03 agosto, 2008

Modus operandi do centralismo II

A nossa boa amiga ANA

A possibilidade de o Governo entregar a privados a gestão independente do Aeroporto Francisco Sá Carneiro é já um caso de estudo, mesmo antes de se conhecer o desfecho do repto que o primeiro-ministro lançou às associações empresariais do Norte para que, juntas, encontrassem uma solução para o caso.

Ao longo da semana, uma sucessão de episódios ajudou a tornar evidentes duas coisas: o peso do centralismo e as manhas a que os seus defensores recorrem, sem ponta de pudor, para se agarrarem a todos os bocadinhos de poder; e o modo politicamente muito relevante como Rui Rio tem gerido a matéria.

O consórcio formado pela Sonae e pela Soares da Costa, respaldado por uma inédita conjugação de esforços políticos entre quatro associações do Norte, respondeu com números ao desafio de Sócrates - as duas empresas oferecem mais de 800 milhões de euros pela concessão do aeroporto do Porto num horizonte de 25 a 30 anos. E propõe-se ainda contribuir, durante este período, com mais de 200 milhões de euros para um fundo de promoção da Região Norte como destino. Os investimentos previstos ultrapassam os 500 milhões de euros.

A proposta é boa ou má? Num país normal, ela seria contraditada por quem não acha piada ao negócio. Num país como o nosso, há uma entidade chamada ANA, a quem compete a gestão dos aeroportos, que nos toma por mentecaptos. Porque só assim se percebe o que a ANA fez: mal soube da proposta, recuperou um estudo que indica que os preços médios por passageiro mais do que duplicarão, caso o aeroporto do Porto passe a ser gerido de forma independente. Um susto, um horror…

Esta é a mesma ANA que nunca mostrou na totalidade o referido estudo. É a mesma ANA que se recusa a libertar os números mais relevantes sobre o aeroporto do Porto. É a mesma ANA que treme de medo quando se coloca a possibilidade de retirar o Sá Carneiro do bolo da sua privatização. É a mesma ANA que, por fim, se preocupa com o facto de os privados virem a ter prejuízo. A Sonae e a Soares da Costa são, de resto, conhecidas por gostarem de perder dinheiro… Estas são algumas das estupefacções a que a ANA e o Ministério dos Transportes de Mário Lino estão obrigados a esclarecer. Em nome da transparência.

Finalmente, Rui Rio. É ele que tem conduzido politicamente o assunto. É ele que aparece, ao lado de quatro associações empresariais do Norte e respaldado por dois dos maiores patrões do país, a falar directamente para Sócrates. Verdade que é ele o presidente da Junta Metropolitana do Porto. Verdade também que é ele o mais que provável candidato do PSD ao Porto. Verdade também que é ele o número dois do PSD. O PS gostará deste protagonismo?



(Paulo Ferreira, JN)


Nota-É claro que Rui Rio é "dono" das três verdades apontadas pelo PF, mas a questão que podia ser colocada é a seguinte: tem sabido, Rui Rio, aproveitá-las para a cidade?

3 comentários:

  1. Se estamos entregues ao "Rio", vamos acabar numa Etar.
    Um abraço

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  2. Estes assuntos merecem um tratamento muito mais responsável e com elevado sentido altruista.

    Não é com frases de humor que conseguimos alguma coisa!

    O centralismo domina tudo e todos e ainda por cima só vejo resignação !

    Assim não vamos longe.

    Abraço

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  3. Amigo Renato,
    Noto alguma amargura no seu comentário, e não posso deixar de lhe dar razão.
    Eu também me sinto indignado, mas tem que perceber que isto aqui é apenas um espaço de cidadania onde podemos ir trocando pareceres, dar ideias e denunciar as asneiras graves que se cometem no Porto (e não só).
    Ainda há bem poucos anos não existia a blogo-esfera e agora, pelo menos podemos fazer alguma coisa. É muito pouco é verdade, mas pode ser que entretanto surjam novos e mais eficazes meios de luta, quem sabe?
    Não desespere, haja confiança.

    ASbraço

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