11 julho, 2011

Eu, galego do sul

Lisboa, no canto do cisne que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e a região que foi o seu berço.

Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, nos interrogámos porque raio é que o bom do D. Afonso Henriques se virou para Sul, e não para o Norte, quando se tratou de dar forma e assegurar o espaço vital ao país que fundou a partir do Condado Portucalense.

Tenho boas razões para desconfiar que seríamos bem mais prósperos e felizes se o fundador e seus sucessores tivessem seguido a direcção indicada pela bússola em vez de terem ido por aí abaixo, de espada em punho, a fazer guerra aos mouros, só se detendo quando chegaram às praias algarvias.

O problema é que, apesar de imensamente sedutora, esta opção era desadequada, talvez até mesmo irrealista, à luz dos equilíbrios políticos da Península em meados do século XII.

A passividade com que o seu primo Afonso VII e a monarquia leonesa observaram a emancipação do Condado Portucalense deve-se ao facto de Afonso Henriques ter optado por combater o império almorávida, conduzindo os seus exércitos para além do Tejo.

Tivesse o fundador ousado atravessar o rio Minho, em vez de fazer guerra aos muçulmanos, e a realidade política da Península Ibérica seria hoje radicalmente diferente.

Por muito que nos custe, esse pecado original a que o nosso primeiro rei foi impelido deve-se a um pragmatismo que não lhe podemos censurar.
Hoje, quase nove séculos volvidos sobre o seu nascimento, Portugal combina uma invejável unidade linguística e as fronteiras mais estáveis e antigas da Europa com uma enorme diversidade de culturas, caracteres e paisagens.

Não é preciso ser antropólogo (basta ter olhos na cara) para constatar que um minhoto é muito parecido com um galego - e muito diferente de um alentejano ou algarvio. E não é preciso ser um geógrafo para observar, à vista desarmada, que a serra dos Candeeiros é a fronteira que cose dois países diferentes unidos há séculos pela política mas separados pela geografia e costumes.

Ignorante da história e da realidade do país que a sustenta, Lisboa, no canto do cisne do centralismo que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e região que foi o seu berço.

Quando se trata de portajar as Scuts, não começa pela mais antigas - mas pelas do Norte. E quando se trata de pôr em prática o criminoso plano de liquidação da rede ferroviária, começa por fechar a ligação Porto-Vigo - enquanto reabilita a linha das Vendas Novas.

É nestes momentos de revoltas, cada vez mais frequentes, que questiono a opção geográfica de Afonso Henriques - e me sinto mais um galego do sul do que um português do Norte.
[No JN]

Nota de RoP: 
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. E agora? O que se segue? O fado seguinte?
Abram as tascas então, e chorem, chorem. Com o "nosso" fado pode bem o centralismo.  

08 julho, 2011

Portugal e Renfe rectifican e garanten a continuidade da conexión Vigo-O Porto

Os Gobernos ceden á presión social e manteñen o servizo de tren, que mañá faría a súa última viaxe

ALBERTO BLANCO Os Gobernos portugués e español dan marcha atrás e garanten agora o mantemento da conexión ferroviaria entre Vigo e O Porto desde mañá, cando estaba previsto que operase o último tren. Do mesmo xeito que ocorreu en 2005, cando se expuxo tamén a cancelación deste servizo, a presión social e política volveu a conseguir que o único tren que conecta Galicia con Portugal continúe funcionando.

Esta decisión tomouse a última hora de onte e despois de que Comboios de Portugal fose o primeiro en dar o brazo a torcer e anunciase a súa disposición de chegar co tren ata Tui e non só ata Valença do Minho. "O fin e a saída do catro trens, dous por sentido, que cubrían o traxecto O Porto-Vigo pasa a ser Tui, de forma que se posibilite un incremento na mobilidade de pasaxeiros, principalmente permitindo unha ligazón do territorio nacional por vía férrea coa rede de transportes colectivos de Galicia", anunciaron fontes oficiais de Comboios de Portugal.
Desta forma, a empresa pública lusa deixou a "pelota" no tellado de Renfe, á que ademais lle volveu a propor que se fixese cargo do déficit do tren no tramo galego para garantir a súa continuidade ata Vigo. "No caso de que Renfe reconsidere e acepte a proposta inicial de CP de asumir a totalidade da responsabilidade da ligazón entre Tui e Vigo, estaremos dispostos a continuar garantindo cos trens portugueses o transporte desde Vigo ata a fronteira", explicaron as mesmas fontes.
Renfe moveu ficha horas despois. "Dado que Comboios de Portugal reconsiderou a súa posición, manteremos o servizo ata Vigo nas mesmas condicións que ata agora", informaron fontes oficiais da operadora española.
Con todo, a empresa non quixo aclarar onte se esta decisión significa que pagará os 235.000 euros de déficit da liña que lle reclamou Portugal para poder mantela. Tampouco desvelou se a fórmula na que se manterá a ligazón continuará sendo a de que o tren portugués siga chegando ata Vigo, ou se Renfe fretará trens desde a cidade olívica a Tui para que os pasaxeiros poidan facer transbordos. "A partir de mañá [por hoxe] informarase as condicións nas que se continuará prestando o servizo", setenció un portavoz oficial da compañía.
Antes de que Renfe manifestase a súa disposición a manter a liña, Comboios de Portugal adiantou que polo menos desde Tui seguirían saíndo os dous trens que o facían ata agora. Incluso a empresa non descarta que algún dos outros convois que chegan a Valença do Minho pero que non cruzan a fronteira, poidan estenderse tamén ata a localidade pontevedresa. "Adicionalmente, estudaremos a demanda que xeren os nosos servizos en Tui e, se fose xustificable, estenderiamos outros trens que terminan en Valença ata a localidade galega", dixeron.
Aínda que esta rectifición garante que Vigo continúe estando conectada por ferrocarril con Portugal, non dá resposta aínda ás esixencias de cidadáns, empresarios e políticos de ambos os lados do Miño de modernizar o servizo para facelo máis competitivo. As máis de tres horas que emprega o tren en cubrir o traxecto entre Vigo e O Porto fan que sexa pouco atractivo e deficitario.
[Faro de Vigo]

Nota do RoP: Mais uma vez, Rui Rio revelou a sua falta de talento para liderar uma cidade com a importância do Porto. Não contribuiu em nada para resolver este problema, bem pelo contrário.

