22 maio, 2014

A abstenção é um acto de independência cívica


Eu sei que a Europa está em crise. Já quis ser Comunitária, e agora tudo tem feito para não consolidar a União (a Alemanha de Merkl que o confesse). Mas sei também que a crise não é uma crise, são vários géneros de crises, e não se limitam à Europa. Podemos dizer, sem risco de exagerar, que as crises são globais. Até o clima no planeta parece ter entrado em crise... Abordemos a mais importante: a crise de valores.

Nos ideários político-partidários, fora dos dossiers programáticos, não se vislumbram preocupações genuínas com as questões éticas e sociais. Os partidos de esquerda conhecem-nas, é verdade, mas nunca como agora tiveram oportunidade para delas se servirem e poderem afirmar-se como alternativa aos vetustos e viciados partidos do chamado arco do poder (PS, PSD e CDS). Comentam com pertinência, mas são incapazes de fazer aquilo que lhes competia, que era persuadir o eleitorado, através de propostas de compromisso realistas, provando que possuem capacidade para governar o país com competência e seriedade. Mas para isso resultar, deviam tentar a "utopia" de encaixar no regime actual sem assustar os eleitores com as fórmulas caducas (comunistas) que os condenam à condição exclusiva de partidos de oposição. Pode-se-lhes louvar a coerência doutrinária, mas não se lhes pode reconhecer a objectividade como alternativa ao poder que, com razão, criticam. Isso, torna-os uma espécie de figuras decorativas da política que pouco mais servem do que para roubar alguns votos à direita conservadora, sem no entanto a poder substituir.

Outro ponto que me faz desconfiar dos partidos da oposição, é o silêncio cumplíce com os partidos do Poder nessa questão tão importante para o país, e para o Norte em particular, como é a Regionalização. Mostram estrategicamente o mesmo oportunismo que os partidos de governo, ou seja, preferem abdicar do potencial eleitorado, esclarecendo, desmistificando fantasmas, e alinham com a mesma hipocrisia e o mesmo conservadorismo daqueles que dizem combater. E a desculpa é sempre a mesma: não é oportuno. A ladaínha é sempre igual, o que para mim é suficiente para concluir que naquelas cabeças não luras donde possam sair coelhos... E portanto, eu não arrisco a dar-lhes o meu voto só para lhes satisfazer as vaidades pessoais.

O Manuel Serrão é um portista castiço, a quem até acho piada, que não é burro, mas não consegue ocultar a veia ultra-conservadora dos seus escritos. Ontem, decidiu lançar areia para os olhos dos leitores do JN quando, pegando numa frase do seu amigo Miguel Esteves Cardoso - "quem se abstém dá um voto de confiança nos que votam para decidirem por ele" - decidiu enfatizar a tese . Fazer tal afirmação é tão absurdo como dizer que quem não frequenta como eu as redes sociais (porque não gosto), é porque estou a querer dinamizá-la. Não pode haver maior contradição e falta de respeito pela opinião de alguns que confundí-las com a opinião de todos. É misturar a árvore com a floresta.

A abstenção lamenta-se, mas não se discute, porque é uma atitude tão válida, ou mais, que outra qualquer. E ao dizer que se lamenta, digo-o exactamente porque gostaria mesmo muito de votar. Mas para mim o voto é uma coisa demasiado séria, não pode servir para satisfazer o ego e os interesses de alguns. O voto para mim tem obrigatoriamente de ter retorno. Sem isso, não há voto. Ora, quando no passado o retorno dos meus votos teve como resposta a abdicação sucessiva de promessas, quando retratou como nenhuma outra coisa a falta de honradez de quem deles beneficiou, a minha decisão para com os líderes dos partidos está tomada: hipotequem a palavra, dêem-me garantias (como os bancos, sim), e depois conversamos.

Só assim me disporia a arriscar. Até porque o voto de um cidadão nunca devia ser uma decisão de risco, e lamentavelmente é.

Espero ter sido suficientemente eloquente. Se não fui, paciência, porque vou continuar neste caminho. Gostem ou não.

20 maio, 2014

Votar ou não, a questão é: não! E voto obrigatório, nunca !


O jornalista Paulo Ferreira apresentou no JN de hoje, a sua versão sobre esta questão  com a qual, exceptuando o timing, estou, diga-se, totalmente de acordo. Enfim, vale mais tarde que nunca... Cá o rapaz, que jura não ser nenhum iluminado, já chegou à mesma conclusão do senhor jornalista há muito, mesmo, muito tempo...  

Paulo Ferreira pergunta-se, com toda a naturalidade, por que é que "o cidadão eleitor há-de sair de casa para escolher uns tipos que mal conhece, para ocuparem um cargo numa instituição (distante) que mal conhece, que é o Parlamento Europeu?" Pessoalmente, há longo tempo que levanto a mesma questão aqui no Renovar o Porto em relação às eleições legislativas nacionais e não percebo por que é que ainda ninguém se lembrou disso mais cedo. É que, comparativamente falando, em termos de proximidade com os eleitores noutros actos eleitorais que não estes, o único momento em que os candidatos se aproximam do povo é  durante as campanhas, nos mercados, ou seja, quando lhes interessa. Com beijinhos e tudo... Depois disso, eclipsam-se. Ou não será verdade?

Não têm sido afinal os aparelhos partidários a impor ao eleitorado os seus candidatos sem previamente os darem a conhecer? Como é que apareceram Cavaco, Guterres, Barroso, Sócrates, Coelho e todos que os precederam? Acrescento: os próprios partidos saberão o suficiente do perfil intelectual e humano dos seus candidatos, ou estarão sequer interessados nisso antes de os elegerem? Cá para mim, as nomeações nos partidos funcionam mais em sistema de "combustão espontânea" e por puro servilismo, do que sustentadas em profundas reflexões dos militantes.  

Agora, que paulatinamente o rabiote dos políticos se desnuda, chega Marcelo Rebelo de Sousa (esse sim, um iluminado) com os resquícios genéticos do passado, a querer "sugerir" a obrigatoriedade do voto! Só nos faltava esta. Roubam-nos os ordenados, roubam-nos as reformas e já querem roubar-nos o direito de votar, ou não? Pela parte que me toca, caro Marcelo, levas um grande manguito! E mais, nem o voto em branco me dá qualquer confiança. Nunca sabemos o destino que lhes dão. É melhor não facilitar.

Caros leitores: há-de chegar o dia em que algum jornalista se lembrará, como se lembrou (só) agora o Paulo Ferreira do JN, que é preciso reformular a qualidade do voto, para melhorar a qualidade da "vindima" eleitoral (como os vinhos).

É só uma questão de tempo, eles chegam lá...



16 maio, 2014

CONCESSÕES DA STCP E DA METRO PORTO TERÃO “CONCURSOS SEPARADOS”

