30 novembro, 2009

Cheira mal, cheira a Lisboa

Tenho o nariz torto. A narina esquerda não funciona. Infelizmente, esta surdez parcial do meu olfacto não me protege do fétido fedor que sevicia quem passa ao largo de Aveiro. Falo do mau cheiro literal, não do figurado - do negócio do sucateiro Zé Godinho ter quartel general em Esmoriz, de Oliveira e Costa ser de Esgueira, e Vara e os Penedos serem visitas frequentes de Aveiro, onde mantêm longas conversas com o juiz de instrução criminal.
Se trapalhadas e negociatas obscuras libertassem realmente um odor pestilento, não se podia passar perto de Aguiar da Beira e os carteiristas do eléctrico 28 estavam no desemprego, pois a podridão do ar nos mais belos e ricos bairros de Lisboa afugentaria os seus 2,5 milhões de turistas.
A fábrica de Cacia da Portucel é a origem do fedor que tortura os automobilistas viciados na A1 e os passageiros económicos e/ou ambientalistas do Alfa. Há coisa de 15 anos, quando visitei esta celulose, comprovei a enorme capacidade humana em se adaptar a circunstâncias adversas. Achei que o almoço era a ocasião certa para fazer a pergunta. Fartos de a ouvir, os anfitriões responderam pacientemente que algumas semanas bastavam para concluir o processo de dessensibilização - e deixarem de sentir o cheirete.
Esta fantástica capacidade para comermos num ambiente de latrina preocupa-me muito, principalmente nesta altura em que para decifrarmos os casos de actualidade é preciso ter um curso de Direito (e dos bons, aqueles da Independente não chegam). Só assim compreendemos as nuances da arquitectura de um sistema judicial canceroso e sabemos traduzir para português um dialecto judicial atulhado de “atentados ao Estado de Direito”, “elementos probatórios”, “irrelevância criminal”, “denegação de justiça”, “medidas de coação”, “expedientes administrativos” e “emissões de certidões”.
Temo que, tal como os trabalhadores da Portucel de Cacia, nós, os portugueses, nos dessensibilizemos e deixemos de sentir o fedor a podridão da pandemia de escândalos a que estamos sujeitos. Por isso, ou estes políticos conseguem reduzir drasticamente a quantidade de lixo que produzem e arranjam um eficiente tratamento da sua porcaria (dotando-se de um sistema subterrâneo de esgotos e de uma ETAR na periferia, longe dos nossos olhos), ou o melhor é darmos ouvidos ao conselho de Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem mudar-se com frequência – pela mesma razão”.
Não me apetece viver num país que cheira como uma casa de banho que continua em uso apesar ter o autoclismo avariado – e em que não consigamos ouvir a marcha “Cheira bem, cheira a Lisboa” sem nos escangalharmos a rir às gargalhadas.
Jorge Fiel
[Extraído do Blogue Lavandaria]

5 comentários:

dragao vila pouca disse...

Já tinha lido algures e tinha gostado. Fez muito bem, caro Rui, colocá-lo aqui.

Gritemos todos em conjunto: cheira mal, cheira a Lisboa...


Bom feriado e um abraço

Anónimo disse...

Air Race: Comerciantes do Porto apelam a boicote aos patrocinadores

ASSOCIAÇÃO PREOCUPADA COM EVENTUAL DESLOCALIZAÇÃO DA PROVA PARA LISBOA



A Associação dos Comerciantes do Porto apelou ao boicote aos produtos das empresas TMN, Galp e EDP, que patrocinam o Red Bull Air Race, como forma de protesto contra a eventual deslocalização do evento para Lisboa.

"São muitos os prejuízos diretos e indiretos que a deslocalização do Red Bull Air Race trará para o nosso comércio, para os nossos comerciantes", declarou o presidente da Associação dos Comerciantes do Porto (ACP).

Em comunicado, Nuno Camilo diz que "não se compreende como é que os grandes patrocinadores do evento, TMN, EDP e Galp, têm nos seus conselhos de administração elementos nomeados pelo Governo e não se ouvem vozes de preocupação referentes ao comércio nesta região".

"A taxa de desemprego no distrito do Porto é uma das mais elevadas do país, mas mesmo assim não existe preocupação do poder central em promover a região", criticou.

É neste contexto que a ACP apela "ao boicote no consumo dos produtos da TMN, Galp e EDP", acrescentando que "só falta tirarem o vinho do Porto e o Futebol Clube do Porto à região do norte".

A ACP recorda que "as corridas Red Bull Air Race são uma excelente forma de promoção turística da região e uma verdadeira oportunidade para dinamizar e fortalecer o comércio tradicional".
In record

Anónimo disse...

Porto de asas cortadas

Publicado por PauloMorais em 26 Novembro, 2009

“É urgente transferir para a esfera regional a propriedade e a gestão do Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Só independente, o Aeroporto do Porto sobreviverá. Integrado na rede nacional da ANA, será apenas uma filial do Novo Aeroporto Internacional de Lisboa, um apeadeiro periférico de Alcochete.”
JN.

renato disse...

Caro Rui!

Já tive o grato prazer de comentário lá na "lavandaria", mas continuo a dizer que é preciso, cada vez mais, exaltar a canção de Zeca Afonso "Eles comem tudo"!

E, porque será que eles cantam, tanto, o cheira mal? É que o cheiro da "paisagem" é bem mais perfumado e mais ecológico!

Abraço,

Renato

Anónimo disse...

Sugestão:

Ler no ReflexãoPortista o artigo "Nós só Queremos Lisboa a arder"