidas, por eles, quase em reformas estruturais. Vai-se a ver e parece que os membros do Governo não pagam quando viajam pela TAP (vá-se lá saber a razão!) pelo que, para além do bom exemplo, a medida apenas granjeou a simpatia das tripulações da transportadora área nacional que, nesses voos, terão mais lugares em executiva para usufruírem das suas mordomias. A extinção dos cargos de governador civil e director-adjunto dos centros distritais de Segurança Social vão na direcção certa, conquanto o impacto nas contas seja diminuto. Quanto às poupanças decorrentes de um menor número de ministros e secretários de Estado, não são certas (depende de quanto vierem a custar os assessores) e podem ser pírricas se, com a constituição de superministérios, o Governo perder em eficácia numa altura em que era decisivo que funcionassem bem. Numa sociedade em que o simbólico tem importância, estas decisões são acertadas. Dão um sinal e apontam um sentido de mudança. Porém, se o Governo se deslumbrar com a amplificação que os seus zelotes lhe deram, corre o risco de repetir o percurso do anterior executivo.

3. Mesmo perante uma medida intrinsecamente má - o aumento de impostos associado à retenção do equivalente a metade do 14.º mês, isto é, cerca de 3,5% do rendimento - muitos não tiveram pejo em a elogiar. Como se uma medida pudesse ser boa ou má consoante a cor de quem a toma. A medida é má. Ponto final. Não há benefício da dúvida ou estado de graça que lhe valham. Porventura a menos má, em comparação com outras. Não sabemos, nada nos foi dito. Talvez se tenha tornado inevitável perante o propósito, que subscrevo, de dar um sinal de garantido empenhamento no cumprimento dos objectivos estabelecidos. Em excesso de zelo, alguns escribas e comentaristas invocaram como justificação a eventual derrapagem das contas públicas cujo estado teria sido ocultado. O Governo não o fez, não sabemos se para manter a promessa de Passos Coelho, se por saber não ser seguro que os resultados no 1.º trimestre comprometessem o objectivo de 5,9% para o défice anual. Saúda-se a honestidade intelectual, bem como se aceita que, por precaução, tenha posto mais peso nestas medidas (isto é, aumentado a percentagem e o âmbito da tributação).

4. Mais receita é uma forma de combater o défice. Errada - Portugal já tem uma carga fiscal excessiva. Inevitável - no curto prazo, não é fácil cortar significativamente nas despesas. Palpita-me que não ficaremos por aqui, nas receitas, e anseio por saber o que se vai fazer do lado da despesa e, em especial, no que toca ao estímulo à competitividade e emprego. Só então se poderá fazer uma análise séria.
[No JN]

01 julho, 2011

A direita não tem emenda...

...sofre de um crónico desprezo pela cultura profunda. O grande "defeito" da cultura, é tornar as pessoas um pedacinho mais lúcidas. É o que a direita pensa, mas nunca o irá confessar.

Há quem acredite não existirem diferenças entre esquerda e direita. Politicamente, e se acreditarmos que o PS é um partido de esquerda, talvez não. Intelectualmente ainda há muitas diferenças. Este Governo acaba de o provar, e o anterior, nem com o charme da Gabriela Canavilhas conseguiu provar o contrário.

Abrunhosa diz que "o Porto está a competir com a Rechousa" em termos culturais

F.C Porto assume gestão do Porto Canal em Agosto

Adiou-se por um mês. O F.C Porto começa dia 1 de Agosto a tomar conta da grelha do Porto Canal. Numa primeira fase, está prevista a inclusão de espaços informativos acerca das actividades desportivas.

Só em Janeiro se apresentará uma antena completamente renovada e também se reserva para essa altura um contributo regular ou pontual em antena, ainda a definir, de Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do F.C. Porto.

O clube adquiriu a parte detida pela Media Luso (97%), pertencente ao grupo espanhol Mediapro, mediante um acordo que prevê uma aquisição completa de capital em três anos e o compromisso de fornecimento de programas durante quatro anos, cujo tecto mínimo é de 60%.

"O compromisso é o da qualidade e não o da rapidez", justifica fonte ligada ao processo. Durante Agosto, será visível a pincelada azul e branca transversal a alguns programas focados no clube, ainda que a ideia seja sempre adaptar esse grafismo ao existente, para que não destoe.

Um ponto forte será a transmissão desde o estúdio criado no estádio do Dragão. Garante-se ainda o manutenção do carácter generalista da estação e a cobertura da região Norte, como tem sido estratégico.

A direcção do canal foi confiada a Rui Cerqueira, director de comunicação do clube. Nos próximos dias, será fechada a contratação do director de Informação.

[Dina Margato/JN]