“A nossa intenção sempre foi que houvesse concursos separados para a STCP e para o Metro do Porto, nunca foi nossa intenção um concurso conjunto em que a um operador se atribuíssem as 2 concessões”, afirmou Sérgio Monteiro quando questionado sobre a recomendação do Conselho Metropolitano do Porto no sentido da separação dos concursos das 2 concessões.
Segundo o secretário de Estado – que falava no Porto, à margem da cerimónia de tomada de posse dos novos órgãos sociais da Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros (ANTROP) – “pode até ser que o mesmo operador ganhe os 2 concursos em separado, mas isso é o resultado normal do concurso”.
“Serão sempre concursos separados, quer a STCP [Sociedade de Transportes Colectivos do Porto] e o Metro do Porto, aqui no Porto, quer a Carris e o Metropolitano de Lisboa, em Lisboa”, assegurou.
De acordo com Sérgio Monteiro, o processo de concessão dos serviços públicos de transportes de Lisboa e Porto “é irreversível” e “seguirá nos calendários que estavam estimados”, o que significa que haverá “decisões relativamente ao caderno de encargos até final do mês de Junho”, de forma a que “o processo siga durante o segundo semestre de 2014, para se ter até ao final do ano a decisão relativamente a quem presta o serviço”.
Relativamente ao modelo de concurso a adoptar, o secretário de Estado disse estar ainda a ser trabalhado, salientando que “o importante é que os contribuintes saibam que o objectivo de indemnizações compensatórias zero no próximo ano para os operadores de transporte é certo, independentemente do que aconteça nos próximos meses”.
Concessões concluídas este ano
O Documento de Estratégia Orçamental (DEO) refere que a concessão dos serviços públicos de transportes de Lisboa e Porto deve estar concluída até ao final de 2014.
O lançamento dos processos de concessão da operação da Carris, Metropolitano de Lisboa, Metro do Porto e STCP está “em preparação” e deve ser efectuado até Junho, prevendo-se a sua conclusão até final de 2014, lê-se no documento.
No caso da Carris e do Metro de Lisboa, a Câmara de Lisboa aprovou em Abril uma deliberação que mandata o presidente, António Costa, a negociar com o Governo a passagem da gestão destas 2 empresas de transportes públicos para o município.
Aquando da aprovação pela autarquia, António Costa indicou apenas que a gestão do Metro e da Carris será feito por um período entre 5 a 10 anos, defendendo, depois desse período, o regresso da titularidade destas empresas para o município.
O autarca socialista admitiu também o financiamento da gestão destas duas empresas de transportes públicos com receitas provenientes do estacionamento e de contra-ordenações de trânsito.
Já quanto às empresas a operar no Porto, o Conselho Metropolitano do Porto recomendou no final de Abril ao Governo a separação dos concursos das concessões da Metro do Porto e da STCP, considerando que não devem arrancar sem a devida informação aos municípios sobre os cadernos de encargos.
A recomendação surgiu após uma reunião tida entre aquele órgão metropolitano e Sérgio Monteiro no início de Abril, na qual ficou assumido o envio de uma tomada de posição dos 17 autarcas da Área Metropolitana do Porto (AMP).
Na carta que foi enviada ao Governo, o Conselho Metropolitano do Porto salienta ainda ser “imprescindível realizar um conjunto de estudos, neste momento inexistentes e/ou desconhecidos, sobre a mobilidade na AMP, quer nas áreas cobertas pela Metro e STCP, quer nos demais concelhos, numa perspectiva metropolitana integrada”.
Quanto à concessão do serviço de metro, “deve assentar na incorporação dos créditos da concessão com vista ao alargamento da rede”.
[do Porto24]

15 maio, 2014

Aliança com Lisboa contra o centralismo, utopia, ou genialidade?

RUI MOREIRA

Para mim, portuense e portista dos sete costados, ouvir alguém dizer que "quem não é benfiquista não é bom chefe de família", é tão, ou mais ofensivo que digerir essa patranha politiqueira que anda a apregoar no plural que temos de pagar a crise por "andarmos a gastar mais do que podíamos". 

Informo, a propósito, aqueles que pensam que estou a inventar um sinónimo abusivo e a confundir as coisas, misturando o Benfica com o Centralismo, que sei muito bem o que estou a dizer, não me enganei. E nem mesmo o facto de saber que no Porto, como no resto do país, há gente capaz até de matar a família para conseguir um lugar ao sol nas cadeiras do Poder me desviará um milímetro da convicção de que o Benfica é o espelho fiel do que é o centralismo e do que ele tem de mais xenófobo. Se dúvidas houvera, os dias encharcados de propaganda vermelha que antecederam e sucederam o jogo da final da Liga Europa terão bastado seguramente para as dissipar. Se não bastaram, é caso para duvidar da inteligência. Comparar a publicidade, o apoio e a informação dada pelos media (incluindo os públicos) ao Benfica, com o que se tem feito com o FCPorto em situações semelhantes é de persi uma aberração moral. 

Por isso, é que, compreendendo embora as boas intenções de Rui Moreira de querer combater o centralismo numa aliança com Lisboa, pode ser tempo perdido. Já o revelei aqui várias vezes que nutro particular simpatia por Rui Moreira, mesmo não estando sempre sintonizado nas suas ideias, porque acima de tudo o considero um homem sério, e sobretudo por acreditar ter uma propensão natural para negociar e atenuar conflitos.

Sei que não é fácil governar, tanto um país como uma Câmara, de ter de lidar com oposições por vezes mesquinhas e com assuntos comezinhos, mas acredito que Rui Moreira saberá cumprir o seu mandato com o rigor e a isenção que se espera. Estrategicamente, louvo a ideia de puxar Lisboa para o combate contra o centralismo, mas receio que consiga congregar à sua volta os apoios suficientes para o derrubar. As máquinas partitárias estão lá, e são todas dominadas pelo clientelismo, e quem se meter pelo meio sem se orientar pela mesma cartilha arrisca-se a ser triturado.

Espero contudo que Moreira me contrarie os presságios, ficaria mesmo muito contente. Há já uma mão cheia de iniciativas suas que me agradaram e que me dão a esperança de que algo estará a mudar na forma de administrar a Câmara. Mas ainda há muito por fazer. O caminho é longo, e cheio de escolhos, sendo a paranóia do centralismo o mais duro de ultrapassar.  Aguardemos.  


14 maio, 2014

Sevilha - 2 Centralismo - 1. E o centralismo vergou


Um refinado sentido de cidadania, mais o desprezo profundo pelos representantes do centralismo que tão maltratam o resto do país, obrigam-me a confessar publicamente o meu sentimento de profunda felicidade por saber que os arrogantes morreram na praia. Mais uma vez! 

Parabéns, Beto! A vitória é sobretudo tua! 

Viva o FCPorto!

12 maio, 2014

Da política à irresponsabilidade

É extraordinária a ausência de honradez da classe política. Agora, e sempre que se aproximam as campanhas eleitorais, é vê-los a prometer mundos e fundos, dizer que se forem eleitos, que vão fazer isto, e acabar com aquilo, e a colarem confortavelmente os seus discursos histéricos às reivindicações populares. Foi assim com Sócrates (e antes dele), piorou com Coelho, e tudo aponta para continuar com Seguro (se for eleito). São todos iguais. Então, em questões de carácter, é uma miséria, parecem clones uns dos outros.

À medida que os anos avançam na idade, mais se consolida em mim a ideia regressiva da humanidade. Até o progresso científico e tecnológico de que tanto nos orgulhamos se tem revelado impotente para evitar os males terríveis dos seus efeitos colaterais. Há sempre soluções (dizem os parvos dos optimistas), mas até as "soluções" têm efémera duração  e arrastam consigo mais problemas. Para termos uma pequena ideia, basta calcular o número de vezes que cada cidadão se desloca ao supermercado durante um mês, pelo número de produtos não recicláveis consumidos (sacos de plástico, pilhas,etc.) e multiplicá-los por milhões de cidadãos do mundo a fazer o mesmo, que depressa nos arrependemos de tentar fazer as contas. Só um saco de plástico leva mais de 400 anos a decompor-se na natureza. Uma pilha, cerca de 450 anos! E não se iludam, porque a reclicagem que se começa a fazer de alguns desses produtos jamais acompanhará o ritmo sôfrego da ganância capitalista. 

Bem sei que aqueles que tal como eu hoje vivem e aqueles outros que estão ainda para nascer não vão ficar cá para sementes para poderem contar como estará o mundo daqui a umas centenas de anos, mas, e daí? Teremos nós o direito de dar cabo do planeta apenas porque não somos eternos?

E os homens que lideram o mundo, que ideia terão sobre este grande dilema? Cá para mim, por aquilo que vou observando, acho que se estão completamente nas tintas. Mas não deviam. Até porque a incapacidade que demonstram em governar com justiça e respeito pelos semelhantes tem sido tão tristemente vincada e duradoira que não lhes dá qualquer atenuante. Mesmo que fossem capazes de produzir riqueza e de a distribuir melhor em qualidade de vida, não tinham nunca o direito de deixar o planeta apodrecer em nome de um progresso cego, indiferente ao destino das gerações futuras.

Que sonhador eu sou... Há que repor os pés na terra. Nesta terra desses animais selvagens  chamados homens, onde as espécies sem escrúpulos predominam. Banqueiros e políticos são os abutres desta selva, os que se alimentam  da luta pela sobrevivância dos outros.

Quando será que esses outros decidem mover-lhes caça cerrada? Acordem!


11 maio, 2014

A lição da SRU



O folhetim da Sociedade de Reabilitação Urbana do Porto (SRU) parece ter chegado ao fim. Pelo caminho, desde que em 2011 o Governo recusou cumprir com as suas obrigações, escreveu-se uma longa história de irresponsabilidade e baixa política, em que o poder central procurou vergar o poder local. O Porto não cedeu e fez-se justiça. Uma lição para o futuro.

Comecemos pelo fim. O acordo que sanou o conflito assenta num compromisso entre Governo e autarquia, que permitirá reequilibrar as contas da SRU e aportar, em partes iguais, dez milhões de euros nos próximos cinco anos. Nova administração e algumas alterações no domínio das competências para o licenciamento permitirão, espera-se, regressar à estabilidade e à missão.

