15 fevereiro, 2009

Um Conselheiro de Estado desmemoriado

BPN: Dias Loureiro mentiu à comissão de inquérito, revela "Expresso"
14.02.2009 - PÚBLICO
O ex-ministro Dias Loureiro disse no passado dia 27 de Janeiro à comissão de inquérito ao caso BPN, não saber da existência da Excellence Assets Fund, que permitiu uma compra ruinosa de duas empresas tecnológicas em Porto Rico, da qual resultou um prejuízo de 38 milhões de dólares. O semanário “Expresso”, garante, porém, na sua edição de hoje, que o Dias Loureiro assinou dois contratos onde esse fundo é parte.“Ou seja, além de ter participado em todo o negócio”, como semanário já tinha divulgado na semana passada, Dias Loureiro “não disse a verdade ao Parlamento, o que é considerado grave, uma vez que as Comissões de Inquérito funcionam com a mesma dignidade que os inquéritos da Justiça”, avança a edição de hoje do
“Expresso”.

Confrontado pelo semanário, o ex-ministro da Administração Interna negou ter mentido quando disse desconhecer o Excellence Assets Fund. "Disse aquilo de que me lembro", disse. "Toda a operação definitiva não fui eu que tratei. Estive envolvido na fase inicial. Quem terá depois
tratado da compra foi Jorge Vieira Jordão, o mesmo que já havia dito à comissão", indicou ainda ao jornal. Dias Loureiro sublinhou ainda, confrontado com as perguntas do "Expresso": "Não me lembro dos contratos, posso ter assinado, se vocês o dizem, mas não tenho memória. Foram dois actos isolados.

Não tenho arquivo nenhum. Sei que assinei o memorando de entendimento no início do contrato e mais nada".Quando questionado acerca do Excellence Assets Fund, na tarde do dia 27 de

Janeiro, Dias Loureiro disse taxativamente: "Nunca ouvi falar nesse fundo". "E tem ideia de o BPN ou a Sociedade Lusa de Negócios (SLN) alguma vez terem adquirido este fundo?" - perguntaram ainda os deputados. "Não, não tenho", voltou a responder o ex-administrador da
SLN, avança o "Expresso".

O semanário teve, porém, acesso a dois documentos com a assinatura do actual Conselheiro de Estado e nos quais fica provado que foi usado esse fundo para fazer a compra de duas empresas tecnológicas de Porto Rico, a Biometrics e a Nova Tech, que vieram a revelar-se duas "tecnológicas-fantasma" . "No início do negócio foi neste fundo que ficou estacionada a participação do BPN em Porto Rico e o fundo voltou a ser parte no contrato que encerrou o negócio em 2002", escreve o jornal."O contrato de promessa de compra de 2626 acções do Excellence (com sede nas Ilhas Caimão) por parte da SLN, foi assinado por Dias Loureiro e Oliveira Costa em 30 de Novembro de 2001. O encerramento foi assinado em 22 de Julho de 2002, deixando um prejuízo de 38 milhões de dólares no grupo BPN", pode ainda ler-se no semanário."Não cometi nenhuma ilegalidade. Esse é o meu sentimento profundo. Acreditava em quem me dizia que as coisas eram feitas daquela maneira", disse ainda.

Questionado pelo semanário se, face à documentação, sente alguma necessidade de ir prestar novos esclarecimentos ao Parlamento diz que não. "Não lhes menti em nada. Falei da estrutura do negócio e expliquei tudo. Nunca menti na comissão, disse aquilo de que me lembro".


Nota de RoP:
Em Portugal, as normas são viciadas à nascença. A norma mental do português-tipo, é: gerar dificuldades, para vender facilidades. Foi assim que muitos funcionários do Estado enriqueceram, extorquindo dinheiro e regalias aos cidadãos, por serviços para os quais já eram pagos. O Poder, ensandece todos por igual, desde o porteiro aos quadros mais altos. É a vida, dizem.

Na hierarquia política e civil, esta mentalidade espanha-se pela população, de cima para baixo, daqui resultando a tal fuga generalizada aos impostos, o desrespeito pelas regras de transito, etc. Só à força, é que lá vão. Vimos, o tempo que levou, até as pessoas se habituarem a colocar o cinto de segurança e a pararem nas passadeiras. Consciência cívica é uma chatice, porque, para o português mediano, é uma desonra respeitar os outros, porque interioriza que o respeito existe num único sentido, isto é: dos outros, para si.

Neste ambiente de «brandos costumes», onde os julgamentos são feitos na praça pública, antes dos tribunais, é inevitável que a tendência do povo se incline para fazer precipitados juízos de valor. Mas, convenhamos, que há pessoas que se põem a jeito, e pessoas que, pelo seu estatuto deviam esforçar-se por fugir destas armadinhas com alguma dignidade. Acontece que, nem o estatuto dessas pessoas é merecido nem a ideia que elas fazem da dignidade se aproxima dos padrões mínimos. A chico-espertice, é quase sempre a opção eleita que subalterniza e enegrece a dignidade.

Dias Loureiro, em todo este imbróglio dos bancos, e das "legalíssimas" offshores, decidiu - para se defender das suspeitas - optar pela técnica do, "resistir ou morrer", convencido que, reiterando a sua inocência e não se demitindo do cargo de Conselheiro de Estado, se enobrece a ele, e ao Estado. Mas, engana-se infantilmente e dá mais um péssimo golpe de morte na já tão depauperada reputação da classe política.

Quem sou eu, para me comparar com personalidades do gabarito destes políticos, mas, modestamente, no lugar do "respeitável" Conselheiro de Estado, Dias Loureiro, se me sentisse inocente, demitia-me calmamente do cargo e deixava que a justiça se fizesse, mesmo correndo o risco de ser mal julgado, ou seja, tardiamente. Assim, persistindo nesta birra quixotesca, do antes quebrar que torcer, DL, não só acentua as suspeitas da sua culpabilidade como as transfere para a dignidade do Estado e do próprio Presidente da República.

Mas isso, sou eu a pensar em voz alta, porque, ao contrário destes iluminados, ainda não fui capaz (como eles «têm» sido), de mostrar valor para governar o país. E muito bem, como se confirma.

1 comentário:

dragao vila pouca disse...

Caro Rui, eu já votei e deve calcular como respondi ao seu desafio, mas fiz mais, enviei ao director de A Bola este mail que deixo aqui:

«Como o senhor permite, que semanalmente, uns fedorentos porcos e ordinários, insultem o F.C.Porto e o seu Presidente, prepare-se, porque nós portistas ,vamos tratá-lo a si e a alguns dos jornalistas de A Bola da mesma maneira.
Eu por mim já sei o que vou fazer: na blogosfera, vou colocar uma foto com a sua cara ou a cara do Delgado - ainda não me decidi - no corpo de um porco, que é para ver se você gosta.

Manuel Vila Pouca»

E um dia deste vou cumprir. Já estou a tratar do assunto.

Um abraço