Um sonho que virou pesadelo

 Esta noite, sonhei que vivia num país onde a proximidade entre eleitores e eleitos, era bem mais autêntica do que aquela que os beijinhos e abraços dos candidatos deixam transparecer  em campanha eleitoral. Era tão natural essa aproximação, que me fez acreditar na existência de uma verdadeira Democracia. Sonhei que tinha convidado as três figuras mais importantes do Estado [Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e Procurador Geral da República], a assistirem, na minha companhia, aos noticiários das televisões portuguesas e a passarem os olhos pela imprensa diária, sobretudo a desportiva. Pelo sim, pelo não, pedi-lhes que, por uns minutos, fizessem um esforço de concentração para depois emitirem as suas opiniões sobre o que tinham observado. Surpreendentemente, todos aceitaram o convite. Fiquei pasmado. Nunca pensei que a consideração por um simples cidadão como eu,  merecesse tais atenções da parte de tão distintas personalidades. Cheguei a pensar que estava a sonhar. E estava. Mas eu, é que julgava que não.

Confortavelmente sentados, liguei a televisão e pedi-lhes uma última vez para estarem atentos. Tive o cuidado de os poupar àquelas maratonas com opinion makers e com peritos multifacetados, para não os indispor e prejudicar a avaliação que iam ter de fazer.

Passei de pronto para os noticiários desportivos, que era o que me interessava tratar. E, claro, como não podia deixar de ser, os noticiários abriram quase todos ao mesmo tempo com o glorioso "Benfica! Uma, duas, três vezes, sempre com o Benfica a abrir os espaços noticiosos desportivos. Como se não bastasse, a seguir, impingiram-nos uma verdadeira biografia do Fábio Coentrão. As entrevistas aos amigos, colegas, ex-colegas e familiares, foram exploradas à náusea, só porque o rapaz tinha sido transferido para o Real Madrid e... era benfiquista. Terminado o folclore do costume, as televisões lá resolveram mudar de cenário. Dessa vez, para falar do Sporting, e só mais tarde e, por último, do FCPorto. Do Sporting de Braga, que até foi finalista vencido da Liga Europa, nem uma palavra.

Quando os meus ilustres convidados já se preparavam para abandonar o estúdio improvisado, pedi-lhes mais um pequeno favor. Que passassem os olhos pelos jornais desportivos. O que, aceitaram pacientemente... Finalmente, perguntei-lhes: o que é que V. Exas. pensam, do que acabam de ver? Acham sério, democrático, que o FCPorto, campeão nacional, seja remetido por todas as televisões e jornais para um plano terciário ou que nem sequer seja noticiado? Acham correcto, que se faça isto ao clube português que nos últimos 30 anos mais prestígio trouxe a Portugal?

Como era de prever,o senhor Presidente Cavaco foi o primeiro a falar. Tentou pôr água na fervura - com aquele ar de paizinho afectado, que o caracteriza -, dizendo que o Benfica era um grande clube, que tinha muitos adeptos, e que se tinha de "compreender" os aspectos comerciais dos jornais e das operadoras de televisão, etc. Os outros dois convidados, mantinham-se calados, em respeitável e protocolar silêncio.

-Desculpe, senhor Presidente, mas o senhor está-me a dizer que o Benfica, porque "é" o maior clube português, merece estatuto e tratamento especial? E o que é que V. Exa. me diz do direito à livre concorrência dos outros clubes? Estão proibidos de ultrapassar os feitos desportivos do Benfica?

- Bem, já  conquistou 2 Campeonatos Europeus, ganhou muitos campeonatos nacionais, troféus... O Eusébio...

- E daí, senhor Presidente? O FCPorto, também não tem vencido campeonatos,  troféus nacionais e internacionais? V. Exa. por acaso ignora que o FCPorto já ultrapassou o Benfica em número de títulos? Que é considerado o 3º. melhor clube do mundo no ranking da IFFHS [Federação Internacional de História e Estatística de Futebol]?

- Bem, mas o Benfica...

- O senhor Presidente não sabe que o FCPorto também teve os seus Eusébios, os seus Fernandos Gomes, Jardeis, Decos, Ricardos Carvalhos, Luchos, Lisandros e mais recentemente, os seus Falcões? Todos eles jogadores de top, cobiçados pelos clubes mais ricos do Mundo? 

- Sim, é verdade, mas o Benfica tem mais adeptos, sabe...

- Então, V. Exa. está-me a tentar dizer que esse, é um facto imutável? Que nenhum outro clube pode almejar ultrapassar o Benfica em número de simpatizantes? Que isso é a negação do próprio desporto?

- Humm, bem, poder pode, mas...

- Mas, o quê, Senhor Presidente? Não é politicamente oportuno admiti-lo?

- Olhe, meu amigo, ao fim e ao cabo, estas coisas não passam de futebol, e o que é preciso é fair-play.

- Futebol esse, melhor dizendo, futebol Clube do Porto esse, que tem feito entrar mais divisas no país em 10 anos, que muitas outras empresas em 30! O senhor Presidente é economista e desdenha este importante facto?  

- Não era o que eu queria dizer. É futebol, sabe...

- Posso fazer-lhe uma pergunta frontal Sr. Presidente?

- É claro, estamos em Democracia.

- Era capaz de transferir o seu distanciamento do futebol para a política?

- Mas eu, não me distancio do futebol, apenas tenho coisas mais importantes com que me preocupar. Até fui ao estádio de Oeiras [perdão], ao estádio Nacional, entregar a Taça ao FCPorto.

- Que me diria o Sr. Presidente, se alguém argumentasse que o PSD não podia ter o mesmo tempo de antena, nem ultrapassar em votos o PS partindo do mesmo pressuposto, porque era o partido com mais eleitores na história da democracia nacional?

- Essa, meu amigo, é uma comparação absurda. Nas eleições a alternância é fundamental para a saúde da democracia, com os clubes trata-se de paixão. Não são coisas comparáveis.

- Então, o Sr. Presidente admite que o FCPorto tem o direito de seguir o seu caminho de victórias e de continuar a aumentar o número de adeptos?

- Sim, sim, faz sentido!

- Então V. Exa. concorda que aquilo que os media em geral, e as televisões em particular, estão a fazer não é um trabalho sério, e a tratar o FCPorto como merecia?

- Ó meu amigo, as imagens que nos mostrou agora são pontuais. Hoje, falam do Benfica, amanhã do FCPorto, e depois do Sporting. É assim, não exagere com o seu portismo.