Este final feliz não deve, contudo, fazer esquecer o que se passou, porque os projetos estruturantes, desenhados e assumidos por responsáveis eleitos, não devem nem podem estar sujeitos a arbitrariedades cujas motivações nada têm a ver com o interesse público.

Ao longo destes últimos anos, procurando perceber se existia um racional na ação do Governo, equacionei três questões que, a meu ver, exigiam respostas claras e que passo a expor.

A missão da SRU foi cumprida e a sua existência deixou de fazer sentido? A esta primeira pergunta, a resposta que encontro é "não". O estado e extensão da degradação do centro histórico do Porto é ainda muito preocupante, apesar do meritório trabalho já realizado. Foram demasiadas décadas sem investimento, com a degradação física dos edifícios e do espaço urbano a induzir também fenómenos de degradação social. Há ainda muito a fazer e o caminho terá sempre de passar por uma conjugação do investimento público com o investimento privado, pelo que a SRU é ainda e por muito tempo um veículo necessário.

O papel e a responsabilidade do Estado na SRU esgotou-se? Também aqui, a resposta é "não". A ausência de políticas de reabilitação e de instrumentos financeiros de apoio está no cerne da degradação dos centros históricos das maiores cidades portuguesas. Convém recordar que a manutenção do congelamento das rendas, decidida centralmente desde o tempo da ditadura, resultou na total incapacidade de os proprietários procederem à mais básica manutenção. Até recentemente, existiam no centro histórico do Porto casas alugadas por valores absolutamente irrisórios. O Estado não pode fugir às suas responsabilidades.

Havia evidências de irregularidades ou má gestão? A esta última questão, a resposta é também "não". Aqui, o poder central recorreu a um dos truques mais infames a que está habituado. Deixou no ar dúvidas sobre a ação de Rui Moreira, presidente da SRU até 2012, e mandou fazer uma auditoria às contas, devidamente acompanhada pelos adiamentos das assembleias gerais da sociedade e mesmo por um chumbo das contas anuais. Auditoria que, não surpreendentemente, não revelou nem más contas, nem má gestão.

Face a estes três "nãos", torna-se difícil compreender a ação do IHRU, acionista maioritário que representava o Estado. Só mesmo um fundamentalismo doentio, de um governo que desde 2011 tudo sacrificou em nome da austeridade, pode justificar tamanha guerra por causa de um par de milhões de euros de investimento.

Averdade é que, normalmente, é o elo mais fraco que acaba por ceder, seja uma câmara municipal, uma junta de freguesia ou qualquer outra entidade "menor" do setor público. Só que, desta vez, o Porto não cedeu, primeiro por Rui Rio e depois por Rui Moreira, sendo que este foi alvo de uma retaliação extra quando se deu a conhecer como candidato a presidente da Câmara. Todos se recordarão que o relatório da auditoria às contas foi metido na gaveta até depois das autárquicas de 2013, não fosse o candidato Rui Moreira ganhar as eleições ao candidato do partido do Governo.

A solução consensual a que se chegou agora só foi possível porque o Porto não desistiu e porque mudaram os protagonistas. Assunção Cristas nunca compreendeu o que estava em causa. Jorge Moreira da Silva, mais político e bem mais letrado nas matérias do território, percebeu rapidamente que nada disto fazia sentido. Do lado da autarquia portuense, todo o mérito vai para a persistência e capacidade de negociação de Rui Moreira, que teve ainda a classe de não manifestar qualquer ressentimento.

09 maio, 2014

CIENTISTAS APRESENTAM DESCOBERTAS SOBRE CANCRO NA CÂMARA DO PORTO



Investigadores do IPATIMUP suspenderam o trabalho de laboratório durante uma semana e transferiram-se para a Câmara do Porto onde até segunda-feira estão disponíveis para falar das suas descobertas na área do cancro, esclarecer dúvidas e encaminhar quem necessitar.

Os visitantes poderão ficar com “uma ideia do que fazemos no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) no domínio do cancro e das doenças pré-cancerosas, assim como conhecer pessoalmente as pessoas que trabalham no Instituto”, explica Sobrinho Simões, director do IPATIMUP.
“As pessoas do Porto podem vir cá. Eu estou o dia todo, as pessoas podem tirar dúvidas. Hoje [sexta-feira], abordamos o cancro familiar, com o Sérgio Castedo, que é um dos maiores especialistas do mundo nesta área. As pessoas podem expor o seu problema, não fazemos consultas, mas podemos fazer a ligação para que a pessoa possa fazer uma consulta detalhada no hospital”, sublinhou.
No caso do cancro familiar foi apontado como exemplo o caso de uma jovem a quem foi detectado um cancro na mama. Márcia Pereira contou que a sua história começou em 2009, aos 31 anos. O tumor estava ainda numa fase inicial. Cinco dias depois, foi diagnosticado o mesmo tipo de cancro na sua mãe.
Embora tenha perdido as 2 mamas (que entretanto reconstruiu), uma por necessidade, outra por prevenção, Márcia Pereira disse que nunca deixou de fazer o que gostava. “A minha vida continuou igual. Ter ou não ter um pedaço de mim não me impediu de continuar a viver a vida da mesma forma”, disse.
“O tumor estava numa fase inicial, mas como tinha antecedentes familiares aconselham-me a mastectomia bilateral. Tive dúvidas, mas hoje sei que foi a decisão mais acertada, porque tenho a alteração genética e tinha mais de 80% de probabilidade de o mesmo voltar a acontecer no outro peito”, acrescentou.
O cancro familiar “é uma situação em que se pode ter uma vitória absoluta ou uma derrota vergonhosa. Se houver alteração genética e ainda não tiverem cancro, esses indivíduos devem integrar um programa de rastreio e realizar vigilância apertada. Muitas vezes é necessário ‘mutilar’ essa pessoa, como aconteceu com a actriz Angelina Jolie”, explica Sobrinho Simões.
Na exposição “Os passos da ciência nos Paços do Concelho” as actividades estão organizadas de forma a permitir usar a história do IPATIMUP e as descobertas dos seus investigadores no sentido de esclarecer as causas e as características dos vários tipos de cancro, assim como as características genéticas e os hábitos da população portuguesa que se podem relacionar com a ocorrência dessas patologias.
O objectivo fundamental da exposição é aumentar a literacia das pessoas em relação aos problemas da saúde e do cancro e, deste modo, estimular a prevenção e o diagnóstico precoce.
Sem pôr em causa o valor de curar e de cuidar, os investigadores consideram que a solução para o problema do cancro passa sobretudo pela prevenção e pelo diagnóstico precoce.
“O grande avanço no cancro são os tratamentos que são cada vez melhores, mas a luta só se vai vencer com a prevenção e o diagnóstico precoce”, sublinha Sobrinho Simões.
Para o responsável do IPATIMUP, “não são só as pessoas que desvalorizam a prevenção, o próprio Estado também. Veja que do orçamento da saúde, só gastamos 5% em prevenção e gastamos 95% em tratamento”.
Contudo, o investigador reconhece que a prevenção é difícil em alguns casos como, por exemplo, nos tumores do pâncreas, sistema nervoso central ou do sangue.
O caso de Bárbara Machado, uma jovem de 26 anos, a quem foi diagnosticado um linfoma, foi também relatado, na primeira pessoa, nesta iniciativa do IPATIMUP.
Bárbara jogava futebol, era socorrista na Cruz Vermelha e frequentava a universidade, quando aos 22 anos lhe foi detectado o tumor maligno no sangue, no estádio 3 (numa escala de 4). “Foi uma luta difícil, tive de abandonar o futebol e o socorrismo, mas sempre encarei a doença com vontade de a vencer”, referiu.
Actualmente, com 26 anos, a jovem é também apontada como um exemplo de sucesso e é convidada para contar a sua história em vários encontros sobre o tema.
(Fonte: Porto24)

06 maio, 2014

O que é nacional, é bom? Calma, não será tanto assim...

