13 outubro, 2009

Resultados: uma análise sócio-política

Ao contrário do que alguns tentam fazer crer, a vitória de Rui Rio não se deve ao ‘povo’. O núcleo duro de votantes de Rio é uma elite. A elite financeira e económica, a burguesia tout court, que habita principalmente em Nevogilde, Foz, Lordelo do Ouro, Aldoar, Massarelos e Cedofeita. As maiores percentagens de Rio foram obtidas nestas freguesias. Nevogilde, paradigmaticamente, deu-lhe uma votação de 77%; a Foz 59%. Lordelo, mais eclética, mas que inclui a Gomes da Costa, o Cristo Rei e parte significativa da Av. da Boavista, premiou-o com mais de 52%. Cedofeita também 52%. Em Aldoar, mais classe média, também com bairros sociais, mas que inclui igualmente parte da Av. da Boavista, a Fonte da Moura, António Aroso e toda a zona do Garcia da Orta até à junta de Nevogilde, obteve 46,5%. No total, nestas freguesias somou 24 562 votos. 39,3% da sua votação. A grande freguesia do oriente e o centro histórico, significativamente as mais pobres, discriminadas e abandonadas partes da cidade, votaram maioritariamente em Elisa Ferreira. Mas é inegável que Rio não venceria sem parte considerável da classe média que resta (Paranhos, Ramalde) e de muita gente dos bairros sociais. A estratégia da coesão soldada a tinta plástica resulta. Significativo é também a transferência de muitos votos comunistas, e até do BE, para Rio, como demonstram a diferença entre a votação para a Assembleia e a Câmara. Afinal, os extremos tocam-se, não é? Esta é uma cidade dual e isso reflecte-se nos resultados eleitorais.

O que me intriga é que este homem, com uma excelente estratégia eleitoral, tenha uma visão tão estreita da cidade e, parafraseando António Lobo Xavier, seja um incapaz de qualquer “comunicação de sonhos” e se limite a ser “um homem muito prático”, que “não fala de grandes projectos, não exibe um grande conhecimento do mundo”. Reflecte, no fundo, o Porto actual e a sua burguesia. Ao contrário do que advoga Rui Moreira no seu recente livro, o frenesim político pós 25 de Abril desta burguesia não se deveu ao seu intrínseco liberalismo, pois este há décadas e décadas que desapareceu. Deveu-se ao seu atávico terror em perder privilégios e profundo horror à modernidade. Aliás, um arquétipo desta burguesia é o sempre presente advogado Miguel Veiga.

Também é verdade que a maioria dos portuenses votantes não votou em Rui Rio – 69 mil eleitores contra 62 500 escolheram outras opções. Nenhuma vitória se deve ao ‘povo’ quando a maioria do povo não votou nessa opção. Mas o sistema eleitoral autárquico é este e eu até concordo com ele. Resta-nos democraticamente combater a gestão sem “grande conhecimento do mundo” desta Câmara.

6 comentários:

Luis disse...

Caro António,

Mesmo a dita burguesia do Porto revia-se nos valores que faziam da Invicta uma cidade de carácter.
Agora é umaa burguesia decrépita e sem os valores que fizeram de nós Tripeiros, sinónimo de solidários.
O exemplo do Rui Moreira, para não falar do Serrão é paradigmático, falam muito e pouco acertam, acima de tudo desiludiram-me, tornaram-se gente sem carácter e capaz de trair os seus principios e simbolos de Portuenses.
Mais do que triste estou muito desiludido com estes habitantes da cidade e apenas habitantes nunca Tripeiros.

Luis disse...

A burguesia do Porto com todos os seus defeitos e virtudes, era arreigada aos seus simbolos e ciosa da sua cidade.De certeza que não permitiria afrontas ao que nos é mais sagrado,servis ao Terreiro do Paço nunca!Acontece que agora são uma burguesia decrépita, fala-barato e com perda de identidade.
Nem Rui Moreira nem Serrão me convencem com a sua prosápia de trazer por casa.Falam muito mas não têm verdadeiro amor à Invicta, senão com o tempo de antena que lhes é dado, lutavam a sério pela nossa cidade.
Estou muito desiludido com esta gente!

Rui Valente disse...

Há um indisfarçável receio de "parecer mal", de não ferir susceptibilidades com os orgãos centrais do poder.

Seguem, submissos, o lema "se não podes vencê-los, junta-te a eles"...

Rui Valente disse...

Amigo António Alves,

Como é habitual, o seu post é muito esclarecedor e objectivo.

Admiro pessoas que não se deixam influenciar facilmente pelo folclore das "vitórias do povo" recomendadas pela comunicação social e "sus muchachos".

Um abraço

portodocrime disse...

Amigo António Alves.

eu Portuense de Massarelos a viver ao lado do Porto,
fui votar porque sim e na Elisa porque sim.
o meu porque sim era para derrotar o contabilista e presidente da cãmara.
não deu.
mais quatro anos de nada.
Eu vou aguentar sempre que entre na minha cidade.

Espero que daqui a quatro anos,
o "pobo" seja mais exigente.

Abraço

meirelesportuense disse...

Perfeitamente de acordo com esta leitura, dos resultados eleitorais e do carácter de muita "gente-boa" do Porto...O Porto adultera-se em Lisboa, até para não perder a primazia no Porto.
A isto se chama ser pragmático, dúctil, plástico e de bom-senso...Porque o bom-senso manda que o Povo "seja remetido" ao seu devido lugar.
E "as tropas" estão aonde?...Ora as tropas são sempre necessárias quando a crise aperta.