- Quer perder uma aposta senhor Presidente? Quer confirmar o que me está a dizer?

- Eu não aposto, nem no Euromilhões, meu amigo.

- Pudera, os que mais apostam, são os que menos têm, Excelência! Mas será que o senhor estará disponível 
 para  acabar com o mito da clubite e ligar a televisão todos os dias, durante os próximos mêses [para não enjoar], para confirmar o mau jornalismo que se faz em Portugal e o modo faccioso como promove o Benfica e tenta denegrir o FCPorto?

- Bem, bem, meu caro, está-se a fazer tarde e eu ainda tenho uma declarações a fazer ao país. Estamos a atravessar uma crise social e económica gravíssima, e há coisas muito mais importantes a tratar do que de rivalidades futebolísticas.

- Claro Sr. Presidente, espero é que não acuse o FCPorto e o Sr. Pinto da Costa de serem responsáveis por esta crise. Eu diria que esse é um barrete que encaixa na perfeição na cabeça dos políticos, incluindo na sua [com todo o respeito, por V.Exa.].

- Meu caro, agora  temos de ir. Há mais vida para além do futebol.

- Desculpe Sr. Presidente, mas V. Exa. não chegou a dizer-me o que pensa deste jornalismo... Está bem, ou não está? O que pensa do assunto? Não acha ser preciso mudar alguma coisa?

- Acho que o senhor está a exagerar, que vê as coisas de forma demasiado emotiva

- Lá isso é verdade, Sr. Presidente, às vezes fico tão revoltado que me apetece entrar pelo écran da televisão e partir a cara a certos comentadores e jornalistas.

- Isso que o senhor está a dizer é muito grave, é preciso alguma contenção e bom senso.

- V. Exa. vai-me perdoar novamente, mas insensato é o silêncio, a cumplicidade passiva, como o senhor e o senhor Procurador Geral, estão a lidar com esta situação, que já é antiga. O que a comunicação social anda a fazer ao FCPorto e à sua respeitável massa de adeptos, é uma autêntica provocação, uma declaração de guerra, um atentado à paz social! Ainda não se deu conta disso, senhor Presidente?

- O senhor já ultrapassou todos os limites, é melhor conter-se.

- Percebido, excelência! Fica o registo. Se um dia, isto descambar em violência, quero saber em que alicerces irá suportar a sua previsível indignação. Nessa altura, espero encontrar-me fisicamente longe de V. Exa., porque a minha indignação será mais genuína que a sua, e posso até confundí-lo com um desses miseráveis fazedores de fretes que tão mal têm feito à classe dos jornalistas. 

De súbito, o senhor Presidente perdeu o ar de avozinho e gritou pela guarda,  para me dar ordem de prisão. Mas, infelizmente, acordei.

07 julho, 2011

Trinta e seis "Tzadikim"*

Na última da notável série de entrevistas "Beleza e consolação", em tempos transmitida pela SIC, a questão em cima da mesa (uma mesa onde se sentava gente como, entre outros, Steiner, Martha Nussbaum, Coetzee, Soyinka, Germaine Greer, Tatyana Tolstaya...) era: "Por que vale a pena viver?". De todas as respostas, ficou-me na memória a de Steiner: "O único motivo que me ocorre é o meu cão". Já não me lembro se Jane Goodall estava presente, mas estou certo de que a sua resposta seria semelhante.

Ontem tive uma demorada conversa com um velho amigo que, nas últimas décadas, apenas encontrara ocasionalmente. Ao fim de 44 anos de vida profissional em tribunais, o meu amigo estava inteiramente descrente do Mundo e dos seres humanos em geral (e do Mundo e seres humanos dos tribunais em particular). E falou-me longamente da maldade.

Aos 20 anos, a minha geração partilhava sonhos desmesurados e não se contentava com menos do que com o impossível: transformar o Mundo e mudar a vida. Hoje, a maior parte dela vive, com desprezível sucesso, da maldade. E, em vez da vida, importa-lhe a vidinha.

Depois do encontro com aquele amigo dos meus distantes 20 anos senti-me absurdamente bem. Os cabalistas dizem que o peso moral do Mundo assenta sobre os ombros de 36 "tzadikim", homens bons que ninguém, nem os próprios, conhece. Se assim for, eu acredito que soube ontem de mais um além de Steiner e de Jane Goddall.
[No JN]


*Tsadic, tzaddik ou tzadik (em hebraico: צדיק, "justo"; pl. צדיקים tzadikim; pronuncia alternativa, tsaddiq) é um título dado geralmente a personalidades no Judaísmo Ortodoxo considerada santa, tal como um mestre espiritual ou rebe. A raiz da palavra tsadic, é tzedek(צדק), que significa justiça ou integridade

06 julho, 2011

Cada macaco no galho próprio


Os tempos que correm são tão inintelegíveis e sinistros que me amplificam a compreensão sobre determinado tipo de reacções de alguns comentadores mais precipitados. A sobrecarga de informação negativa que nos entra pela casa, é tão avassaladora, que nos altera a disposição, por mais que tentemos evitá-lo. Porém - será bom lembrá-lo -, um blogue, sendo um espaço livre de comunicação e de opinião, não tem a obrigação de propor alternativas, ou muito menos soluções para os problemas do país, que são muitos, como sabemos. O que não quer dizer, que não o possamos fazer [e já o temos feito], em casos pontuais. Mas não é esse o nosso papel. Às vezes, as pessoas esquecem-se disso, e fazem certo tipo de comentários que mais parecem dirigidos a deputados ou  ministros. Ora, nós não somos, nem uma coisa, nem outra. 

O que nos devia incomodar a todos, era sim, esta paranóia que nos andam a impingir, 24 sobre 24 horas, com programas e debates, com participação de antigas figuras governativas, cujas competências técnicas, e sobretudo políticas, não foram para além do sofrível, face à ineficiência reflectida no nível de vida global  da população. Nunca fomos capazes de sair da cauda dos países mais atrasados da Europa, e quando nos tentaram fazer querer no contrário [estou-me a lembrar do oásis de António Guterres], era mentira. O que agora está a acontecer, a nível de endividamento público, começou há muitos anos, e desde então, não houve um único governo capaz de o impedir, ou no mínimo, de o assumir. Tudo estava bem. O Sócrates foi apenas um clone extremado daquilo que outros fizeram antes, incluindo o actual Presidente da República. 