Julen Lopetegui Argote  (o basco)

Quem já se habituou à leitura dos meus comentários terá há muito percebido que não sou um português de "orgulhos" fáceis, quase sempre encomendados pela pouco exigente comunicação social que temos. Se me perguntarem se não fiquei orgulhoso com as conquistas nacionais e sobretudo internacionais do FCPorto, é claro que respondo logo que sim. O mesmo poderia dizer - apesar de não ser o meu clube -, se o Benfica ganhasse um troféu internacional, ou até mesmo nacional. Só que, rivalidades clubistas à parte, o histórico desse clube em matéria de fair-play, não mo permite sem correr o risco de bliscar a minha auto-estima... Sentir-me-ia uma espécie de minhoca se me esquecesse das pulhices que esse clube e a comunicação social que lhe dá colo, engendraram para prejudicar o FCPorto ao longo de décadas. 

Mas não é a esse tipo de orgulho que me refiro. O orgulho de que carece a minha condição de português é mais sério e amplo. Para mim, seria bem mais importante descobrir que o nosso 1º. ministro era o melhor 1º. minisro da Europa (já nem digo do Mundo para não pedir muito), do que saber que o ex-treinador do FCPorto, José Mourinho foi considerado o Special One dos treinadores de futebol dos últimos anos. Saber, por exemplo, que a nomeação de Durão Barroso para Presidente da Comissão Europeia assentou em critérios meritocráticos e não, como foi, por conveniência estratégica por parte dos verdadeiros líderes europeus (Angela Merkel e François Hollande) que lá o colocaram para encher um buraco e não incomodar... Ou então, orgulhar-me por saber que o salário mínimo nacional era dos mais altos da Europa, coisa que na realidade é exactamente ao contrário.

Portanto, nunca me vão ver em bicos de pés a imitar as portugalidades espúrias das RTP's ou das Bolas, porque esses não são os meus critérios de avaliação para me sentir orgulhoso.  Vale isto por dizer que nem sempre acho que "o que é nacional é bom".  Antes fosse.

Não sei se será pura coincidencia ou não, mas a péssima época da principal equipa de futebol do FCPorto parece ter contagiado as outras modalidades, e em vários escalões. Falarei apenas daquela que me pareceu mais evidente, o Hóquei em Patins, porque, tem a ver com aquela fracção de segundo em que um treinador pode tomar a decisão certa que o pode guindar, ou não, a si, e à sua equipa, ao 1º.lugar de uma competição. Trata-se, como já perceberam, da final da Liga Europa disputada em Barcelona entre o clube da casa e o FCPorto. O jogo começou com as duas equipas a estudarem-se mutuamente, cautelosas e muito concentradas. Isto durou cerca de 20 minutos, mais ou menos, até o Barcelona marcar o 1º.golo, curiosamente com a interferência de um jogador português (Pedro Moreira). Mesmo assim, a equipa pareceu não acusar o toque e conseguiu chegar ao empate através da marcação de um penalty supeiormente marcado por esse jovem génio Heldér Nunes. Na segundo parte porém, comecei a notar que a equipa, ou alguns dos seus elementos, começaram a afrouxar, e neste capítulo sobressaiu pela negativa o mesmo jogador, Pedro Moreira. Pensei cá para mim que já era tempo de o treinador fazer qualquer coisa e que essa coisa passava por substituir esse jogador que estava nitidamente em dia não. Tó Neves não pensou assim e curiosamente foi por uma desconcentração de Pedro Moreira que o Barcelona marcou o 3º. golo e conquistou pela 6ª. vez consecutiva o troféu ao FCPorto. 

São estas falhas, estes momentos de indecisão, que fazem muitas vezes a diferença entre um treinador ambicioso e um bom treinador. O deixar passar, ou o não agir atempadamente quando um elemento da equipa está em dificuldades, podem mudar tudo. Tanto é possível a equipa jogar mal e prejudicar o empenho de um jogador esforçado (como sucedeu no jogo de futebol com o Olhanense, a Herrera), como um só jogador pode prejudicar toda uma equipa, como aconteceu várias vezes (com Varela e outros).

É incontornável pois reconhecer que a intervenção de um treinador num jogo tem de ser rápida e corajosa, sobretudo quando se disputa uma final (não são afinal para se ganhar?). Quando tal não acontece, o mais natural é morrer-se na praia, como foi o que aconteceu...

Julen Lopetegui, o futuro treinador do FCPorto, referiu alguns itens que me deixam esperançado e que não costumo ouvir muito da boca de treinadores nacionais. Resumiu-se a isto:
  1. Espírito de equipa
  2. Obsessão colectiva
  3. Concentração competitiva
Disciplina, muita disciplina, digo eu... Mas agora, são preciso é actos.

29 abril, 2014

As minhas 22 regras de portismo, ou...


...as coisas que não gosto de ver no universo portista 

  1. Intriguice
  2. A Bola e o Record
  3. Desunião
  4. Falta de liderança
  5. Medo
  6. Desmazelo
  7. Incoerência
  8. Falta de seriedade
  9. Jogadores recém contratados comentarem nas redes sociais assuntos do foro profissional 
  10. Distanciamento comunicacional entre os adeptos e a Direcção do clube.
  11. Comentadores desportivos do tipo António Oliveira e Guilherme Aguiar
  12. Desorganização
  13. Treinadores incompetentes
  14. Jogadores e treinadores burros
  15. Treinadores alérgicos à disciplina
  16. Falta de audácia
  17. Jogadores com medo de rematar 
  18. Aselhice a passar e controlar a bola
  19. Treinadores sem capacidade para ensinar os jogadores a desmarcarem-se
  20. Falta de ambição
  21. Mau planeamento administrativo
  22. Derrotas

CÂMARA DO PORTO PREPARA “NOVO REGULAMENTO” SOBRE PROPAGANDA POLÍTICA

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, anunciou na segunda-feira à noite que, “dentro de pouco tempo”, vai ser apresentado “um novo regulamento” municipal sobre propaganda política e realçou que o actual está suspenso.
O autarca, que disse também que o regulamento em vigor “viola de facto a lei”, corroborando assim a opinião da CDU e do Bloco de Esquerda (BE), deu aquela notícia em resposta a uma recomendação que os bloquistas levaram à Assembleia Municipal – e que foi rejeitada.
A recomendação preconiza “medidas que garantam o exercício de propaganda política e eleitoral e uma paisagem urbana condigna”, defendendo que o executivo municipal assegure, nomeadamente, a “exclusiva utilização para propaganda política e eleitoral dos suportes metálicos instalados pelo município com essa finalidade”.
O BE recordou que o Tribunal Constitucional “julgou inconstitucional” uma disposição do Código Regulamentar do município portuense acerca dessa matéria e propôs que o executivo “adeque as suas normas à dignidade da actividade das associações e partidos políticos”.
Na sua recomendação, os bloquistas propõem ainda que o executivo “estude a possibilidade de alargar os suportes disponíveis para publicidade comercial, de forma a satisfazer a sua maior utilização e a combater a ocupação abusiva do espaço público pelas atividades que visam o lucro”.
“Eu não quero transformar a cidade do Porto em Pyongyang (capital da Coreia do Norte). Nós vamos continuar a ter publicidade e esta vai continuar a ser regulada, mas faz parte de uma cidade que quer ter comércio tradicional e hotelaria ter a publicidade”, disse Rui Moreira.
(do Porto24)

27 abril, 2014

Um FCPorto miserável

Que se passa senhor Presidente? Podemos saber?

Há redundâncias que deviam ser evitadas, porque quando são muitas vezes repetidas existe o perigo de perderem objectividade. Ninguém de boa fé (a boa fé também está em crise) pode negar que Pinto da Costa foi o maior responsável pelo grande salto do FCPorto para os podiuns de campeonatos e troféus, dentro e fora de portas, conseguido desde que Portugal conseguiu realizar eleições livres e aproximar-se um bocadinho daquilo que devia ser uma Democracia mas ainda não é.

Desde os anos 70, o FCPorto liderado por Pinto da Costa, foi o clube nacional que mais evoluiu, e simultaneamente o clube mais perseguido e discriminado pelo centralismo, o que só enaltece a competência e capacidade de luta do seu Presidente. Por isso, tornou-se já uma redundancia reconhecer o histórico vitorioso da sua carreira de dirigente. E se alguém quiser tirar dúvidas sobre o que de positivo escrevi acerca de Pinto da Costa, basta pesquisar um pouco neste blogue e ficará logo esclarecido. Mas, hoje não vou elogiar Pinto da Costa nem os membros da SAD, porque não o merecem. Também não merecem que os diabolize, mas não me vou poupar a escrever o que penso, como sempre faço.

