09 junho, 2008

Amar o Porto sem tabus

Desculpem-me-ão a ousadia, mas não confio em unanimismos. São traiçoeiros.
Esta coisa de estarmos habituados a vermos alguém a opinar por nós e a passar, num ápice, da (sua) opinão pessoal para opinião pública(da), já começa a incomodar, e temos de a mudar rapidamente. É quase como vermos um estranho entrar-nos pela casa, sem ser convidado (e ainda por cima), para nos vir indicar o sítio onde temos de colocar as nossas coisas. É um abuso.

Ora, é isto precisamente o que os media e seus colaboradores de estimação (Pachecos e Marcelos, Vitorinos & Cª. ), com o excessivo poder que dispõem, têm vindo a fazer há muito tempo, sobre tudo e sobre nada.

Há lugares comuns milenares e sábios, mas a comunicação social serve-se frequentemente deles para os desvirtuar, transformando-os em assuntos tabu ou clichés irreversíveis, que de tão repetidos, cortam o espaço para a discussão e para a introdução de novos conceitos.

Não é, portanto, apenas para contrariar, mas pessoalmente ainda não me deixei convencer pela força persuasora das verdades indiscutíveis dos clichés. Gosto de as questionar pela razão, obviamente oposta, de me parecerem bem discutíveis.

Uma dessas verdades "indiscutíveis" - que todos nós conhecemos de cor e salteado - que nos manda aceitar como boa, é a ideia de que podemos mudar tudo na vida, excepto de clube. Esta verdadezinha, caros amigos, não é inocente.

A situação penosa por que passa a nossa cidade/região nas últimas décadas e a reacção cruzada do fenómeno, entre portuenses com simpatias clubísticas diferentes - algumas das quais, demasiado deslocalizadas das suas origens - permitem-nos retirar algumas ilacções interessantes. Uma delas, é descobrir a importância política e sociológica que há na proximidade dos afectos clubísticos com a região de origem ou com a do local onde se vive. Essa proximidade, esse apego ao clube local/regional permite aos cidadãos uma maior identificação e um maior conforto quando é chamado a tomar decisões políticas. Por outras palavras, quanto menos politizado e fanático é o adepto de um clube deslocalizado do seu habitat, mais tendência tem para prejudicar politicamente a sua cidade/região. Esta tendência é mais visível quando os interesses da cidade colidem com os interesses do seu clube, sobretudo se esse clube não pertence à região onde vive.

Não será por acaso, que um significativo número de portuenses, adeptos do Benfica e do Sporting são pouco entusiastas da regionalização e fazem questão - nos seus comentários contrastantes com a tónica bairrista dos adeptos portistas - de alinhar pela política centralista de Lisboa sem terem (ou quererem ter) consciência do quanto estão a prejudicar uma terra e uma região, que gostam de dizer ser também sua, e amar. Há aqui, quer queiram não, uma flagrante contradição. Há excepções, claro, mas estou seguro que não passam mesmo de excepções, o que é pouco, para engrossar e reforçar o pelotão da causa nortenha.

É claro que esta minha tese é polémica porque pode significar a admissão do mesmo princípio para os adeptos do Porto residentes em Lisboa e em outros locais do país, mas nem assim considero que esteja errada. Sabemos e achamos natural, que os pais transmitam aos filhos as suas paixões clubísticas, mas o comportamento ideal seria deixar eles próprios decidirem a sua escolha individual, sem pressões de qualquer tipo. Seria sempre uma decisão mais independente, mais autêntica.

Caso fosse possível compatibilizar as paixões clubísticas com as questões políticas e regionais, a minha tese não faria qualquer sentido, porque por esta altura estaríamos porventura todos unidos em defesa do Porto/Norte, portistas, benfiquistas e sportinguistas. Não sendo assim, lamento ter de o dizer, nunca nenhum benfiquista ou sportinguista poderá afirmar com a alma de quem ama realmente o que é seu, que gosta do Porto.
Gostarão, talvez, mas... Os portistas gostam, concerteza, e... A diferença está nessa singela letra "e", que no caso em questão quer dizer: apaixonadamente e de corpo inteiro.

3 comentários:

  1. Os Portistas mesmo tendo nascido na conchichina adoram a cidade, anseiam pela regionalização e mais do que isso esperam que alguém seja o motor desse movimento de libertação onde Portuenses e Portistas juntos finalmente consigam viver em paz.

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  2. Compreendo que um habitante de uma localidade que não tem um clube de futebol com projecção nacional, tenha como segundo (ou até primeiro) clube um dos "grandes" de Lisboa. É a atracção da "cidade grande", aliado ao facto de que durante muitos anos Sporting e Benfica monopolizaram vitórias. O que já não posso aceitar nem compreender é um habitante do Grande Porto ser adepto dum clube lisboeta e não dum clube da sua região, seja ele qual for. Esse é um traidor. A grande maioria deles é ao mesmo tempo ferozmente anti-FCP, e deseja contribuir para abater e arrastar pela lama um dos poucos símbolos ou entidades do Norte que consegue fazer frente à avassaladora onda que quer submergir a nossa região. É perfeita ingenuidade ou má fé pretender que se trata de matérias separadas: futebol de um lado e "política" do outro. Eu sei que a grande maioria deles não tem a capacidade necessária para entender a situação, e então poderíamos exclamar como Cristo "Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem". E os outros, os que têm perfeita consciência do que fazem? O que pensar de pessoas como o Sr.Silvio Cervan que está a ajudar a tentar destruir o FCP? E tantos e tantos outros? Que tal se pudéssemos deportá-los para Lisboa?

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  3. Se isso é assim, o problema não é o clube das pessoas. É a importância que se dá ao futebol.

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