Aquilo que tem orientado as minhas críticas, mais do que a discriminação concertada ao Norte, é a pobreza de uma Democracia que nos impede de intervir activa e eficazmente junto dos organismos públicos sem necessidade de passar pela militância política. Por outro lado, a vontade popular de intervir na coisa pública é diminuta, receosa mesmo, e ainda com muitos fantasmas do passado.

Num país á beira da bancarrota, é inexplicável e um tanto provocante para o povo, que haja tanta gente a dar pareceres sobre política económica e com tanto tempo disponível para gastar em televisão, sem contudo daí se retirar qualquer benefício concreto para a comunidade. Diariamente, somos bombardeados com todo o tipo de debates onde o grande público praticamente não tem lugar, a não ser [ e só em certos casos], como espectador. A oportunidade é invariavelmente dada aos infractores, àqueles que se distinguiram pela repetição de outras incompetências, quando o que se lhes exigiria era uma sóbria remissão ao silêncio, ou na melhor das hipóteses, a assunção dos próprios erros. Mas não. Continuam soberbos, a ser tratados pelos media como autênticas vedetas, como pessoas altamente qualificadas...que não são. 

Como querem então que sejam os bloguers, ou mesmo os jornalistas, a apresentar soluções? Não estaremos nós a inverter os papéis? Não tarda nada, pedem-nos que governemos gratuitamente. Só falta mesmo, é mandarem-nos levar a  «politólogos/ex-políticos» como Marques Mendes e Rebelo de Sousa, o cheque do ordenado aos estúdios de televisão, onde já estão a receber uma boa avença.

Haja lucidez, porque no ar anda  confusão a mais.

PS-Recomendo a leitura deste post. É um caso típico de um cidadão comum, mas lúcido e com ideias bem estruturadas, que de vez em quando não se limita a criticar: propõe. O que resta saber, é se num país cujos governos são autênticos mares de ignorância e desperdício, propor publicamente soluções inteligentes, não será o mesmo que dar pérolas a porcos... 

A sugestão é melhor que a opção


Concordo 300% com a sugestão aqui apresentada para
 inserção de publicidade sobre as camisolas do FCPorto.
 Já o ano passado abordei aqui este assunto, pelos vistos,
sem sucesso. É visível e notória a diferença entre a opção
escolhida, com o emplastro inestético e de cor nem sempre
compatível com os tons das camisolas, uma com o fundo
preto e outra com um azul piscina quase esverdeado.



05 julho, 2011

Os vira-casacas


Está nos livros: onde existe uma grande dependência do Estado, mudanças no poder trazem consigo mudanças na opinião de muitos. Não antes, mas depois ou, pelo menos, a partir do momento em que se torna óbvia a derrota da "situação", como se dizia antigamente. O povo crismou-os: "vira-casacas". Os mesmos que até aí aplaudiam, servilmente, o poder descobrem, subitamente, o seu engano. Coerentes na sua vocação de bajuladores, continuam a aplaudir o poder. O novo. Encontramo-los entre os empresários, grandes ou pequenos, os gestores, públicos ou privados, os comentadores. Por toda a parte. Representam o pior da espécie humana, se é legítimo atribuir-lhes essa pertença pois falta-lhes coluna vertebral. Governo que se deixe rodear por eles, lhes dê ouvidos ou se deslumbre com os encómios em que se especializaram, está a meio caminho do autismo. A outra metade será da responsabilidade dos que vêem a política como se de um jogo de futebol se tratasse. Em conjunto, actuam sobre a componente narcisista que há em quase todos os homens públicos. Falam-lhes da história e de como esta os verá. São piores do que as sereias o eram para Ulisses. Alguma dessa gente já apareceu, ou reapareceu, em força, nestas duas semanas.

2. As medidas simbólicas que o Governo tomou foram erigidas, por eles, quase em reformas estruturais. Vai-se a ver e parece que os membros do Governo não pagam quando viajam pela TAP (vá-se lá saber a razão!) pelo que, para além do bom exemplo, a medida apenas granjeou a simpatia das tripulações da transportadora área nacional que, nesses voos, terão mais lugares em executiva para usufruírem das suas mordomias. A extinção dos cargos de governador civil e director-adjunto dos centros distritais de Segurança Social vão na direcção certa, conquanto o impacto nas contas seja diminuto. Quanto às poupanças decorrentes de um menor número de ministros e secretários de Estado, não são certas (depende de quanto vierem a custar os assessores) e podem ser pírricas se, com a constituição de superministérios, o Governo perder em eficácia numa altura em que era decisivo que funcionassem bem. Numa sociedade em que o simbólico tem importância, estas decisões são acertadas. Dão um sinal e apontam um sentido de mudança. Porém, se o Governo se deslumbrar com a amplificação que os seus zelotes lhe deram, corre o risco de repetir o percurso do anterior executivo.

3. Mesmo perante uma medida intrinsecamente má - o aumento de impostos associado à retenção do equivalente a metade do 14.º mês, isto é, cerca de 3,5% do rendimento - muitos não tiveram pejo em a elogiar. Como se uma medida pudesse ser boa ou má consoante a cor de quem a toma. A medida é má. Ponto final. Não há benefício da dúvida ou estado de graça que lhe valham. Porventura a menos má, em comparação com outras. Não sabemos, nada nos foi dito. Talvez se tenha tornado inevitável perante o propósito, que subscrevo, de dar um sinal de garantido empenhamento no cumprimento dos objectivos estabelecidos. Em excesso de zelo, alguns escribas e comentaristas invocaram como justificação a eventual derrapagem das contas públicas cujo estado teria sido ocultado. O Governo não o fez, não sabemos se para manter a promessa de Passos Coelho, se por saber não ser seguro que os resultados no 1.º trimestre comprometessem o objectivo de 5,9% para o défice anual. Saúda-se a honestidade intelectual, bem como se aceita que, por precaução, tenha posto mais peso nestas medidas (isto é, aumentado a percentagem e o âmbito da tributação).

4. Mais receita é uma forma de combater o défice. Errada - Portugal já tem uma carga fiscal excessiva. Inevitável - no curto prazo, não é fácil cortar significativamente nas despesas. Palpita-me que não ficaremos por aqui, nas receitas, e anseio por saber o que se vai fazer do lado da despesa e, em especial, no que toca ao estímulo à competitividade e emprego. Só então se poderá fazer uma análise séria.
[No JN]

01 julho, 2011

A direita não tem emenda...