Numa época desportiva em  que os adeptos confiaram mais uma vez nas decisões de Pinto da Costa, não porque gerassem consenso espontâneo, mas por estarem habituados à sagacidade do líder portista, e num ano em que o FCPorto "assumiu" a propriedade de um canal de televisão, tudo correu mal, muito mal mesmo.

No futebol, P. Costa falhou ao contratar um treinador extemporâneamente, inspirado apenas no curto currículo de um honroso 3º. lugar, e falhou por não cuidar de conhecer outros predicados importantes da sua peronalidade, como a capacidade de liderança, factor que no FCPorto raramente era negligenciado.  Falhou igualmente ao não exigir da Direcção do Porto Canal um projecto de televisão politicamente bem definido e estruturado, e provavelmente errou também na escolha do director geral. Se a displicência na organização dentro do canal salta a olhos vistos, a falta de  liderança também, parecendo curiosamente uma cópia do que aconteceu no futebol. Estranhas coincidências estas, ou antes  indícios de que algo vai mal na alma (estrutura interna) do Dragão?  Pois, dir-me-ão os que convivem mal com a crítica, nem sempre se pode ganhar... Treta!  O FCPorto desta época não se limitou a perder o campeonato e perder todas as provas que dispotou, o FCPorto mostrou sobretudo uma falta de ambição e de qualidade futebolística como já não se via há muitos anos! O FCPorto não teve uma época menos boa, teve uma época miserável e de verdadeira anarquia administrativa!  O grande enigma é  descobrir por que é que Pinto da Costa não agiu antes de deixar a equipa esgotar toda a confiança naquilo que ainda sabia fazer, teimando em manter um treinador que teve o bom senso de apresentar a demissão por várias ocasiões (três, segundo consta)...

E quanto aos adeptos, e aos sócios, que dizer? Durante esta penosa época o que fez Pinto da Costa por eles, que demonstrasse respeito e consideração? Nada! Nem pelos adeptos, nem pelos sócios, nem pelo futebol, nem pelo mesmo pelo futuro do Porto Canal. O FCPorto demitiu-se claramente de acompanhar, intervir, planificar e de gerir, em quase todas as frentes em que esteve envolvido, e isto tem forçosamente de ter uma explicação. Pena é, que tenham de ser as consequências (desastrosas)  a acelerar a futura descoberta das causas, e não - como devia - a intervenção atempada do líder portista que actualmente se tem mostrado estranhamente distante dos adeptos.

Paradoxalmente, P. C. permite que o Porto Canal continue a avançar numa onda de vulgaridade, sem um projecto definido, ambicioso, original, assumidamente regional e descomplexado. Custa-me admiti-lo, mas o anterior director do Porto Canal, por sinal um benfiquista, foi bem menos centralista e complexado que o actual director que parece nitidamente incapaz de organizar ou gizar uma linha orientadora com cabeça tronco e membros. Ali, não se vê uma ideia clara do que se quer realizar. Copia-se apenas, e mal o que já há na capital. Expondo de forma displicente as fragilidades de uma actividade mediática como é a televisão, sem se notar um esforço de mudança para progredir, sem uma explicação reveladora de respeito pelas audiências da região, expõe-se também à chacota pública dos inimigos da descentralização, e até dos próprios portuenses e nortenhos. E o FCPorto, versus, estrutura directiva, é o único e principal responsável pelo descalabro.

Gostava de pensar que Pinto da Costa não perdeu as faculdades que o caracterizaram, mas se não as perdeu que fale, que diga de uma vez o que pensa seriamente fazer no futuro próximo. Manter-se calado, passivo, quase incomunicável, é no mínimo estranho e fomenta a especulação.

Se a ideia é continuar nesta onda de mistério, então P.C. pode perder a legitimidade para se indignar caso alguém lhe falte ao respeito e a credibilidade que tanto lhe custou conquistar.

Subir é custoso, fácil, muito fácil é escorregar...e cair.  


25 abril, 2014

Mensagem da Associação 25 de Abril


Passados 40 anos depois da madrugada que deu origem a “o dia inicial inteiro e
limpo/onde emergimos da noite e do silêncio/e livres habitamos a substância do
tempo” qual o tempo que hoje nos é dado?

Cada dia que passa, assistimos à destruição do positivo que foi construído, em
resultado da acção libertadora de há 40 anos!

O país está vendido, em grande parte e a pataco, ao estrangeiro!
A emigração de muitos portugueses consuma-se, levando consigo muito do saber e
da capacidade indispensáveis à desejada recuperação de Portugal!
Os roubos permanentes a que os portugueses são sujeitos, da parte dos que deviam
protegê-los e prover pelo seu bem-estar estão a destruir a esperança no futuro!
A ausência de uma justiça igual para todos provoca o descrédito do que deveria ser
um Estado de Direito!

Os detentores do poder assumem-se, cada vez mais, como herdeiros dos vencidos
em 25 de Abril de 1974!

As desigualdades, consumadas no aumento do enriquecimento dos que já têm tudo e
no cada vez maior empobrecimento dos mais desfavorecidos, transforma a nossa
sociedade num barril de pólvora que apenas será sustentável numa nova ditadura
opressiva, com o desaparecimento das mais elementares liberdades.

O medo, pelo futuro, cada vez mais, propaga-se em variados sectores da sociedade!
Como há já alguns anos, manifestamos a nossa indignação face aos acontecimentos
que se estão vivendo em Portugal e configuram, sem a menor dúvida, um enorme e
muito grave descrédito dos representantes políticos, um logro à confiança dos
cidadãos e um desprestígio para o nosso País.

A Democracia baseia-se num pacto social, onde os cidadãos elegem os que
consideram os mais indicados para gerir os assuntos públicos e para os representar
durante um período de tempo previamente acordado.

A Democracia não é, nem pode ser jamais, a concessão a uns quantos de uma
patente de pilhagem para se enriquecerem durante quatro anos ou mais!

A Democracia tem o seu fundamento na confiança que os representados têm nos
seus representantes e na lealdade destes perante quem os elegeu.
Quando essa confiança é traída e essa lealdade desaparece, o prestígio e a
legitimidade moral da classe política desmoronam-se e o cimento da Democracia
apodrece.

Tudo isto tem-se agravado, cada ano que passa.
Porque continuamos a considerar que a antecâmara do totalitarismo surge quando
num Estado de Direito a classe política perde o seu prestígio, porque se transforma
numa espécie de casta que deixa de servir os interesses de todos para servir apenas
os seus próprios interesses.

E, porque queremos lutar pela manutenção da Democracia, que apenas será viável
pela reafirmação dos valores de Abril, proclamamos a imperiosa necessidade de:
Assunção de um compromisso nacional na defesa e manutenção do Estado Social
que legitimamente satisfaça as necessidades básicas, erradique a pobreza “vergonha
de nós todos”, e abra um caminho de esperança e de luz para o sector mais
desprotegido da sociedade portuguesa que lhe possibilite o acesso à formação,
educação e emprego.

Assunção de um compromisso nacional para a promoção de um duradouro programa
de educação e investigação científica, para qualificação dos jovens nas áreas
fundamentais da globalização.

Assunção de um compromisso nacional para a promoção de um programa duradouro
do sistema judicial, de forma a tornar a justiça mais célere e mais próxima dos
cidadãos, sem descriminação entre pobres e ricos.

Assunção de um compromisso nacional duradouro de um programa de emprego
agregador e integrador dos vários saberes e competências acumuladas, que incentive
o regresso de milhares de “cérebros” forçados à emigração, que incorpore jovens
licenciados, agregue adequados programas de formação para jovens que
abandonaram os estudos, e para trabalhadores activos que necessitem actualizar e
melhorar saberes e competências.

Assunção de um compromisso nacional e duradouro de um programa de
desenvolvimento económico sustentável à adopção dos objectivos enunciados para a
manutenção do Estado Social e dos programas de educação, justiça e emprego.
O governo e a cobertura que lhe é dada pelo Presidente da República protagonizam
os fautores do “estado a que isto chegou” razão pela qual não serão eles a quem
possa continuar a confiar-se os destinos de Portugal.

Torna-se, por isso, urgente uma ampla mobilização nacional para sermos capazes de
aproveitando as armas da Democracia mostrar aos responsáveis pelo “estado a que
isto chegou” um cartão vermelho, que os expulse de campo!
Temos de ser capazes de expulsar os “vendilhões do templo”!
Os desmandos e a tragédia da actual governação não podem continuar!
Igualmente, temos de ser capazes de retornar às Presidências de boa memória de
Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio!

