01 fevereiro, 2009

Regresso às origens

Uma empresa espanhola, a Iberdrola, vai construir quatro novas barragens no norte de Portugal, na bacia do alto Cávado. Numa época em que não havia essa entidade tentacular e centralizadora que dá pela sigla de EDP, o espirito empreendedor dos nortenhos tinha-se manifestado mais uma vez, neste caso através de duas empresas exemplares, as Hidroeléctricas do Douro e do Cávado. Quando não havia ainda a obcessão das energias renováveis, estas duas empresas iniciaram o aproveitamento daqueles dois rios e deixaram uma obra que está aí para ser vista e apreciada por quem goste de circular por essas paisagens belas mas actualmente abandonadas, vítimas das políticas centralizadoras dos últimos governos da nação. Foram essas empresas, juntamente com outras igualmente nortenhas de menor expressão e que já existiam há muito tempo, como a CHENOP, a UEP, a Electro del Lima, e mais umas quantas cujos nomes já não recordo, engolidas pelo novo monstro que, obviamente, teria de ter a sua sede social em Lisboa.

O país necessitava de mais energia eléctrica, o Norte fica muito longe de Lisboa, era incómodo para as "trutas" da EDP terem de se deslocar da capital até Trás os Montes ou Alto Minho, então o melhor era gerar a nova electricidade o mais perto possível de Lisboa. Na impossibilidade de contruir uma central no Terreiro do Paço, escolheram-se então dois locais próximos, Carregado e Pêgo. Não há aí rios turbináveis, mas isso não foi problema: passou-se da hidro-electricidade para a termo-electricidade. Em vez de uma energia renovável e nacional, passou-se a utilizar produtos não renováveis e importados: carvão e derivados de petróleo. Um parenteses para referir a central térmica da Tapada do Outeiro, situada na margem do Douro, no concelho de Gondomar, e que foi um caso à parte. Construída no "antigamente" destinava-se a aproveitar os carvões pobres das carboníferas de São Pedro da Cova e do Pejão. Trabalhou até o esgotamento das minas, e foi depois convertida, já recentemente.

De tudo o que fica exposto, concluo que é sintomático que tenha sido uma empresa não portuguesa que se propõe investir fortemente - 1.400 milhões de Euros - numa riqueza do Norte tão desprezada pela EDP. Fá-lo não por caridade nem por simpatia por esta região. Fá-lo porque é economicamente interessante. A EDP não foi capaz de o fazer. A distância de Lisboa é grande e as estradas nem sempre são confortáveis. Desconfio mesmo que há muitos (políticos) chefões da EDP que não têm a certeza de onde exactamente fica o Alto Cávado.

É aqui que o meu peculiar patriotismo se manifesta, não pela cor da bandeira, mas por quem, tendo afinidades étnicas e culturais comigo, contibui para o progresso e bem estar da minha região. Por isso venham os espanhóis. Por mim, até podem tomar conta da região. Fico a pensar que trocar Lisboa por Madrid ou mesmo por Compostela, poderá ser uma opção vantajosa.

4 comentários:

Rui Valente disse...

Apoiado, Rui Farinas!Não tenho mais comentários a fazer.

António Alves disse...

embora concorde com os pressupostos políticos e económicos da opinião do Rui Farinas, tenho uma questão de fundo que me impede de olhar para isto com bons olhos: não sei se construir mais barragens é uma boa opção. As barragens matam os rios e provocam alterações na paisagem, e até nos micro climas, que me levantam muitas dúvidas. O que está previsto para o Tâmega, todas a montante de Amarante, vai acabar definitivamente com este Rio e alterar mesmo a configuração do rio na própria cidade. A paisagem urbana de Amarante é um dos seus melhores activos económicos que será assim destruído.
Está na hora de acabar com o tabu da energia nuclear. Todas estas outras formas de produzir energia eléctrica são no seu conjunto mais destruidoras do meio ambiente que uma central nuclear. A energia hidroeléctrica não é uma forma de energia ecológica. É apenas renovável. Tal como esta mania das 'ventoinhas' no topo dos montes: além de serem evidente poluição estética, são também fontes de poluição sonora: a vida animal desaparece completamente das redondezas.

Rui Valente disse...

António,

Não estou assim tão seguro das vantagens do nuclear...A falta de debate sobre o assunto faz o tabu. Confesso que nesta matéria de energias, não estou suficientemente esclarecido.

Concordo também que a poluição estética das ventoínhas, não é para ignorar. Acho-as altamente desagradáveis. Se a moda pega, temos o Douro vinhateiro e aquela soberba paisagem infectada de «vira-ventos».

vitorsilva disse...

em relação à opção nuclear posso sugerir a leitura deste artigo: forget nuclear http://www.rmi.org/sitepages/pid467.php
embora os dados utilizados para cálculos sejam relativos à realidade americana imagino que no geral sejam aplicáveis para portugal.