...sofre de um crónico desprezo pela cultura profunda. O grande "defeito" da cultura, é tornar as pessoas um pedacinho mais lúcidas. É o que a direita pensa, mas nunca o irá confessar.

Há quem acredite não existirem diferenças entre esquerda e direita. Politicamente, e se acreditarmos que o PS é um partido de esquerda, talvez não. Intelectualmente ainda há muitas diferenças. Este Governo acaba de o provar, e o anterior, nem com o charme da Gabriela Canavilhas conseguiu provar o contrário.

Abrunhosa diz que "o Porto está a competir com a Rechousa" em termos culturais

F.C Porto assume gestão do Porto Canal em Agosto

Adiou-se por um mês. O F.C Porto começa dia 1 de Agosto a tomar conta da grelha do Porto Canal. Numa primeira fase, está prevista a inclusão de espaços informativos acerca das actividades desportivas.

Só em Janeiro se apresentará uma antena completamente renovada e também se reserva para essa altura um contributo regular ou pontual em antena, ainda a definir, de Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do F.C. Porto.

O clube adquiriu a parte detida pela Media Luso (97%), pertencente ao grupo espanhol Mediapro, mediante um acordo que prevê uma aquisição completa de capital em três anos e o compromisso de fornecimento de programas durante quatro anos, cujo tecto mínimo é de 60%.

"O compromisso é o da qualidade e não o da rapidez", justifica fonte ligada ao processo. Durante Agosto, será visível a pincelada azul e branca transversal a alguns programas focados no clube, ainda que a ideia seja sempre adaptar esse grafismo ao existente, para que não destoe.

Um ponto forte será a transmissão desde o estúdio criado no estádio do Dragão. Garante-se ainda o manutenção do carácter generalista da estação e a cobertura da região Norte, como tem sido estratégico.

A direcção do canal foi confiada a Rui Cerqueira, director de comunicação do clube. Nos próximos dias, será fechada a contratação do director de Informação.

[Dina Margato/JN]

30 junho, 2011

O Metro e os fundos que não tem




  

 Amo-te metro

O metro do Porto demorou anos de luta, exigiu muito dinheiro europeu e nacional, mas é a maior conquista do Porto do início do século XXI. Quando arrancou, em 2002, tivemos a esperança de ter conseguido algo absolutamente essencial para a nossa sobrevivência como área metropolitana produtiva, capaz de ajudar o comércio de rua, a produtividade laboral, a cultura, a presença dos estudantes na cidade, a manutenção dos consultórios médicos, profissões liberais, etc..

A vida da cidade, de facto, mudou e trouxe-nos esse ícone - o metro a passar na ponte D. Luiz, como se fosse um sonho pintado a amarelo e cinzento sobre o ferro centenário, em tons de castanho, e o Douro e a Foz ao fundo... Dentro das carruagens, as nossas pessoas, ricas ou pobres, a poderem usufruir de um transporte digno, que as deixa organizar a vida com mais qualidade. Mas estamos a meio deste sonho, que pode tornar-se num pesadelo.

Infelizmente, a extensão da rede está altamente ameaçada pela falta de dinheiro do país. Ainda por cima o JN avançava que os fundos comunitários previstos para o (erradamente intitulado) "TGV" não vêm para o metro do Porto. Mas não há razões para se desistir: a União Europeia vai querer que Portugal aproveite os fundos e mantenha algumas obras. Ora, o metro enquadra-se na política que é a menina dos olhos de Bruxelas - o uso mais eficiente da energia e o fomento de melhor mobilidade urbana. Isto significa maior produtividade e menos CO2. Com persistência, talvez o Governo recupere o dinheiro que esteve previsto para a alta velocidade Porto-Vigo.

Para se justificarem novos investimentos precisa-se, em primeiro lugar, de garantir que o número de passageiros do metro continue a crescer. É fundamental que cada cidadão olhe para a utilização do transporte público da sua cidade como se estivesse a marcar um golo pela sua equipa.

Além disso, há que escolher: estender mais a rede ou dar-lhe densidade de passageiros? Seria importante reanalisar-se bem a nova fase planeada. Por exemplo, a engavetada "linha circular", no miolo da cidade (o projecto inicial apontava para as ruas de Fernão de Magalhães, Costa Cabral, Rotunda da Boavista, Campo Alegre, Palácio de Cristal e a Praça dos Leões). Ela ajudaria muito à essencial revitalização da Baixa do Porto - importante para garantir novas indústrias culturais, melhor turismo, mais reabilitação urbana. Esta linha pode muito bem ser o ovo de Colombo de uma maior capitação de passageiros no metro.
É preciso também dar solução ao problema da Avenida da Boavista. É inacreditável que a maior artéria da cidade, com elevada concentração de serviços, hotéis e pólos de turismo, esteja desintegrada da rede. Rui Rio tinha razão ao insistir com o desastroso ministro Mário Lino na necessidade de se executar a linha Matosinhos Sul-Boavista - mais barata porque está à superfície, e rápida de construir. Ainda é possível voltar atrás?

Convém, a este propósito, não esquecer o que tem dito Souto de Moura sobre a alternativa entretanto aprovada, a linha Matosinhos Sul-São Bento: "O metro não cabe" no troço Campo Alegre-Praça da Galiza. Ora, se o 'Prémio Nobel' da Arquitectura diz isto - ele que conhece tão bem o metro do Porto, - vale a pena, pelo menos, perceber porquê. Desde o princípio que fica a ideia de que o 'bom negócio' seria levar o metro pela futura Avenida Nun'Álvares (junto à Foz) e com isso potenciar-se-ia a valorização imobiliária (de luxo) da nova artéria. É em momentos de crise que as decisões públicas têm de ser ainda mais criteriosas. Quem tem razão? Souto de Moura ou os estudos da Metro do Porto?

Acresce que o Porto talvez necessite mais de reabilitação do que fomentar construção hipervalorizada pelo metro à porta. Precisamos de mais prédios a entrar no mercado? Ou a reabilitação da baixa exige que se concentre ali o dinheiro que resta? Um miolo de cidade recuperado é a melhor alavanca para o crescimento dos serviços e do turismo em toda a Área Metropolitana, e isso cria emprego. A mobilidade urbana inteligente, fiável, e sem poluição, é o que vai distinguir as cidades do futuro onde valerá a pena viver e investir. O metro, e uma visão integrada de transportes ao seu redor, é a chave desse futuro.