O 25 de Abril foi libertação e festa, passou por participação e desenvolvimento, mas
passou também por retrocesso e desilusão, fruto da corrupção e esbanjamento.
Hoje sofre revanchismo, roubo e destruição.
Que se consubstancia em despudorados ataques à saúde pública, à educação, à
segurança social, ao direito ao trabalho, ao direito a uma velhice sossegada, e aponta
para o fim das liberdades, da soberania e da democracia.
Temos de ser capazes de ultrapassar os sectarismos, temos de ter a capacidade de, contrariamente ao que normalmente acontece, e reconhecer o inimigo comum, mesmo
antes de sermos totalmente derrotados.
Vencendo o conformismo, temos de ser capazes de resistir de novo, reconquistar as
utopias, arriscar a rebeldia e renovar a esperança!
Recolocados os valores da madrugada libertadora, nessa altura, vencido o medo,
poderemos então retomar a esperança de continuar a construir Abril!


Viva Portugal!
Viva o 25 de Abril!
25 de Abril de Abril de 2014



23 abril, 2014

Afinal, quem é o dono do 25 de Abril?

O duelo a que temos assistido nos últimos tempos, entre militares e adeptos de partidos de direita e de esquerda, para tentar convencer a opinião pública de quem é realmente dono do 25 de Abril, apesar de disparatado, não é propriamente inocente.  Devo dizer a este propósito que por essa altura tinha 26 anos, encontrava-me a viver em Lisboa, e portanto não era propriamente uma criança para ter hoje muitas dúvidas sobre como as coisas se passaram.

Comecemos pelo princípio - passe a redundancia - e vejamos simplesmente quem foi o verdadeiro dínamo da revolução. Por esgotamento com a guerra colonial, ou por outra qualquer razão, foram os militares (um grupo de oficiais capitães, sobretudo) os principais responsáveis pela criação de condições para instalar a Liberdade e a Democracia em Portugal, e mais ninguém. Ponto. Dito isto, importa lembrar que outros oficiais de patente superior se lhes juntaram, com a adesão maciça do povo e de algumas figuras políticas como Àlvaro Cunhal, Mário Soares e Sá Carneiro, só para falar das mais proeminentes. Mas importa também dizer, que uns tempos antes do 25 de Abril já havia sinais de que alguma coisa estava para acontecer. Para não falar de todos esses sinais, recordo apenas um que nem sequer é revolucionário, nem tão pouco partiu de um capitão, mas que era também militar, que foi o livro Portugal e o Futuro do General António de Spínola, que adquiri e li, pouco tempo antes da revolução. 

Ora, o facto de Spínola ter escrito esse livro não significou que fizesse parte do complot dos capitães, mas que já o pressentia, e como conservador que era, tentou sabutá-lo procurando, por antecipação "sensibilizar" o regime vigente, propondo o fim da guerra colonial e a implantação de algumas reformas. Só que já não foi a tempo. Depois disso, e apesar de nomeado representante do MFA (Movimento das Forças Armadas), em Março de 1976, Spínola foi secretamente para a Alemanha Federal negociar ilegalmente a compra de armas para um golpe violento de direita em Portugal. Foi o jornalista alemão Gunter Wallraff quem o denunciou no livro de sua autoria A Descoberta de uma Conspiração. Portanto, aqui não há inocentes, nem de esquerda nem de direita...

Sem inocentes, é certo, entre esquerda e direita, há no entanto diferenças marcantes. Em Portugal a direita orienta-se exclusivamente pela economia, por números, pelos mercados (materialismo e irracionalidade) e a esquerda sendo por tradição mais humanista tem pecado por falta de seriedade dos seus mentores, mas tem ideologias.

Tanto de um lado como de outro o problema maior são os homens. Se a seguir ao 25 de Abril um primo meu, oficial superior do Estado Novo me chocou quando, em conversa com meu pai (homem de esquerda) lhe confidenciou ter pedido a passagem à reserva "por não estar disposto a colaborar com canalha", hoje já não me choca que o General Garcia dos Santos (um militar de Abril) tenha dito praticamente o mesmo: "os políticos que governam actualmente Portugal são uns garotos, ignorantes, sem experiência". 

Curiosamente, ambos estavam (e estão) cheios de razão. Em Portugal, os excessos degradam tudo, até os ideais. Mário Soares, que lutou clandestinamente pela Democracia, não foi capaz de a gerir a contento porque não percebeu que até a liberdade não pode funcionar sem regras. Soares desautorizou demasiado a democracia e hoje é tarde para se queixar daquilo que afinal também semeou, e lamentavelmente agora poucos o levam a sério.  Há uma tradição laxista e de falta de carácter instalada na sociedada portuguesa. Invertê-la vai ser tremendamente difícil e vai demorar décadas. Pobre futuro, o do nosso país.

Quando um povo, zangado embora, aparentemente indignado, aceita calmamente que lhe vão ao bolso, que o roubem, só porque um grupo de miúdos no Poder lhe disse que andou a viver acima das suas possibilidades e que tem de pagar uma dívida, sem exigir que lhe expliquem seriamente por quê, onde, como, e quando a contraiu, é porque não merece melhores políticos. Quando se aceita por demasiado tempo, e pacificamente, uma governação medíocre e incompetente como a que temos, é sinal que também somos algo medíocres e incompetentes. Se o nosso povo aprecia o chico-espertismo é porque não é muito diferente de quem o anda agora a assaltar. Por isso - como dizem os franceses -, demerdez vous maintenant!

PS-Até o nosso amigo Manuel Serrão pensa que o 25 de Abril é património cobiçado entre a esquerda e a direita. Não, não é propriedade de ninguém. É sim, e justamente, da responsabilidade única dos militares de Abril. O resto é oportunismo. Se eles quisessem ser seus proprietários nunca teriam devolvido o poder à sociedade civil, e só por isso lhes devemos gratidão. Se os políticos destruíram o país, e a Democracia, a culpa não é deles.

18 abril, 2014

Tenham uma Páscoa tranquila

O problema é deles?

(do JN)
Tinha 10 anos feitos há uma semana em 25 de Abril de 1974. Não tinha consciência política formada e nem sequer fiquei com uma história gira para contar na sempre popular pergunta "Onde estava no 25 de Abril?". Pelo meio da manhã fui forçada a regressar da escola por uma mãe preocupada com as filhas e com o abastecimento de conservas e água não fosse tudo aquilo dar para o torto.

Mas o meu crescimento ficou para sempre marcado pela ideia de que tinha havido um "antes", em que a liberdade de que sempre gozei nem sempre teria existido. Apenas isto. A ideia de um "antes" que não me preocupou durante muito tempo mas que me tornou curiosa sobre quem o teria vergado.

Os capitães de Abril! Associei-os sempre a uma gente corajosa que se sentiu transbordar e se sacudiu da letargia dominante correndo não só o risco da revolução mas também o da sublevação, o que na vida militar é ainda mais perigoso.

Claro que as chefias acabaram por honrar a revolução dos capitães libertando-a, a seu tempo, do seu controlo. A postura sábia e igualmente corajosa do general Eanes fechava para mim um ciclo bem resolvido da história contemporânea.
E hoje, como então, estas são as ideias que me ocorrem quando falo do 25 de Abril. Militares que, de verdade, nos protegeram e nos garantiram a liberdade.

Portanto, para mim, como provavelmente para muita gente, celebrar o 25 de Abril - maxime os seus 40 anos de história - não faz pura e simplesmente sentido sem a sua participação na cerimónia da Assembleia da República. Na AR precisamente e não noutro local qualquer. Pelo poder do povo que só esta instituição representa. Como dizia o general Eanes, não estaríamos sequer à volta deste infeliz episódio se não fossem os capitães de Abril. Ou seja, não é matéria de opinião. É um facto. E celebrar um facto sem os seus fautores é pura e simplesmente desonroso. Sobretudo quando se alegam obstáculos da mais pura intendência formal que só apoucam quem por detrás deles se esconde.

Não quero saber qual é a norma e não quero saber qual seria a excepção mas quero que se perceba por que é que se insiste num erro, numa descortesia, numa total falta de sentido de Estado. Um povo que não honra os seus heróis é um povo sem memória.

Os capitães não são os donos de Abril? Os capitães fazem exigências arrogantes? Ou os capitães podem fazer um discurso subversivo? Todos os que os impedem de falar nestas circunstâncias ficarão, bem me parece, sob suspeita da mais mesquinha tática político-partidária. Tenho pena que a presidente da Assembleia da República não tenha percebido que este não é de todo "um problema deles" mas sim um "problema nosso", do povo, que devia saber interpretar.

