09 dezembro, 2007

Filhos de um deus menor

A primeira fase do Metro do Porto está a terminar pelo que, compreensivelmente, se começam a lançar ideias concretas para a segunda fase. Cada uma delas é acompanhada por uma reticência: "se o governo estiver de acordo e autorizar".

Este condicionalismo provavelmente não choca muita gente, por considerarem normal que seja o governo a decidir. A mim choca-me, e choca-me porque corresponde a passarem-nos um atestado de menoridade intectual e cívica. Pergunto-me porque raio uns supostos "patrões" que estão em Lisboa, é que vão decidir se para nós, portuenses, é mais conveniente termos uma linha circular, uma ligação entre Senhora da Hora e Hospital de S. João, ou outro qualquer percurso? Nós aqui no Porto damos porventura palpites sobre a expansão do metro deles?

Eu sei qual é o argumento que o governo considera decisivo para justificar esta interferência. "O dinheiro é dado por nós, portanto cabe-nos decidir o que vocês vão fazer".

Eu penso, e gostaria que uma grande maioria pensasse da mesma forma, que o dinheiro não é "deles". O governo deveria ser apenas considerado como uma espécie de fiel depositário do dinheiro dos impostos que são pagos por todos nós, que é nosso, e que portanto o governo não deveria nunca arrogar-se o direito de se considerar o seu légítimo proprietário, dispondo posteriormente dele segundo lhe dá na sua real gana. Quando muito, seria admissível que fosse negociado um limite máximo de investimento para a segunda fase. Mas uma vez acordado esse valor, a decisão quanto ao desenho de expansão da rede, deveria ser uma competência exclusivamente local, em moldes que estariam préviamente definidos.

Estou perfeitamente consciente de que, nas circunstâncias actuais, este desiderato é perfeitamente quimérico, mas é nesse sentido que deveríamos caminhar. O primeiro passo, sem dúvida, será conquistar uma regionalização que efectivamente descentralize e delegue poderes. Daí, a importância transcendente que o próximo referendo irá ter.

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