Nota de RoP:
Espero não se tratar de uma mera ilusão óptica, ou cosmética, mas noto uma ligeira melhoria no JN, nomeadamente em matéria de colaboradores. Gostava de não me estar a precipitar...

Dêem-lhe tempo, ou, se não podes vencê-los...


Dêem-lhe tempo

A apresentação do Programa de Governo funcionou como tiro de partida para que vários "lobbies", habitualmente discretos, saltassem alvoroçadamente da toca vendo os seus interesses na iminência de ser beliscados.

Para Pais do Amaral e para Balsemão, não existe, no actual panorama televisivo, lugar para outro concorrente (e que raio terão os contribuintes com isso?). Com a hipotética privatização de um dos canais da RTP passaria desta vez a haver, para alguns voluntariosos críticos do "excesso de Estado", "concorrência em excesso". Ou seja: pensando melhor, talvez afinal o Estado não seja mau, principalmente se somos nós quem está debaixo do seu guarda-chuva proteccionista.

Também a notícia da suspensão do TGV parece ter posto os cabelos em pé a muita gente, do consórcio ELOS, liderado pela Soares da Costa e pela Brisa (que se preparava para cobrar 1,359 mil milhões de euros, sem IVA, pela construção, mais 12,2 milhões por ano pela manutenção dos 167 quilómetros do troço Poceirão-Caia, ameaçando agora reclamar 150 milhões de indemnização ao Estado, ao... ministro espanhol do Fomento, para quem suspender o TGV é uma "má decisão" pela qual poderão vir ser pedidas explicações a Portugal (que é como quem diz aos contribuintes portugueses).

Passos Coelho não sabe onde se meteu. Dêem-lhe tempo. Acabará, como Sócrates, por descobrir, os "lobbies" regressarão a penates e tudo voltará à normalidade.

[Do JN]

29 junho, 2011

Povo-enigma

O leitor não levará a mal se começar por dizer uma redundância. Que tudo aquilo que aqui escrevo, não é mais do que uma súmula de opiniões. Das minhas opiniões, claro. Compreenderá, espero, que por mais fortes que sejam as minhas convicções [e pode crer que são], não tenciono impô-las a ninguém. Deixo ao critério de cada um, retirar as conclusões que entender melhor. É que, de vez em quando, gosto de fazer breves exames à consciência, tal é a frequência com que censuro o meu povo, sentindo-me apesar disso, sua parte integrante. 

Fiz esta breve introdução, porque tenciono continuar a falar do povo, e no grande mistério que ele constitui para mim. Mais do que o enigma chamado políticos, preocupa-me aquele que se chama  povo.

Vi com muito estranheza, a reeleição de Rui Rio como Presidente da Câmara do Porto, mais exactamente, a do 2º. e 3º. mandato, já que o 1º., houve quem o visse como um castigo ao PS pelo abandono de Fernando Gomes da chefia do município, a troco de uma vaidadezinha carreirista. Outro mistério, foi o eleitorado ter permitido a José Sócrates a manutenção do Governo durante tanto tempo, depois de tantas e repetidas asneiras. Enfim, foram verdadeiros fenómenos sem qualquer explicação racional que os justifiquem.

A realidade, é que  a soberana vox populi, que apenas se faz ouvir através do voto, e sem conhecer minimamente os eleitos, não teve sabedoria bastante, tanto para evitar a intervenção do FMI no país, como para correr com o pior, e mais abulíco Presidente de Câmara que a cidade do Porto jamais conheceu, o que, contraria, em parte, a ideia ,de que o povo tem sempre razão. Antes tivesse.

A entrada da Troika em Portugal, não serve apenas para alimentar centenas de debates televisivos, com a bafienta colaboração de muitos co-autores de descalabros antigos, serve também para a população (se para tal estiver disponível), estabelecer contrastes entre o que se disse, e se fez, em anteriores tomadas de posse, e o que se diz, e sobretudo o que se terá mesmo de fazer, na presença do FMI. Se assim entender, se o povo não se distrair demasiado com  telenovelas e futebol [e eu gosto de futebol], então irá talvez estranhar quando ler títulos noticiosos como o que hoje vinha  no JN : "Ministros que falhem orçamento são penalizados". Depois de lidos tais títulos, o que é que nos ocorrerá imediatamente concluir? Que, antes, ministro que apresentasse derrapagens orçamentais nunca era penalizado? Pois, não era, não. Talvez com a polícia Troika por perto as coisas melhorem...

Há uma outra curiosidade que vale a pena observar. São visíveis, da parte de alguns membros do novo governo, alguns sinais, ou vontade, de mostrar depressa serviço, principalmente os mais novos, o que é de louvar, mas receio que tal não passe de uma euforia momentânea e que cedo tudo volte à histórica (a)normalidade, quando, e se, a Troika deixar de os "policiar".

Duvido que o FMI, tão cedo, dê rédea-solta ao governo e que este se possa dar ao luxo de cometer as asneiras de governos do passado recente, e remoto. Por enquanto, está obrigado a fazer bem o trabalho de casa, e não tem margem de manobra para errar. Mas cuidado, que não se estique demais a corda da austeridade, porque aquilo que está a acontecer na Grécia, pode repetir-se aqui, se o bom senso não acompanhar as medidas que devem ser tomadas.   Os gregos revoltosos, a quem Judite de Sousa se lembrou de chamar anarquistas, dizem [e ela parece não ter ouvido], preto no branco, que não estão mais dispostos a fazer sacrifícios por uma crise extremada pelo comportamento corrupto dos seus políticos, e isso é que devia preocupar a jornalista e o nosso Governo. 

Palpita-me portanto, que a ideia lançada por Paulo Portas de tratar todos os subsídio-dependentes comprovadamente pobres, como um bando de oportunistas preguiçosos, e obrigá-los a trabalho comunitário, parece-me, além de ofensiva, discriminadora, demagogo e uma pura aberração política. Pode até ser a primeira bomba a explodir nas mãos de Passos Coelho. Será uma medida que pode virar-se contra o objectivo pretendido, pois configura o aproveitamento de mão d'obra miserável em beneficio do Estado, não sendo por aí que o país irá progredir.