Este meu sentimento não é tributário de uma memória de Abril muito focada na figura dos capitães. Como sempre na vida, os heróis humanizam-se e comentem erros. E eu acho que os capitães andaram mal em não estar presentes na cerimónia da AR nos anos anteriores.

A razão invocada não cumpre. Os capitães são mais do que eles próprios e a política do Governo é válida porque legitimada pelo voto popular. Não concordar com as orientações governativas de cada momento e por isso não marcar presença (segundo a informação veiculada) é confundir os cidadãos com as personalidades e a política com a liberdade.

Não os deixar falar - numa data tão excecional - é pura e simplesmente falta de respeito e essa tem de ter resposta à altura. Eu até prescindiria de qualquer outro discurso. E parece-me que não seria a única.

Em vez de meia dúzia de iniciativas, quase todas e como sempre em Lisboa, a Assembleia teria feito melhor se para além de nos pôr a ouvir os capitães nos mobilizasse a todos a repetir o extraordinário 1.º de Maio de 1974. Não para protestar, não para aplaudir. Apenas para celebrar com gente ao lado, em todas as cidades do país, a festa da rua, dos portugueses que apesar de tudo estão gratos e lembram bem quem, por eles e para eles, vergou março.

Nota de RoP:

Não canso de repetir: se o Partido Socialista, que, ideologicamente  se intitula como partido de esquerda (moderada), ainda não foi capaz de mostrar o que vale sempre que foi Governo, o PSD e agora o CDS, ainda valem menos. Com agravantes para estes dois partidos: ideologicamente, ambos desprezam a importância do papel social do Estado, o que, dito de uma forma mais honesta, significa que desprezam os mais carenciados, cuja existência, como se sabe, é historicamente potenciada quando é a direita a governar. Por isso, não acredito que haja um pingo de sinceridade quando falam positivamente sobre o 25 de Abril. Por isso, falam com a inconsciência dos elitistas, como falou a Presidente da Assembleia da República. Alguns, têm o descaramento de dizer que o 25 de Abril não é dos militares, quando o mais digno acto dos militares além da própria revolução, foi precisamente terem devolvido o poder à sociedade civil. 
Quem não percebe isto só pode estar de má fé.

16 abril, 2014

Duarte Lima libertado...ou a suprema vergonha da (in)justiça portuguesa

Duarte Lima libertado
Duarte Lima, o Santo do PSD


O tribunal decretou, esta quarta-feira, a libertação de Duarte Lima, que se encontrava em prisão domiciliária, por considerar que o perigo de fuga está diminuído, confirmou ao JN o advogado Raul Soares da Veiga.

"Houve reapreciação da medida de coação e considerou-se que o perigo de fuga e outros do género estão diminuídos", disse Raul Soares da Veiga à agência Lusa, que se mostrou de acordo com a decisão judicial, embora a tenha considerado "tardia".

O advogado disse ainda que Duarte Lima, que se encontrava em casa com pulseira eletrónica, já foi notificado da decisão.
Em meados de março, a 7.ª Vara Criminal de Lisboa manteve a prisão domiciliária aplicada a Duarte Lima, um dos seis arguidos em julgamento no processo relacionado com aquisição de terrenos no concelho de Oeiras, através de empréstimo concedido pelo BPN.

Duarte Lima está acusado de três crimes de burla qualificada, dois crimes de branqueamento de capitais e um crime de abuso de confiança na forma agravada, esteve em prisão preventiva até maio de 2012, altura em que foi alterado o regime.

Nota de RoP:
A Justiça em Portugal está há uns anos a esta parte numa maratona incansável para provar ao mundo como é humilhante ser cidadão português.



13 abril, 2014

Porto Canal, a parolice bajuladora em forma de televisão

Sim, meus caros, isto do Porto Canal já parece uma obssessão, mas não é. É o que os meus olhos vêem.

Nunca me passou pela cabeça que o Porto, depois de ser durante décadas silenciado pela toda poderosa máquina de comunicação centralista, e de andar a queixar-se entre muros de não ter uma "voz" que se fizesse ouvir no país, fosse capaz de desperdiçar essa ferramenta preciosa que é dispor de um canal de televisão para com ele poder contribuir para a sua autonomia.

A improvabilidade de tal desperdício cresceu, sobretudo  depois de ver fracassados vários projectos de televisão, como a NTV e os sucedâneos malabaristas que os levaram à extinção (RTPN), porque nem sequer admiti a hipótese de o Porto deixar fugir a oportunidade uma terceira vez. Nasceu assim o Porto Canal (em 2006), através do grupo espanhol MediaPro que em 2011 vendeu ao FCPorto 97% da quota da sua participada Media Luso. A partir daí, convenci-me que não íamos outra vez deixar escapar a oportunidade de nos afirmarmos com um projecto de televisão a valer. Pura ilusão.

Pura ilusão minha, mas desculpável, porque acreditei que com o FCPorto como principal accionista, e a sua provervial organização,  nada mais podia falhar. Para azar daqueles que, como eu, andam saturados do centralismo, este forte investimento do FCPorto coincidiu com uma época desastrada do clube, quer em termos de gestão do plantel e do treinador como em resultados desportivos e financeiros. Se no clube as coisas já não iam bem, seria estranho que funcionassem no canal, ainda que não fosse impossível. Mas para que tal pudesse acontecer teria de haver dinheiro e aplicá-lo bem, e na falta dele, haver no mínimo alguma criatividade e competencia, coisa que está a faltar.

Tenho consciência que organizar uma televisão sai caro, não é fácil e contempla audiências de gostos e exigências diversos, mas não tenho capacidade para compreender a necessidade de copiar as futilidades programáticas que se fazem em Lisboa e que são do conhecimento de todo o país. Júlio Magalhães como Director Geral lá saberá, mas eu não sei o que é que o Porto terá a ganhar em conhecer a biografia de actores e figuras públicas de Lisboa já conhecidas em todo o país.  Não tenho nada contra essas pessoas, mas o que pergunto é se no Porto e nessa região demograficamente intensa como é o Norte de Portugal não existem protagonistas susceptíveis de merecer a atenção do Porto Canal. 

Se Júlio Magalhães considera mediaticamente interessantes os colunáveis, essa gente das revistas côr-de-rosa, e se não as encontra no Norte e no Porto, então que se atreva a voar mais alto e nos traga informações de pessoas e temas interessantes que sejam desconhecidos, e se não aprecia ou não as descobre no Norte, então que vá para o estrangeiro procurá-las.  Agora, de Lisboa? Para quê? Para isso, estão lá 3 canais abertos e meia-dúzia em canal fechado. Não percebo a vantagem de dar publicidade a quem já a tem. Nem percebo a originalidade...

Ricardo Couto, o rapaz que tem um programa (um talk-show) de "conversas" a que dá o nome, é o homem que Júlio Magalhães escolheu para mimar os tios e as tias da capital e que está a prestar-se ao papel miserável de bajulador e provinciano como não há memória no Porto. Estou enojado com tanta bajulação. Os entrevistados têm bons motivos para se sentirem vedetas  de ego inchado. Esta não é de todo uma estratégia séria para levar o Porto para a frente. Esta é das mais humilhantes formas de prestar vassalagem ao centralismo.

Nós não precisamos de hostilizar ninguém, mas também não sei como o FCPorto e principalmente o seu presidente, Pinto da Costa, entendem que esta política de lambebotismo seguida pelo Porto Canal nos pode levar a algum lado, e sobretudo, nos pode tratar a dignidade já tão ferida pelo centralismo. E ninguém melhor que ele sabe o que isso é. Não foi assim que Pinto da Costa se afirmou, foi lutando e denunciando.

Que ninguém se atreva a dizer-me que confundo as coisas. O centralismo não é uma coisa abstracta, tem rostos, e eu conheço muitos. Alguns estão no Porto e no Norte, e outros, imaginem, estão dentro do próprio Porto Canal...

10 abril, 2014

Um FCPorto como o clima, instável, instável

Quem pensar que as críticas que aqui tenho dirigido à gestão do Porto Canal não têm qualquer relação com a péssima época desportiva do FCPorto que se desengane, porque tanto o clube como o  canal são da responsabilidade da mesma entidade, ou seja, da estrutura directiva do FCPorto. Isto, se for verdade que o clube é mesmo o legítimo proprietário do Porto Canal, facto que parece ainda pouco claro, como aliás pouco clara é, a imagem de marca do FCPorto deste ano em relação a quase tudo. O resto, é conversa.