Há que ser realista, não tratar as pessoas como mentecaptas, sem esquecer as centenas que todos os dias aumentam a longa lista de desempregados, com o mercado trabalho sem nada de concreto para lhes oferecer. A livre iniciativa não é para todos, custa dinheiro. Salvadores Caetanos, não abundam,  políticos sérios e competentes também não.

Será que o povo, o enigma povo, tem consciência disso? Cá por mim, tudo indica que o povo continua a votar orientado por um único critério: o das aparências.  Será? Sinceramente, não sei responder. O enigma permanece.

28 junho, 2011

Marcelices e antípodas

Se o ex-político, Marcelo Rebelo de Sousa e o empresário recém falecido Salvador Caetano, fossem territórios ou oceanos, sem dúvida formariam, dois pontos completamente antipodais.  Enquanto Salvador Caetano fez do trabalho duro e da sua 4ª. classe, um império de sabedoria, traduzido em cerca de 2,4 mil milhões de euros e em 6.500 "irrisórios" postos de trabalho distribuídos por vários países do Mundo, Marcelo Rebelo de Sousa, com a sua licenciatura em direito, e enquanto político, pouco fez de relevante pelo país...

Ou me engano muito, ou foi mesmo por Marcelo ter a língua comprida, que Passos Coelho travou a ida do administrador da TVI, Bernardo Bairrão para Secretário de Estado da Administração Interna. E se foi de facto essa a causa da súbita mudança de ideias de PPC, só tenho é de o elogiar. Primeiro, porque deu um claro sinal de querer blindar o novo governo das prodigiosas boatices de governos anteriores. E segundo, porque sem entrar em explicações estéreis, disse claramente quem manda no partido e no Governo. Espero que esta atitude seja seguida de outras semelhantes sempre que achar imperativo fazê-lo. Se tiver arcaboiço para suster as pressões internas e dos media, pode ser que este seja o princípio de uma nova forma de fazer política. Não tenho lá muita fezada, mas quem sabe?

Não vejo pois, como populistas [longe disso] estas recentes notícias que dão conta da fuga de alguns membros do Governo às futilidades protocolares. O que é preciso é continuar, não abrandar, nem dar sinais de que estes actos não passam de romanticos e voláteis processos de intenções. Acho bem, didáctico até, que alguns deputados e membros do governo, passem a ir [sempre que possível, claro] de bicicleta para o parlamento ou para os ministérios. Acho correcto que tentem evitar tanto quanto possível o recurso a luxos e mordomias num momento como o actual, onde o desemprego sobe vertiginosamente e o custo de vida também. A isso chama-se, bom senso.  Ao contrário do professor Marcelo, que até sobre futebol gosta de dar pareceres, não penso que o actual Ministro da Economia tenha deixado cair os parentes na lama por gostar que o tratem pelo nome. Afinal, é pelo nome que todos nos devemos tratar. O senhor Ministro Álvaro Santos Pereira viveu alguns anos num país moderno e evoluído, como o Canadá, limpou a cabeça de preconceitos. Não será portanto Portugal o país mais indicado para lhe dar conselhos, e muito menos o senhor Marcelo.

O uso extemporâneo do título académico antes do nome, mais não é do que uma manifestação bacôca de provincianismo e pedantice que só agrada às pessoas  que não confiam nas suas capacidades e na sua honra pessoal. Marcelo, até neste comentário foi ridículo, deixando bem visível os laços que ainda o prendem ao Estado Novo...

Gostava, era de ver Marcelo preocupado com outras situações, essas sim, graves e indignas de quem ascendeu a lugares políticos de relevo, como os seus ex-colegas de partido, Dias Loureiro e Duarte Lima [só para citar alguns]. Presumo que falar destes políticos «exemplares», e da pouca vergonha que os envolve, seja proibido, assunto tabu, acto populista, mas diga-se de passagem, tanto cinismo, já começa a agoniar.   

Bem tinha as minhas razões em desconfiar das palavras de Ludgero Marques, proferidas aqui há uns anos, quando pretendia acabar com o tratamento de engenheiro nos círculos empresariais. O português-tipo não alinha em pragmatismos, gosta da - desculpem-me a grosseria - cagança. Põe sempre o parecer à frente do ser.

Talvez seja esta vacuidade mental que continua a dar lastro a futuros Marcelos Rebelos de Sousa. Convencidos e hipócritas.

27 junho, 2011

Um buraco chamado Lisboa

Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.

O problema não é novo. Quem leu a "Queda de um anjo", de Camilo, sabe que este maléfico magnetismo já era poderoso mesmo num século como o XIX onde o Porto liberal, invicto e vitorioso da Guerra Civil, viveu um dos períodos de maior esplendor da sua história.

Ao nacionalizar os grupos económicos que viviam à sombra da protecção do Estado Novo, o 25 de Abril abriu o espaço para a emergência, a Norte, de uma nova geração de empresários, de que Belmiro de Azevedo e Américo Amorim são as cabeças de proa, que mudaram a face do país.

O poder económico deslocou--se para Norte, onde uma impressionante multidão de PME produtoras de bens transaccionáveis salvaram, com as suas exportações, o país da bancarrota.

Os empresários do Norte não ficaram à espera das privatizações e aventuraram-se a criar os primeiros bancos privados (BPI e BCP) após a revolução, numa altura em que os velhos capitalistas ainda mantinham bens e famílias na Suíça e no Brasil.

Cavaco pôs um ponto final a esta fase de desenvolvimento harmonioso e liberal da economia do país ao usar o programa de privatizações para fazer renascer os grupos engordados à mesa do salazarismo. Nenhum analista político e económico honesto deixará de identificar a década cavaquista como o período em que os portugueses, anestesiados pela chuva torrencial de dinheiro vindo de Bruxelas, consentiram na construção de um estado ultracentralista e fecharam os olhos ao nascimento de dois monstros (o do défice e o da Função Pública).

Fernando Gomes foi o líder que capitalizou a nível político o poder económico da região, que já se deslocava para o buraco negro lisboeta. A proclamação pela UNESCO do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade, o metro do Porto, o Parque da Cidade, o Porto Capital Europeia da Cultura, a Casa da Música são as marcas deste período áureo da metrópole que, com o seu porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro, é a cabeça natural da mais empreendedora região do nosso país.

Apesar de ser o líder respeitado de uma região e de estar informado das desventuras na capital do fidalgo minhoto Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (o herói da novela camiliana), Fernando Gomes não resistiu ao cântico das sereias lisboetas e na primeira oportunidade trocou a vista da Avenida dos Aliados pela do Terreiro do Paço, com o resultado conhecido (o suicídio político).

A contínua migração para Lisboa de líderes e massa cinzenta tem de deixar de ser uma fatalidade.

Para ressurgir, a Região Norte precisa de políticos que olhem para o Porto, Aveiro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Bragança, Viseu, Guarda e Vila Real como pontos de chegada - e não como pontos de partida.

[Jorge Fiel/JN]

Nota de RoP:
Esta crónica já tem alguns dias, mas como os factos mostram, não perde na oportunidade. Nem irá perder, no futuro.

Razia idêntica à do fim dos anos de 1980

Estudo entregue à troika propõe fecho de 800 km de linha férrea

A concretizar-se, será uma razia idêntica à do fim dos anos de 1980, quando Portugal encerrou 800 quilómetros de linhas de caminho-de-ferro, sobretudo no Alentejo e em Trás-os-Montes. O Governo de José Sócrates propôs à troika o encerramento de 794 quilómetros de vias-férreas, também com particular incidência no Norte e no Alentejo, mas desta vez incluindo algumas linhas do litoral, como a própria Linha do Oeste, que seria encerrada entre Louriçal e Torres Vedras (127 quilómetros).

O estudo foi realizado, à revelia da Refer, por uma equipa conjunta do Ministério das Finanças e do Ministério das Obras Públicas e Transportes. E consolida o fim das linhas que até agora estavam encerradas "provisoriamente" à espera de obras de modernização (Corgo, Tâmega, Tua e troços Figueira da Foz-Pampilhosa e Guarda-Covilhã, num total de 192 quilómetros). Inclui também a Linha do Douro, entre Régua e Pocinho (68 quilómetros), a Linha do Leste entre Abrantes e Elvas (130 quilómetros), a Linha do Vouga (96 quilómetros), o ramal de Cáceres (65 quilómetros), a Linha do Alentejo entre Casa Branca e Ourique (116 quilómetros). Esta última deixaria Beja sem comboios, apesar de, neste momento, a CP estar a preparar uma oferta especial desta cidade aos Intercidades de Évora.

O documento foi apresentado à troika como uma medida eficaz de redução da despesa pública, uma vez que tem um forte impacto simultâneo nas contas da Refer e da CP. Na primeira empresa reduz custos de manutenção e de exploração e na segunda permite-lhe acabar com o serviço regional onde este é mais deficitário (embora nalgumas linhas a abater exista um significativo tráfego de mercadorias).

O impacto deste eventual encerramento deixa a rede ferroviária circunscrita basicamente ao eixo Braga-Faro, Beira Alta e Beira Baixa, desaparecendo as restantes linhas, sendo amputadas outras.

O PÚBLICO apurou que a administração da Refer não subscreve esta visão sobre a ferrovia portuguesa e que tem em cima da mesa um documento de trabalho - ainda não terminado - com uma proposta de cortes mais modesta.

Nela se mantém o fecho das linhas já encerradas (com excepção da ligação Guarda-Covilhã) e se estuda o encerramento do ramal de Cáceres (Torres das Vargens-Marvão), a Linha do Vouga apenas entre Albergaria e Águeda (14 quilómetros) e a Linha do Alentejo entre Beja e Ourique (36 quilómetros). No total, são 240 quilómetros, contra os 800 preconizados no documento elaborado pela equipa mista das Obras Públicas e das Finanças do Governo anterior, liderado pelo PS.

Técnicos da Refer contactados pelo PÚBLICO dizem que esta é uma proposta "cega" e que ignora a importância das redundâncias do sistema. Por exemplo, a Linha do Oeste serve de alternativa à Linha do Norte e a do Alentejo à do Sul. O encerramento conjunto do ramal de Cáceres e da Linha do Leste privaria Portugal de qualquer ligação ferroviária a Espanha a sul de Vilar Formoso, aumentando a distância dos portos de Sines, Setúbal e Lisboa a Madrid e à Estremadura espanhola.

No Douro, o encerramento da linha a jusante da Régua compromete o desenvolvimento turístico da região, que é património mundial. Paradoxalmente, o que os autarcas da região têm vindo a pedir é a reabertura do troço Pocinho-Barca de Alva para fins turísticos e para aproximar a região do mercado espanhol.

Outro paradoxo é a linha entre Guarda e Covilhã, na qual a Refer tem investido, nos últimos sete anos, dezenas de milhões de euros e onde decorrem presentemente investimentos de 7,7 milhões de euros para reparação de túneis. Este troço arrisca-se a não reabrir depois deste dinheiro gasto.

Já sobre a Linha do Oeste havia a promessa da sua modernização, dado tratar-se de uma linha que atravessa uma das regiões do país com maior densidade populacional, unindo um corredor que contém Torres Vedras, Caldas da Rainha, Marinha Grande, Leiria, Figueira da Foz e Coimbra. Um corredor, de resto, que tinha tanto potencial em termos de mobilidade que justificou a construção das auto-estradas números 8 e 17."Dizem que a crise é boa para mudarmos hábitos e mudarmos de paradigma. Uma dessas mudanças tem a ver com uma mobilidade mais amiga do ambiente, com o uso do transporte público e o fim do "deus automóvel", mas não é a fechar linhas que isso se consegue. Se se acaba com a infra-estrutura, o comboio, que já hoje é pouco relevante, terá no futuro uma quota ainda mais residual", queixava-se ao PÚBLICO um quadro da Refer que pediu o anonimato.

Se a Refer ficar aliviada destes 800 quilómetros de linhas, os seus quadros ficarão anda mais sobredimensionados, pelo que, em vez dos 500 despedimentos previstos (PÚBLICO, 14/4/2011), este número poderá chegar aos 800. O Governo actual poderá "comprar" este documento e fechar as linhas sem grandes dificuldades, alegando as imposições da troika e com a vantagem acrescida de o trabalho de casa já ter sido feito pelo anterior Governo socialista. Ou poderá mandar estudar tudo de novo, ou ainda aceitar como bom o estudo em curso na Refer.

O actual conselho de administração desta empresa pública (nomeado pelo Governo de Sócrates) termina o mandato no fim do ano, pelo que dificilmente o novo Governo o substituirá - caso contrário, teria de pagar chorudas indemnizações a administradores, em época de crise.

[No Público]