Resumindo: este ano, o presidente Jorge Nuno Pinto da Costa e respectiva SAD estão a fracassar em toda as linhas. Mais. Atrevo-me a escrutinar que, além da Super Taça de início de época, em termos desportivos, o clube arrisca-se a não ganhar nada. Na actual situação não sobra muito espaço para grandes optimismos e até me parece contraproducente. Eu não acredito porque sim, acredito porque e quando se é competente.  

A derrota copiosa desta noite (4-1) frente ao Sevilha e consequente eliminação da Liga Europa é apenas o resultado (o campeonato já se foi) de um certo laxismo de gestão verificado nos últimos 2/3 anos. A aposta cega na habitual incompetência dos adversários directos, sem atentar aos sinais de mudança  positiva que se vinham verificando, foi um erro crasso e uma atitude imperdoável de arrogância cujo preço ainda estamos longe de poder avaliar. Depois, a desastrosa contratação de um treinador praticamente desconhecido, sem se saber nada do seu perfil psicológico, da sua capacidade de liderança, tendo um modesto 3º. lugar no Campeonato como melhor registo currícular, só veio agravar a situação. Descontando os primeiros desaires, ultrapassado exageradamente o período de tolerância com Paulo Fonseca, a direcção do clube entrou numa onda  de facilitismo altamente perigosa que arrastou o clube para a actual situação.   

No Porto Canal as coisas vão nessa mesma onda. Alguma anarquia de gestão, uma programação pobre e pouco criativa, uma total falta de estratégia editorial acumulada com a renúncia em defender os interesses do clube e da própria cidade contra as impiedosas investidas centralistas, provam que algo vai mal no reino do Dragão.

Que as coisas já não são como eram, disso já não pode haver dúvidas. E não me venham com a história cansada de que não se pode ganhar sempre, porque o problema não é tão simples quanto isso. O FCPorto está com a sua identidade adulterada e em risco de colapso. Qualquer equipa do meio da tabela chega ao Dragão e faz o seu jogo como se estivesse a jogar em sua própria casa. O futebol de Paulo Fonseca deixou mazelas profundas, e não é de um dia para o outro que se pode exigir de Luís Castro o que Paulo Fonseca  não fez em quase toda uma época. Ou antes, fazer até fez, e não foi bom: desmantelou tudo o que restava de positivo. Mas, o principal responsável chama-se Jorge Nuno Pinto da Costa e membros da SAD. E é pena, porque os adeptos, entre os quais me incluo, sempre acreditaram naquilo que ele disse quando afirmou que na hora em que entendesse já não controlar o leme da nau, deixaria o lugar promovendo eleições no clube para o ceder a outro.  Será que esse momento chegou? Se chegou, então toca a cumprir a palavra.

Off topic, ou talvez não;

a postura dos nortenhos e seus putativos líderes dos últimos anos, assemelha-se em tudo à reacção de algumas pessoas na presença de certos animais: quando deles se aproximam, logo são atacadas porque o medo farejado pelo animal é interpretado como uma ameaça. 

Agora neguem lá que os nortenhos não se têm fartado de transmitir medo a esse monstruoso animal chamado centralismo? Ele morde-nos (e cada vez mais) porque nós somos incapazes de provar que não o tememos. É assim na política, na cidadania, e agora, até no FCPorto...

08 abril, 2014

O sobe e desce da pobreza e do crime

Tivemos no espaço de poucos dias a divulgação de dados estatísticos oficiais sobre a pobreza e a criminalidade em Portugal. Embora se trate de dados independentes entre si, é curioso terem vindo a público em dias tão próximos.

É que se referem a fenómenos sociais que andam juntos desde há muito no pensamento elementar do senso comum: os ambientes da pobreza seriam caldo de cultura delinquencial, facto que a própria ciência validou enquanto concentrou o seu olhar nos aglomerados do operariado que era necessário vigiar e conter.
A prototeoria do senso comum dá como certo que o natural é que os pobres roubem os ricos, o que é de muito mais fácil compreensão espontânea do que teorias que procuram evidenciar o modo como os ricos roubam os pobres. Daí a dificuldade para julgarmos seriamente a corrupção, daí a pouca sensibilidade para considerarmos como crimes certas atividades secretistas de indivíduos das elites que, objetivamente, nos roubam a todos, como tem sido notório desde que a crise financeira mundial de 2008 desatou a descobrir carecas. Podíamos dizer que estamos neste caso perante roubos indiretos, ocultando deste modo a evidência tanto de quem é o ladrão como de quem é a vítima. E o problema é que o senso comum só classifica como crime aquele que é direto e permite suspeitar do infrator e identificar a vítima.
O tipo de criminalidade que mais preocupa o cidadão comum e as autoridades, a que é classificada como grave e violenta, diz o relatório de segurança interna ter diminuído quase 10% em relação ao ano anterior (compara 2013 com 2012).
Não dou grande atenção a este ritual anual de divulgação das estatísticas da criminalidade. As razões são fundamentalmente duas: baseiam-se no crime registado pelas polícias, o que é apenas uma parte daquele que ocorre, estando certos tipos de crime hiper-representados e outros quase invisibilizados em função da pouca frequência das denúncias; comparar fenómenos multifatoriais e multideterminados como o crime de um ano para o seguinte não tem, salvo exceções, significado – não regista tendências, mas flutuações.
Feita a advertência, especulemos sobre as possíveis razões desta diminuição:
1. Os delinquentes, tal como o resto dos cidadãos, andam acabrunhados com o que se tem abatido sobre o país e, tomados de afetos depressivos, produzem menos.
2. Tal como advertiu há poucas semanas Belmiro de Azevedo, estamos longe dos padrões de produtividade dos alemães, o que provavelmente é transversal a todos os setores de atividade. Por que havia o empreendimento criminal de fugir à regra?
3. Tem saído muita gente para o estrangeiro à procura do trabalho que não há cá. Um efeito provável do êxodo migratório é o dos nossos delinquentes estarem a rumar a outras paragens onde o horizonte do delito seja mais risonho, também eles vítimas do tão pouco que começa a haver para roubar num país que anda a ser roubado há vários anos a pretexto duma crise.
4. Vêm agora menos imigrantes dos países que os alarmistas das invasões por extraterrestres diziam serem os responsáveis pelo aumento e, sobretudo, pela gravidade da criminalidade: romenos, brasileiros, criminosos de alto coturno sobrantes do desmantelamento militar do antigo bloco soviético, gangs multinacionais do tráfico de mão de obra, etc.
A criminalidade tem o mesmo problema de outros fenómenos sociais sobre os quais todos expedimos certezas: está sujeita ao preconceito no lugar da explicação, ao devaneio mascarado de causa, ao delírio disfarçado de teoria. É um bom terreno para se brilhar no ecrã televisivo a dizer uma torrente de banalidades temperada com uns termos técnicos para convencer a audiência.
Ora, um dos mitos que continua a fazer carreira é o da ligação causal direta entre pobreza e cometimento de crime. Trata-se duma falsa relação que é fácil de demonstrar através de inúmeros exemplos. Pois bem, a nossa realidade recente é só mais um deles. Com o que o INE acaba de revelar sobre o aumento da pobreza em Portugal ficámos, por exemplo, a saber esta coisa espantosa: se não fossem as transferências do Estado em subsídio de desemprego, abono de família, pensões de sobrevivência e outras prestações sociais, 46% dos portugueses estariam abaixo do limiar de pobreza. Deveríamos, segundo as pseudoteorias da relação pobreza-criminalidade, ter então feito aumentar esta ao subir aquela. Passou-se, ao que dizem os números, exatamente o contrário.
Não queria terminar estas reflexões sem uma justa homenagem ao governo. Tem o executivo de Passos Coelho revelado grande rasgo visionário desde que tomou posse. Ora, também no campo aqui em análise estão na linha da frente: sabem que a relação pobreza-criminalidade não só não é direta, como é precisamente o contrário: é inversa. O empobrecimento a que votaram a maioria dos portugueses, o modo como atingiram ainda mais os que eram já pobres, tem afinal dois propósitos. O primeiro é voltar a colocar Portugal como destino barato para turistas, para investidores, para especuladores, para vistos gold; o outro é baixar decisivamente as taxas de criminalidade, que não paravam de crescer desde os anos 80 do século XX…
Luís Fernandes 
(Fonte: Porto24)